10 de junho de 2026

A paz como encenação, por Maria Luiza Falcão

A proposta de um “Conselho da Paz” sob liderança de Trump soa menos como compromisso diplomático e mais como encenação política
Imagem: Flickr/Official White House

Donald Trump propõe “Conselho da Paz” enquanto seu histórico revela desrespeito a instituições democráticas nos EUA.
Trump apoia incondicionalmente Netanyahu em Gaza, ignorando violações e prolongando o conflito com respaldo diplomático.
A liderança de Trump fragiliza a democracia americana e amplia riscos globais ao desprezar limites institucionais.

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A paz como encenação

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por Maria Luiza Falcão Silva

Donald Trump, Gaza e o risco democrático

Há algo profundamente perturbador quando um líder político invoca a palavra “paz” enquanto sustenta práticas que ampliam conflito e fragilizam limites institucionais. No caso de Donald Trump, não se trata de retórica isolada. Trata-se de padrão.

A proposta de um “Conselho da Paz” sob sua liderança soa menos como compromisso diplomático e mais como encenação política: a tentativa de associar sua imagem a estabilidade internacional enquanto sua trajetória revela desprezo recorrente por regras, freios e responsabilidades.

O problema central não é apenas estratégico. É democrático.

Um histórico de desrespeito institucional

Trump construiu sua trajetória política testando os limites das instituições americanas. Questionou resultados eleitorais, pressionou órgãos do sistema de justiça, atacou a imprensa e estimulou desconfiança sistemática nas regras do jogo democrático.

Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 — quando apoiadores seus invadiram o Capitólio — não foram um acidente histórico isolado. Foram expressão de um discurso que relativiza a legitimidade das instituições quando elas contrariam sua vontade.

Esse padrão importa. Porque liderança internacional não é atributo separado do comportamento doméstico. Quem demonstra desprezo por limites internos dificilmente se tornará defensor consistente de regras externas.

A democracia americana, com todos os seus problemas estruturais, sempre se apresentou como referência institucional. Quando seu próprio ex-presidente atua de forma a corroer essa referência, o impacto ultrapassa fronteiras.

Gaza e a indulgência estratégica

A situação na Faixa de Gaza expõe essa mesma lógica em escala internacional.

Diante de uma devastação humanitária crescente e de denúncias reiteradas de violações graves do direito internacional, a postura de Trump foi de respaldo político quase irrestrito ao governo do seu aliado político e igualmente perigoso Benjamin Netanyahu. Em vez de pressionar por contenção proporcional e cessar-fogo efetivo, optou por blindagem diplomática.

Não se trata de negar o direito de Israel à segurança. Trata-se de reconhecer que segurança não pode significar destruição indiscriminada de infraestrutura civil nem punição coletiva de uma população inteira.

Ao reforçar uma narrativa de apoio incondicional, Trump contribui para prolongar um conflito que exige mediação equilibrada e compromisso com normas humanitárias.

Essa postura não promove paz. Promove alinhamento.

A cultura da irresponsabilidade

Artigos recentes sobre “a era da classe Jeffrey Epstein”, trazem reflexões sobre elites que operam por anos sob uma rede de poder que lhes assegura imunidade social e política. O traço comum não é apenas o comportamento individual, mas a convicção de que regras são maleáveis quando se tem influência suficiente.

Na política internacional, o risco é semelhante quando líderes que demonstram desrespeito institucional são normalizados como interlocutores confiáveis de estabilidade global. Trump encarna uma cultura política na qual limites são obstáculos, não garantias. Quando essa mentalidade é projetada sobre crises internacionais, o resultado tende a ser imprevisível — e potencialmente perigoso.

A ameaça democrática

O perigo não está apenas no conflito externo. Está na erosão interna.

Uma liderança que desacredita instituições eleitorais, tensiona a separação de poderes e estimula polarização radical enfraquece a própria democracia que pretende representar no cenário global.

A credibilidade internacional dos Estados Unidos sempre esteve vinculada, em alguma medida, à percepção de solidez institucional doméstica. Quando essa solidez é corroída por dentro, o discurso de liderança moral perde sustentação.

Trump não representa apenas mudança de orientação diplomática. Representa risco à arquitetura democrática que historicamente limitou excessos de poder nos Estados Unidos.

E sem esses limites internos, qualquer promessa de paz externa se torna frágil.

Responsabilização e perigo

É necessário dizer com clareza: liderança global exige responsabilidade institucional e compromisso com regras. Quando um dirigente demonstra padrão consistente de desprezo por esses limites, o risco não é abstrato.

Num mundo já marcado por conflitos regionais, rivalidades estratégicas e fragilidade humanitária, a ascensão de uma liderança imprevisível e indulgente com aliados, ainda que à custa de normas universais, amplia a instabilidade.

Trump não é perigoso apenas pelo que declara.
É perigoso pelo padrão que consolida — dentro e fora de seu país.

Se a palavra “paz” for usada para encobrir essa irresponsabilidade, ela deixará de ser compromisso civilizatório e se tornará instrumento de legitimação.

E a história demonstra que sistemas internacionais se tornam mais instáveis quando liderança e responsabilidade deixam de caminhar juntas.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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