23 de junho de 2026

A escala 5 x 2 e as manipulações estatísticas, por Luís Nassif

O malabarismo de Daniel Duque para provar que trabalhadores brasileiros são privilegiados se comparados aos europeus e norte-americanos.
Foto de Tânia Rêgo - Agência Brasil

Economistas Daniel Duque e Samuel Pessoa afirmam que brasileiro trabalha menos que média mundial, segundo estudo global.
Críticas destacam que estudo não considera tempo no trânsito, informalidade e salários baixos no Brasil.
Análise ajustada indica trabalhador brasileiro trabalha tanto quanto europeu e americano, mas com piores condições.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O inacreditável economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, em parceria com o inacreditável colega Samuel Pessoa, produziu manchete de domingo na Folha, para comprovar que brasileiro trabalha pouco.

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Baseou-se em um estudo publicado em uma base de dados global

Seu artigo mostra um vício terrível do chamado economista de resultado. Suas pesquisas não visam desbravar a realidade, dar uma interpretação lógica e submeter os fatos à sua teoria. Mas em manipular as conclusões para favorecer os argumentos. E o objetivo final é juntar toda sorte de argumentos e sofismas para desacreditar a jornada 5 x 2.

O que diria um liberal intelectual honesto: no Brasil, os salários são baixos, as condições de trabalho precárias, mas uma redução na jornada de trabalho aumentará os custos das empresas. A partir daí, pode-se abrir uma discussão honesta, com argumentos honestos sendo brandidos de lado a lado. Entrariam, aí, conceitos dos quais os cabeças-de-planilha passam longe, como análises sistêmicas do desenvolvimento.

O que faz o economista de resultado? Simplesmente tortura os números para mostrar que, no Brasil, os trabalhadores vivem uma situação privilegiada, por trabalharem menos que os colegas europeus e norte-americanos.

Como Daniel Duque conseguiu essa alquimia?

Sofisma 1 – não considerou o tempo no trânsito

Mostrei aqui o sofisma utilizado pelo autor. Comparou o número de horas trabalhadas de vários países sem levar em conta o tempo perdido no trânsito.

Quando se inclui, o resultado muda. No modelo utilizado, o trabalhador brasileiro passa de -6,09% de horas trabalhadas para -1,31%

MedidaBrasilUnião EuropeiaEUA
Dias da semanadias655
Transporte/diaminutos dia645053
minutos semana384250265
horas semana6,44,24,4
Horas trabalhadas40,142,742,7
Diferença0,00%-6,09%-6,09%
Horas trabalhadasMais translado46,546,947,1
Diferença0,00%-0,78%-1,31%

Sofisma 2 – considerou todos os empregos, formais e informais.

No Brasil, a informalidade atinge entre 38% e 40% dos trabalhadores. Na União Europeia é de 10 a 15%. Nos Estados Unidos, é de 8 a 12%.

Nem se comente a afirmação do autor, de que um sistema previdenciário benevolente faz o trabalhador parar de trabalhar mais cedo.

Sofisma 3 – o salário médio de cada região

Ajustado pela Paridade do Poder de Compra, percebe-se que o salário médio brasileiro é 52,78% menor que o da União Europeia e 71,67% menor que dos Estados Unidos:

RegiãoSalário médio (PPC)Usando o máximo
🇧🇷 Brasil1.700,000,00%
🇪🇺 UE3.600,00-52,78%
🇺🇸 EUA6.000,00-71,67%

Sofisma 4 – formalidade e informalidade

Essa é outra maneira de esconder a realidade.

Entre 15 a 18% da força de trabalho no país, segundo o PNAD (Pesquisa Anual de Amostra de Domicílios) é formada por desempregados, subocupados, desanimados (que desistiram de procurar emprego). Os subocupados por insuficiência de horas respondem por 8% da força de trabalho. Trabalham menos de 40 horas por semana, por falta de oportunidade.

Vamos brincar mais um pouco com os números.

O que se fez ali.

  1. O Brasil tem por volta de 15% da Força de Trabalho desempregada ou subempregada. Subempregada é que trabalha menos do que gostaria.
  2. Fiz uma regra de 3 simples. Supus que o contingente de sub e desempregados só conseguem trabalhar, em média, 30 horas por semana. Quantas horas deveriam trabalhar os 85% restantes para se chegar à média de 40,795 horas semanais do trabalhador brasileiro (sem contar o tempo no trânsito)? Deu 42,70 horas, o mesmo que os trabalhadores europeus e norte-americanos.

Está certo, joguei os números para atender à minha tese. Mas demonstro o ridículo que é a manipulação de estatísticas para esconder o fato real: o trabalhador brasileiro trabalha muito, em condições precárias, e recebe pouco.

ParticipaçãoHs trabalhadasMédia hs
Sub e desempregados15%304,5
Empregados85%42,7036,295
Total40,795

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    23 de fevereiro de 2026 9:41 am

    Compara as moradias, a alimentação, a educação e a saúde de trabalhadores estadunidenses e europeus com a dos brasileiros e me conta depois quem é menos desprivilegiado, se o trabalhador brasileiro ou o trabalhador dos países imperialistas.

    Rafael, meu amigo trabalhador, tá trabalhando na Irlanda. Acho que ele se cansou de ser privilegiado no Brasil.

    Os lambe-botas dos poderosos são mais asquerosos do que os próprios poderosos.

  2. +almeida

    23 de fevereiro de 2026 1:15 pm

    Parece que a suposta grande mídia também possui seus currais econômicos. Indicam que a utilização de alguns supostos economistas tende a favorece-la quando precisarem mostrar aos eleitores que o pau é pedra, e não pau. Então, pensando estar prestando um grande serviço a nação, eles capricham na prestação do desserviço. Porém, malandro é malandro e mané é mané, quem assina, mata no peito, paga o mico e
    destrói seus currículo são os manés.

  3. Herman Lepikson

    24 de fevereiro de 2026 2:28 pm

    Para ajudar a desmascarar os argumentos deste FGVniano, basta consultar este recente relatório da OCDE:
    https://www.oecd.org/en/publications/serials/oecd-compendium-of-productivity-indicators_g1g37172.html

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