21 de maio de 2026

Os efeitos do noticiário internacional nos imaginários geopolíticos de estudantes, por Francisco Ladeira

Como os alunos do ensino médio recebem as notícias manipuladas da mídia hegemônica? Como filtram essas narrativas maniqueístas?
Reprodução

Pesquisa no IFMG analisa imaginários geopolíticos de alunos sobre Rússia-Ucrânia, Palestina e agressões dos EUA à Venezuela.
Estudantes rejeitam narrativas maniqueístas da mídia, mas reproduzem rótulos como “Maduro ditador” e “Hamas terrorista”.
Mídia influencia opiniões ao longo do tempo; falta de cobertura leva ao esquecimento dos conflitos internacionais.

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Percepção, opinião e esquecimento: os três efeitos do noticiário internacional nos imaginários geopolíticos de estudantes

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por Francisco Fernandes Ladeira

No pós-doutorado que realizo no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – campus Ouro Preto, estou desenvolvendo uma pesquisa sobre os imaginários geopolíticos de alunos do ensino médio e suas relações com os discursos dos noticiários internacionais da grande mídia brasileira. Selecionei como objetos de estudo os três focos de tensão mais noticiados nos últimos anos: o conflito Rússia-Ucrânia, o genocídio palestino e as agressões dos Estados Unidos à Venezuela – bem como o posterior sequestro do presidente Nicolás Maduro.

Os resultados provisórios indicam que, diferentemente de outras épocas, os imaginários geopolíticos dos estudantes já não são tão permeados pelas narrativas maniqueístas da mídia hegemônica. Eles não compram discursos sobre a “poderosa” Rússia que teria atacado a “indefesa” Ucrânia “do nada”, sobre Israel estar apenas “se defendendo” dos “potenciais terroristas” palestinos ou sobre os Estados Unidos terem se transformado em uma potência imperialista apenas após o governo Trump.

No entanto, o rótulo “ditador”, aplicado a Maduro, está bastante presente nos imaginários dos estudantes. Isso comprova que, quando um determinado discurso é insistentemente divulgado nos meios de comunicação de massa, há uma forte possibilidade de ser reproduzido pelo público. Como já dizia o ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

As formas de recepção dos três focos de tensão geopolítica indicam resultados interessantes sobre as relações entre mídia e público. É importante lembrar que a pesquisa está sendo realizada neste mês de janeiro, enquanto a invasão da Ucrânia pela Rússia ocorreu há quatro anos. Desde então, a repercussão sobre o conflito no Leste Europeu tem paulatinamente diminuído nos noticiários. Sem a mídia para constantemente relembrar este acontecimento, os alunos, em sua maioria, tendem a ter pouco ou nenhum conhecimento sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia. Isso não significa, evidentemente, que os noticiários vão ditar o que as pessoas pensam sobre determinado assunto. Porém, a visibilidade midiática é fundamental para pautar a agenda pública em relação aos acontecimentos internacionais. Se não está na imprensa, o interesse será menor – ou mesmo inexistente.

Já o recrudescimento do genocídio do povo palestino, após a contraofensiva dos grupos de resistência no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, e a posterior reação desproporcional do Estado sionista – devastando a infraestrutura de Gaza e assassinando indiscriminadamente sua população –, teve grande repercussão tanto na grande mídia quanto na imprensa alternativa e nas redes sociais. Com o genocídio exposto em imagens e vídeos, é improvável pensar que os alunos formulem suas opiniões a partir do discurso de “defesa de Israel”. Contudo, o rótulo “Hamas terrorista”, assim como “Maduro ditador”, foi constante nas respostas dos alunos ao questionário proposto em minha pesquisa.

Por fim, a repercussão da agressão estadunidense à Venezuela entre os estudantes foi abordada no chamado “calor dos acontecimentos”. A maioria dos participantes do estudo limitou-se a descrever os eventos no país sul-americano. Ou seja, eles possuem meras “percepções” sobre os ataques dos Estados Unidos, captando apenas os dados brutos. Isso ocorre porque ainda não houve tempo hábil tanto para processarem os fatos e formularem opiniões (como no caso da geopolítica palestina), quanto para esquecer o que aconteceu, a exemplo do conflito Rússia-Ucrânia.

Portanto, os resultados do meu estudo, até aqui, apontam que os prováveis efeitos sociais do discurso midiático não estão no contato imediato entre mensagem e receptor, mas no acúmulo de informações que os principais veículos reverberam ao longo do tempo. Tal conclusão já foi apontada por nomes como Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, para quem pesquisas baseadas em metodologias de causa e efeito imediatos são pouco esclarecedoras sobre a influência dos meios de comunicação de massa na audiência.

Nessa mesma linha, Mauro Wolf advertiu que os conteúdos das mensagens midiáticas não geram mudanças pontuais e em curto prazo no público receptor. Seus potenciais efeitos devem ser entendidos como consequências de longo prazo, cumulativas, sedimentadas no tempo e ligadas à repetitividade da produção da comunicação de massa. Isso explica por que os rótulos “Maduro ditador” e “Hamas terrorista” são tão eficientes.

Por outro lado, sobre as repercussões dos acontecimentos internacionais, meu estudo sugere que: quando um foco de tensão geopolítica não é mais noticiado com tanta frequência, tende ao “esquecimento”; quando está muito presente na mídia, permite a formulação de “opiniões”; e, no “calor dos fatos”, as pessoas têm, no máximo, apenas “percepções”.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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