4 de junho de 2026

O segredo da China, por Fernando Marcelino

É importante notar que o modelo chinês não está isento de desafios e críticas, mas o balanço é altamente positivo.
Shangai - China - Reprodução

China lidera inovação global com 24 dos 100 principais clusters, dominando 57 de 64 tecnologias críticas, como IA e 6G.
O “milagre chinês” resulta de governança estatal forte, com planejamento e financiamento estratégico de longo prazo.
Sistema político centralizado permite respostas rápidas e continuidade, ao contrário de democracias com alternância frequente.

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O segredo da China

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por Fernando Marcelino

Qualquer pessoa que vá até a China tem a impressão que a potência asiática está 100 anos à frente dos outros países. Seja pela infraestrutura, organização, desenvolvimento social, segurança ou o rápido avanço tecnológico do país, é inevitável perceber que a China emergiu como uma potência global em tempo recorde, liderando em várias áreas críticas e reduzindo drasticamente a diferença para os países capitalistas.

Diversos índices e relatórios internacionais confirmam a posição de destaque da China no cenário da inovação. A China abriga os principais polos de inovação do mundo. O Índice Global de Inovação de 2025, da OMPI, colocou a região de Shenzhen-Hong Kong-Guangzhou no topo do ranking global, seguida de Pequim em 4º e Xangai-Suzhou em 6º. No total, a China tem 24 dos 100 principais clusters de inovação do mundo, mais do que qualquer outro país. De acordo com o Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (ASPI), a China é líder global em pesquisa de 57 das 64 tecnologias críticas mapeadas, o que inclui áreas como fabricação de baterias para veículos elétricos, telecomunicações 6G, inteligência artificial (IA), novos materiais e biotecnologia. A China também se destaca na aplicação do conhecimento em larga escala. O país tem um uso de robótica na manufatura 12 vezes maior que o dos EUA e é líder em aplicações físicas de IA, como veículos autônomos e drones. Empresas como BYD (carros elétricos), CATL (baterias), Huawei (telecomunicações) e DJI (drones) são exemplos desse domínio no mercado global.

Muitos dizem que a ascensão da China acontece pelo seu avanço tecnológico. Entretanto, o segredo do “milagre chinês” não é a liderança tecnológica crescente em setores-chave, mas sua governança. Os avanços tecnológicos são apenas o lado visível de um processo de coordenação estatal singular.

A rápida ascensão da China não é por acaso, mas sim resultado de uma estratégia de Estado deliberada e de longo prazo. Os principais fatores incluem o planejamento, com o Estado definindo metas claras por meio de planos de longo prazo, como o “Made in China 2025”, que elegeu setores-chave (IA, carros elétricos, biofarmacêuticos, etc.) para concentrar esforços e reduzir a dependência externa. Isso canaliza investimentos massivos para áreas estratégicas. Além disso, o governo chinês, por meio de bancos estatais e fundos setoriais, oferece financiamento de longo prazo para empresas que atuam nas áreas prioritárias, permitindo que elas assumam riscos maiores em inovação de fronteira. O Estado tem forte influência tanto em estatais gigantescas quanto em empresas privadas. Isso permite que o lucro não seja o único objetivo, abrindo espaço para investimentos arriscados em tecnologia. Além disso, o governo usa regulações técnicas para proteger o mercado interno e alavancar campeãs nacionais. Soma-se a isso que a China forma um número massivo de engenheiros e cientistas, com currículos universitários alinhados às necessidades tecnológicas do país.

A concentração de poder decisório permite respostas rápidas a desafios e a implementação ágil de políticas em escala nacional, especialmente em infraestrutura e inovação. Em sistemas com alternância de poder frequente, como nos EUA, grandes projetos e estratégias nacionais estão sujeitos a revisões ou paralisações a cada novo ciclo eleitoral. O sistema de freios e contrapesos, combinado com interesses partidários, pode levar à paralisia decisória e atrasos em obras e reformas. Muitas sociedades ocidentais enfrentam desafios como polarização política, violência armada e tensões raciais, que consomem energia política e corroem a confiança nas instituições. Em economias orientadas pelo mercado de capitais, o investimento muitas vezes privilegia o retorno financeiro de curto prazo, o que pode levar à desindustrialização e à falta de investimento em infraestrutura de longa maturação. Embora eficientes em inovação incremental, economias puramente de mercado costumam ter mais dificuldade em coordenar esforços nacionais massivos e sustentados em tecnologias de fronteira, como fez a China em sua estratégia de “poder nacional total”.

É importante notar que o modelo chinês não está isento de desafios e críticas, mas o balanço é altamente positivo. Os pontos superiores da governança chinesa residem na sua capacidade de garantir estabilidade, continuidade e foco estratégico. Num cenário global marcado por crises e incertezas, essa “resiliência institucional” se destaca, permitindo ao país navegar por águas turbulentas com um rumo claramente definido.

Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.

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