Uma das maiores manipulações econométricas brasileiras é praticada nas estatísticas sobre o mercado de trabalho. Passei a década de 90 ajudando a desmistificar essas jogadas.
Quando veio a abertura da economia, nos anos 90, o bordão preferencial dos economistas do trabalho era comparar o tempo de estudo do brasileiro com o do norte-americano e do japonês. E tirar a conclusão definitiva: o trabalhador brasileiro é ineficiente.
Não era isso o que me diziam os executivos estrangeiros com quem eu conversava. Perguntei ao presidente da Samsung, recém instalada em Manaus, sobre a maior surpresa com o país. E ele: a qualidade do trabalhador brasileiro. Fiz a mesma pergunta para o executivo da Nokia. Mesma resposta.
Indaguei do diretor de recursos humanos da Mercedes, o impacto da diferença de estudos em relação ao trabalhador alemão. E ele me contou que mudou uma área da Mercedes, de mecânica para digital. Depois de um mês de curso, os metalúrgicos, “nordestinos com curso primário” estavam mais habilidosos que seus colegas alemães.
A troca dos nove foi com Carlos Salles, presidente da Xerox brasileira, nos tempos em que a Xerox era símbolo mundial de inovação. Ele me disse de um concurso anual de qualidade, entre todas as Xerox do mundo. Havia cinco prêmios. Indaguei qual foi a premiação brasileira. 6 prêmios me disse. Mas não são 5 prêmios? O 6º era pelo fato de, pelo segundo ano seguido, a Xerox brasileira ter vencido os 5 outros prêmios. Perguntei se era uma característica da Xerox brasileira. E ele: de toda multinacional instalada no país.
Qual a razão? O “jeitinho” brasileiro, a capacidade de encontrar soluções no dia-a-dia, a facilidade em se adaptar a toda sorte de método de trabalho.
Quando o inominável José Pastore – o mais preconceituoso dos especialistas em economia do trabalho – dá o exemplo dos bares para mostrar a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, não entende que maior ou menor produtividade depende do modelo de trabalho implantado, desde o bar até a grande empresa.
Hoje em dia, na maioria dos bares vê-se garçons de todas as idades manobrando com toda familiaridade celulares para anotar os pedidos e fechar as contas.
Os embustes estatísticos
Mesmo assim, os embustes estatísticos continuam frequentes.
Algumas décadas atrás, um pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) constatou que 55% dos lares brasileiro tinha ou um aposentado ou um pensionista como arrimo de família. E, nesses lares, era maior o tempo de escolaridade das crianças, menores os gastos com saúde, maior a blindagem contra a cooptação pelo crime organizado. Enfim, uma defesa fantástica dos efeitos do aumento do salário mínimo na Previdência.
O mercado entrou em pânico e contratou José Márcio Camargo para comprovar que o aumento do SM na Previdência aumentava a propensão dos jovens à “vagabundagem”, Para dar credibilidade do trabalho, Camargo trouxe como parceiro um pesquisador do IPEA. E só conseguiu emplacar a tese da “vagabundagem” no final, como uma hipótese, mas sem comprovação do estudo.
Mas a aventura mais extravagante foi do economista Cláudio Haddad. Ele estimou o custo do salário de um executivo. Depois, o atraso que os donos de carrocinhas provocam no trânsito. E cruzou o salário hora dos executivos com a perda de tempo por conta desses exploradores de executivos, as carrocinhas. A partir daí gerou um índice de desperdício e a bandeira para serem proibidas as carrocinhas, de pessoas que recolhem objetos pela cidade, para sobreviver.
O brasileiro que trabalha pouco
Faço essa introdução para comentar a inacreditável manchete da Folha de hoje, claramente alinhada com a ofensiva conservadora para impedir a escala 5 x 2 .

O trabalho é do economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).
Vamos a algumas características desse estudo: as pesquisas de força de trabalho medem horas trabalhadas na semana anterior, normalmente perguntando “quantas horas você trabalhou?”, não “quanto tempo você dedicou ao trabalho incluindo deslocamento”.
Ou seja, se um trabalhador trabalha 44 horas por semana, gasta 10 horas semanais no trajeto (ida e volta), o estudo registrará 44 horas, não 54.
Vamos incluir o tempo no trânsito com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo de 2022, Eurostat e United States Census Bureau.
A média aproximada diária de tempo no trânsito:
Brasil: 64 minutos.
União Europeia: 50 minutos
Estados Unidos: 53 minutos
Como no Brasil a semana é de 6 dias e na União Europeia e EUA é de 5 dias, a conta semanal, de tempo gasto no trânsito, fica assim:
Brasil: 384 minutos, ou 6,4 horas semanais.
União Europeia: 250 minutos, ou 4,2 horas semanais
Estados Unidos: 265 minutos ou 4,4 horas semanais.
Agora vamos acrescentar essas horas nas estatísticas apresentadas.
Média mundial: 42,7 horas
Media brasileira: 40,1 horas, ou 6% a menos.
Incluindo tempo de transporte:
Média mundial: 47,1
Média brasileira: 46,9
| Medida | Brasil | União Europeia | EUA | |
| Dias da semana | dias | 6 | 5 | 5 |
| Transporte/dia | minutos dia | 64 | 50 | 53 |
| minutos semana | 384 | 250 | 265 | |
| horas semana | 6,4 | 4,2 | 4,4 | |
| Horas trabalhadas | 40,1 | 42,7 | 42,7 | |
| Diferença | 0,00% | 6,48% | 6,48% | |
| Horas trabalhadas | Mais translado | 46,5 | 46,9 | 47,1 |
| Diferença | 0,00% | 0,79% | 1,33% |
O economista Daniel Duque é definitivo:
“Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado. Para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer”.
“Sob qualquer critério”! Peguei o mais básico dos critérios, o critério óbvio, de incluir o tempo gasto no transporte, e a média brasileira se iguala estatisticamente à internacional
Aí, o economista conclui que o brasileiro trabalha menos por “uma preferência por lazer”. E, magnânimo, concede que “não é necessariamente ruim”.
No final dos anos 40, um grupo de funcionários públicos sérios, trabalhando as ideias originais do conceito de previdência – e liderados pelo professor Luiz Palmério – defendia a semana de 5 dias e, mais que isso, a possibilidade do trabalhador escolher os dias de folga.
A ideia era que o comércio ficava aberto só durante a semana. Assim, as folgas em finais de semana não permitiam ao trabalhador o acesso aos bens de cultura, de lazer e de consumo.
Entre dr. Palmério e Daniel Duque não há apenas 75 anos: são 300 anos, período que separa a Idade Média do Iluminismo.
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Sergio
22 de fevereiro de 2026 1:33 pmEu confesso que quando vejo essas estatísticas sendo analisadas por gente do IPEA ou FGV, tendo a rir das baboseiras que virão pela frente…
Paulo Dantas
22 de fevereiro de 2026 2:15 pmNúmeros, parabéns.
E pouco se discute o quão é insano o transporte na maioria das cidades grandes do Brasil.
Estes caras foram contra o 13° , férias , o fim da escravidão …
Lourenço Moreira Lima
22 de fevereiro de 2026 2:26 pmMe lembra a criação do Zé Carioca, uma Papagaio Vagabundo, vivia fugindo dos Cobradores de Impostos, tinha um amigo Urubu com a camisa vermelha e preta, só querendo saber de futebol. Essa Pecha ficou fixasada na mente do Brasileiro, com relação ao povo Carioca, extinto após a Fusão do Rico Estado da Guanabara com o Estado do Rio, determinada por um General que decidiu sem perguntar nada a ninguém! Um abraço Grande Nassif.
+almeida
22 de fevereiro de 2026 4:11 pmVeja você, Nassif, como é extensa, de longa data e imprevisível de seu final, o sofrimento, o incômodo e a angústia, secular que acompanha tanto o trabalhador, quanto a trabalhadora no Brasil. O poder massivo dos patrões contra quem trabalha, produz e se entrega por necessidade tão explícita, que é usada pelos maus patrões como chantagem para garantir Deus abusos de poder e de hierarquia.
São os bebês chorões favoritos do governo, do mercado e das grandes mídias do país.
fabricio coyote
22 de fevereiro de 2026 5:49 pmo âncora da bamdeirantes chamou todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileir@s de preguiçosos e improdutivos em comparação aos trabalhadores estadunidenses. TODOS os ancoras brancos pretos pardos mestiços árabes tem um pé na Ku Klux Klan. fascismo via espectro eletromagnético
Victor Lima
22 de fevereiro de 2026 7:03 pmO papel que esses economistas de algibeira aberta desempenha, envergonha a tradição brasileira de ciência econômica de alto nível. O que assistimos nos noticiários é aterrador, frases sem sentido, chutômetro desavergonhado e o vilipêndio dos princípios científicos em favor de interesses especulativos. Santa Maria da Conceição Tavares que nos proteja.
Eric Bonfim
22 de fevereiro de 2026 10:35 pmQue reportagem sensasional. Precisa ser divulgada.
Christian Fernandes
22 de fevereiro de 2026 10:44 pmAí você vai ver o ~pesquisador~ levou 4 minutos para chegar a esta conclusão BRILHANTE.
As outras 40 horas (anuais) dele foram dedicadas a rapapés & salamaleques.
Marco Paulo
23 de fevereiro de 2026 6:14 amAs vezes as coisas são tão insanas, que temos que reafirmar certos óbvios, como bem faz o Nassif.
Primeiro, a conta de quem está ocupado. No brasil tem-se o péssimo hábito de dizer que quem vende um brigadeiro na rua é ocupado, ou os informais. Não se discute como formalizar, horários parciais. Se discute como fazê-los pagar a previdência e por uma passe de mágica todos viram formais com o MEI, para trabalhar sem direitos ou garantias, são os “empreendedores”. Os critérios dos dados da OCDE são alinhadas a OIT, diz que quem é ocupado é quem exerce atividade remunerada seja parcial ou integral. A vendedora de brigadeiro trabalha na rua vendendo, em casa fazendo, antes de dormir responde Whatsapp de alguma encomenda, quantas horas entra nessas estatísticas? Será que pela OIT seria ocupada ou em modo sobrevivência?
Segundo, a reportagem da Folha, salvo engano, fala sobre a produtividade do brasileiro, como somos ruins em produzir. Não há qualquer análise da produtividade sobre o ponto de vista do desenvolvimento. Querem comparar o brasileiro, correndo de chinelo, contra quem corre numa Ducati, e ainda dizer “Vejam como o brasileiro é lento”. Ninguém discute o que faz a produtividade aumentar, industrialização 4.0, já que nem consolidamos a 2.0 ainda. Enquanto um fabricante de automóvel europeu fabrica peças de alta tecnologia, desenvolve tecidos, motores, controladores, para produzir bens de alto valor agregado, no Brasil se monta o que vem de fora, sem adição de tecnologia de ponta. Isso vale até para as fabricas de calçados, enquanto o italiano usa o couro finíssimo brasileiro, investe em design, materiais e costuras novas com maquinas moderníssimas, o brasileiro usa o couro rejeitado, com tecnologia obsoleta. Aí o italiano fabrica 100 pares e o brasileiro 50. A solução? Coloca em modo escravidão até produzir os mesmos 100 pares, com jornadas exaustivas. Como é impossível, a culpa é do trabalhador, não do subdesenvolvimento.
Por fim se joga a culpa no trabalhador. A falta de investimentos em tecnologia, formalização da economia, redução de jornadas, são pecados capitais para essa turma, incluindo o estado brasileiro que deveria ser o grande fomentador, como bem explicado em “O estado empreendedor” e “Chutando a escada”. Mas é mais fácil culpar a jornada e o trabalhador brasileiro pelo nosso atraso. Viva!!!!
Rui Ribeiro
23 de fevereiro de 2026 8:30 amQual a surpresa da Falha desqualificar nossa classe operária? Isso não deveria causar a surpresa a ninguém que tem o mínimo de senso da realidade, pois a Falha de Sampa é brasileiríssima, sendo, portanto, acometida de vira-latice em alto grau.
Rui Ribeiro
23 de fevereiro de 2026 9:49 amO trabalhador deve trabalhar prá viver, não viver para trabalhar.
Epitáfio, música dos Titãs:
(…)
“Devia ter complicado menos
TRABALHADO MENOS
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…”
Naldo
23 de fevereiro de 2026 10:06 amPois é, quando na época da reforma da previdência todos esses capitães do mato da mídia oligarca eram a favor, fizeram comparações infantis e bizarras do trabalhador comum com Mick Jagger de 80 anos e ainda na ativa, outro apresentador, careca e ex-dono de televisão disse que havia 300 bilhões de investimentos pra entrar no Brasil só esperando a reforma ser aprovada, investimentos “conceição” , ninguém sabe ninguém viu …. agora jogam todo esse peso econômico e dna escravocrata contra essa porcaria de jornada desumana, utilizam a mídia oligarca seus capitães do mato pagos a bom soldo pra novamente iludir a população, não vão conseguir, o tempo dessas desgraças já passou, só eles ainda não perceberam.
Rui Ribeiro
23 de fevereiro de 2026 2:47 pmAgora vá pro trabalho e chegue atrasado por causa do congestionamento: vai levar desconto no salário e talvez até falta.
Como diria a banda Eagles em Hotel California, no trânsito, we are all just prisoners of our own device. E ainda corremos o risco de assalto e morte
tulio muniz
23 de fevereiro de 2026 6:14 pmBrasil, o eterno país da Casa Grande…