O retorno de Hobbes, por Fernando Marcelino
Desde 2024, afirmo que estamos vivendo o “Retorno de Hobbes”. Trabalhamos este tema nos livros “Para onde vai a Esquerda?” (2024), “China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, Guerra Comercial e Nova Desordem Mundial” (2025), “Leviatã Socialista: Marx com Hobbes” (2025) e “O Retorno de Hobbes” (Kotter Editorial, 2026, no prelo).
A globalização neoliberal aprofundou assimetrias entre centros e periferias, enquanto a ascensão de potências revisionistas (como China e Rússia) desestabilizou a ordem unipolar liderada pelos EUA. Organismos multilaterais enfraqueceram-se e a cooperação internacional deu lugar a rivalidades estratégicas. A relativa unipolaridade liderada pelos EUA no pós-Guerra Fria está a dar lugar a uma multipolaridade disputada principalmente entre EUA, China e Rússia, mas também com potências médias regionais emergentes. Este período de transição é inerentemente instável, assemelhando-se ao sistema de estados hobbesiano em escala global, onde não há um poder soberano superior para impor regras. Cada estado-nação age, na prática, como um indivíduo no estado de natureza, buscando seu próprio poder e segurança acima de tudo. Esta guerra difusa e omnipresente cria um sentimento de vulnerabilidade permanente, onde o inimigo é muitas vezes invisível e as fronteiras nacionais são porosas. Grupos representam atores não-estatais com capacidade de infligir violência massiva e aleatória, desafiando o monopólio estatal da violência e aterrorizando populações civis. Isso legitima apelos a um Estado de segurança mais forte e vigilante. As redes sociais e os algoritmos fomentam a disseminação de desinformação em massa. A esfera pública fragmentou-se, tornando impossível um debate racional sobre os fatos. Esta “guerra de todos contra todos” no reino da informação impede a sociedade de chegar a um consenso sobre a realidade, que é a base de qualquer contrato social. Sem verdade partilhada, o caos reina. É o “medo contínuo” hobbesiano materializado.
O modelo de Estado hobbesiano (centralizado, soberanista e focado no poder) não apenas não desapareceu, como está a tornar-se o principal concorrente e, em alguns casos, o modelo dominante no século XXI. Ele está a ser encenado na política doméstica e na política externa das potências ascendentes que estão a moldar a nova ordem (ou desordem) global, confirmando a intuição fundamental de Hobbes: que a busca pela segurança e pelo poder é a força motriz eterna da política. A competição entre grandes Leviatãs (EUA, China, Rússia) e a incapacidade de qualquer um deles impor uma hegemonia global pode levar a um mundo onde a soberania torna-se sobreposta e contestada como corporações globais, cidades-Estado, milícias locais e Estados nacionais disputando autoridade. É o “estado de natureza” hobbesiano elevado ao nível de atores internacionais, uma verdadeira guerra de todos contra todos em múltiplas frentes.
A tese do “Retorno de Hobbes” aplicada às relações internacionais resgata a visão de um mundo em estado de natureza, onde não há um poder soberano global capaz de impor a lei. Neste cenário, os Estados são como os indivíduos hobbesianos: desconfiados, buscando sua própria segurança e glória, e engajados numa competição perpétua pelo poder. A ordem não é um dado natural, mas uma conquista frágil e temporária, mantida pelo equilíbrio de poder ou pela hegemonia de um Leviatã global.
O mundo em que os Estados atuam se caracteriza, acima de tudo, pela imprevisibilidade. Os Estados atuam num sistema onde não existe uma autoridade superior para protegê-los e onde outros Estados podem e querem prejudica-los seriamente. Assim, os Estados costumam ter um grande interesse em descobrir as melhores estratégias para enfrentar os problemas que aparecem e formular políticas que promovam seus próprios interesses.
Líderes ao redor do mundo exploram habilmente esse medo, oferecendo-se como a personificação do soberano hobbesiano. O “retorno de Hobbes” não é uma mera repetição histórica, mas uma adaptação do seu diagnóstico fundamental a novas realidades. A crise das democracias liberais mostra que a liberdade, sozinha, não é suficiente se não for acompanhada de um senso de proteção e ordem. Perante este panorama, o apelo a um Leviatã contemporâneo torna-se uma reação psicológica e política compreensível. A reação hobbesiana é profundamente territorial e soberana. A deterioração progressiva do quadro social exige um Estado forte e soberano. O poder, para ser efetivo, deve ser concentrado. A fragmentação de poderes (executivo, legislativo, judicial) é um dispositivo concebido para paralisar a ação coletiva e proteger o status quo. A democracia liberal é declarada incapaz de gerir este nível de complexidade e crise. Dessa forma, o “retorno a Hobbes” exige a re-politização total de todas as esferas que o liberalismo declarou “neutras”. A economia não é mais o mercado neutro, mas o campo de batalha decisivo. O direito não é mais um procedimento neutro, mas um instrumento da vontade soberana. A informação não é mais uma mídia “livre” e supostamente objetiva, mas o aparato de hegemonia do soberano.
Será que estamos a assistir a um regresso duradouro de Hobbes ou apenas a um espasmo de medo, após o qual os ideais de liberdade e cosmopolitismo da democracia liberal se reafirmarão? Cremos que se trata de um processo de longo prazo e que vão remodelar as forças políticas profundamente. O retorno de Hobbes deverá influência toda as próximas gerações políticas. Existe um ciclo vicioso de ameaças globais, complexas e aparentemente incontroláveis que cria a sensação de que estamos a regressar a um “estado de natureza moderno”. As ameaças contemporâneas que forçam este “retorno a Hobbes” são múltiplas, interligadas e criam uma sensação de caos sistêmico que ativa o instinto fundamental de buscar um protetor poderoso – o Leviatã. Estas ameaças não atuam isoladamente. Elas formam um sistema de crises interligadas que revelam um fenômeno de transição de época. Essas crises criaram um ambiente percebido como estado de natureza hobbesiano moderno: uma guerra econômica de todos contra todos, com medo generalizado, perda de referências e colapso institucional. A polarização política paralisa a governança democrática, tornando-a incapaz de responder a qualquer uma destas crises. E a resposta caminha para o sentido de um retorno a Hobbes através de populações assustadas que buscam proteção contra a precariedade existencial, o que explica a ascensão de lideranças autoritárias que prometem restaurar a soberania nacional e controlar o caos social. É nesse vácuo que surge a demanda por um “novo Leviatã”.
Para Hegel, a história é o processo racional pelo qual o Espírito (a consciência e a liberdade) se realiza no mundo. Cada época (e seu Zeitgeist) representa um estágio necessário nessa jornada dialética de autocompreensão. Hoje o Zeitgeist liberal está sendo substituído pelo Zeitgeist hobbesiano. O Zeitgeist atual é marcado por ameaças que criam um ambiente anárquico e assustador: pandemias, mudanças climáticas, ciberguerra, terrorismo transnacional e a ameaça de conflito nuclear. Esses perigos globais, onde não há um poder soberano mundial para impor ordem, ecoam o medo hobbesiano fundamental. Questiona-se a erosão do Estado-nação, visto como único capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais. A busca por segurança se torna o valor supremo. A solução de Hobbes para o caos era o Leviatã: um soberano absoluto e indivisível ao qual os indivíduos cedem todos os seus direitos em troca de segurança e ordem. Sob essa ótica, o “retorno de Hobbes” não é um regresso, mas sim uma negação determinada (Aufhebung) dentro do desenvolvimento da ideia de liberdade.
Muitos costumam subestimar o alcance e a potência do retorno de Hobbes. Os fatores desse processo não desapareceram no futuro próximo e exercerá poderoso efeito sobre a políticas durante muitos anos. O aprofundamento da crise multidimensional, com estagnação econômica, migrações em massa desestabilizadoras, colapso ecológico, guerras por recursos e uma crise de legitimidade terminal das democracias liberais, aponta que o “Retorno de Hobbes” não é um fenômeno passageiro, mas um sintoma de uma reordenação profunda da política global. As novas clivagens estão a redefinir lealdades e a criar alianças impensáveis há uma década. Quem conseguir oferecer uma resposta convincente e estável para o dilema hobbesiano ditará o ritmo das décadas que virão. A escolha que se coloca não é entre Hobbes e a democracia liberal, mas sobre qual tipo de Leviatã iremos construir: um Leviatã reacionário, xenófobo e excludente, ou um “Leviatã Social” capaz de reafirmar o controle popular sobre o destino coletivo, usando o poder soberano para fins de emancipação nacional.
Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.
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