Já estamos na Terceira Guerra Mundial?
por Fernando Marcelino
Do final da Segunda Guerra Mundial a 1989 vivemos num mundo bipolar, numa disputa global entre EUA e URSS. Em 1989, começamos uma era unilateral. Ao buscar o domínio incontestável em todos os domínios, os EUA posicionam-se como o poder soberano de fato no sistema internacional. A “Dominância de Espectro Total” (“Full Spectrum Dominance”) é a doutrina militar dos EUA que não se refere apenas ao domínio militar tradicional, mas ao controle de todas as dimensões do ambiente de batalha, garantindo a liberdade de ação própria e negando-a ao adversário. A doutrina aspira a um monopólio global da força militar legítima e eficaz. Nos 2000, os EUA se lançaram numa guerra infinita no Oriente Médio, em 2008 houve uma grande crise financeira e, desde então, seu poder diminuiu relativamente com a ascensão da China e a reemergência da Rússia, fazendo com que o mundo seja cada vez mais um mundo tripolar, com três grandes potências regionais. Porém, o sistema unilateral do pós-Guerra Fria não se reforma espontaneamente. Na história, uma nova ordem mundial só emerge com uma grande guerra mundial que redistribui o poder e constrói um novo equilíbrio de poder.
A globalização neoliberal aprofundou assimetrias entre centros e periferias, enquanto a re-ascensão de potências como China e Rússia desestabilizou a ordem unipolar liderada pelos EUA. Organismos multilaterais enfraqueceram-se e a cooperação internacional deu lugar a rivalidades estratégicas. A relativa unipolaridade liderada pelos EUA no pós-Guerra Fria está a dar lugar a uma multipolaridade disputada principalmente entre EUA, China e Rússia, mas também com potências médias regionais emergentes. Este período de transição é inerentemente instável, assemelhando-se ao sistema de estados hobbesiano em escala global, onde não há um poder soberano superior para impor regras. Cada estado-nação age, na prática, como um indivíduo no estado de natureza, buscando seu próprio poder e segurança acima de tudo. Esta guerra difusa e omnipresente cria um sentimento de vulnerabilidade permanente, onde o inimigo é muitas vezes invisível e as fronteiras nacionais são porosas.
Trump reconhece que os EUA não podem mais agir como um Leviatã Global e busca restringir seu controle para sua esfera regional. Trata-se de readequar a hegemonia unilateral mundial dos EUA para uma hegemonia regional, aceitando o papel de China e Rússia como grandes potências regionais. Neste contexto, seu objetivo de curto prazo é “reconquistar” os países mais fracos e dependentes dos EUA na América Latina, buscando garantir sua supremacia regional, numa reedição da Doutrina Monroe do início do século XIX.
É dentro deste contexto que está o ataque dos EUA à Venezuela. Além da “lição” para governos que contestam os EUA, Trump visa o acesso ao petróleo como um preparativo para guerra contra o Irã, pois conseguia abastecer o mercado sem o Estreito de Ormuz. Acredita-se na solução simples de substituir o líder e todos os problemas irão se resolver. Vão tentar “governar” a Venezuela para as grandes petrolíferas. Não se descarta que uma insurgência interna, paralelo ao aconteceu com a Colômbia, se espalhe pela região amazônica. Trump será forçado a mandar tropas para estabilizar a região. A escalada pode ganhar um caráter regional, com a reinvindicação de controle imperial absoluto dos EUA sob a América Latina com outros alvos, como Cuba, México, Colômbia, Nicarágua, Panamá e Brasil.
O ataque imperial dos EUA à Venezuela, bombardeando o país e sequestrando o presidente Nicolás Maduro, é apenas o último capítulo de um número crescente de conflitos globais, revelando uma dura verdade que a maioria de nós prefere não encarar profundamente: a Terceira Guerra Mundial já começou.
O consenso majoritário é que não estamos em uma guerra mundial no sentido tradicional (como 1914-18 ou 1939-45), mas é inegável que estamos num período de conflito globalizado e multifacetado que pode representar uma nova forma de guerra, com dinâmicas inéditas. Todos os países do mundo estão se preparando para a Terceira Guerra Mundial, mesmo que não o admitam. Todos países estão preocupados com a crescente anarquia no sistema internacional. Trilhões estão sendo gastos com Forças Armadas, com a justificativa de algum ator que está agindo de forma ofensiva. Os países dizem que estão apenas se defendendo de alguma ameaça, mas, enquanto isso, muitos estão reaparelhando suas forças armadas. Não é que os países queiram a guerra, mas o caos sistêmico vai arrastando os países a serem mais precavidos com a escalada militar mundial.
O que estamos começando a ver é uma interconexão entre conflitos aparentemente distintos, como a guerra entre a OTAN e a Rússia, a queda de Bassar Al-Assad na Síria, a luta entre Israel e o Hamas, a guerra civil no Sudão, os conflitos entre Paquistão e Índia, Camboja e Tailândia, ataque à Nigéria e Venezuela, de uma forma que não víamos desde 1945. Já existem batalhas em andamento sendo coordenadas em vários países. Embora esses conflitos possam parecer distintos à primeira vista, eles compartilham várias características que justificam vê-los como componentes de um único conflito global abrangente. Essas características incluem a participação de grandes potências, direta ou indiretamente, por meio de aliados, a interligação de objetivos políticos, econômicos e ideológicos e o impacto em cascata de um conflito sobre os outros, criando uma reação em cadeia de instabilidade. Essa tendência provavelmente continuará e se expandir, envolvendo mais países e regiões nesse vórtice.
O conceito de “guerra mundial” mudou, não sendo mais um conflito bipolar declarado com linhas de frente claras, mas um conflito sistêmico e descentralizado, com guerra híbrida que combina guerra convencional (Ucrânia, Gaza), ciberguerra, guerra econômica (sanções em escala global), guerra de informação/desinformação, guerra de chips e operações de proxy, crises regionais que se tornam elos de uma cadeia de confronto entre grandes potências (EUA/OTAN x Rússia; EUA x China). A competição por recursos alimentares, energéticos e minerais críticos e o controle de corredores de infraestrutura são batalhas silenciosas. Vai se formando um eixo com EUA, OTAN, Israel e aliados e outro de Rússia e China em uma “parceria sem limites”, com apoio de potências regionais como Irã e Coreia do Norte e simpatia de vários países do Sul Global (BRICS+). É uma bipolaridade renovada, com campos de influência delineados, num contexto onde a retórica nuclear voltou ao cenário e ocorre o fim de tratados de controle armamentista.
Como observou Clausewitz, “cada época teve seu próprio tipo de guerra, suas próprias condições limitantes e suas próprias peculiaridades”. Espera-se que a Terceira Guerra Mundial seja muito diferente das guerras mundiais do século passado, com um alcance mais global e natureza singular, com guerras subterrâneas, econômicas e biológicas. Em todo mundo, existem potenciais para grandes escaladas em 2026. Assim como nos estágios iniciais das guerras mundiais anteriores, essas crises interconectadas estão apagando as fronteiras entre conflitos locais e globais, envolvendo nações e alianças em uma luta mais ampla por domínio e sobrevivência. A linha entre paz e guerra tornou-se incrivelmente tênue e difusa. Isso, mais do que batalhas isoladas, é o que define uma guerra mundial.
O mundo caminha para um período prolongado de instabilidade sistêmica e competição estratégica. Existe uma tendência à “desglobalização” ou “globalização fragmentada”, onde diferentes peças (militar, econômica, tecnológica, informacional) se encaixam para formar um grande quadro de confrontação entre ordens mundiais rivais. Com tantas crises simultâneas e linhas de tensão, o risco de um erro de cálculo (um incidente naval, ciberataque grave, crise da bolha da IA) que desencadeie uma escalada incontrolável é real e preocupante. O maior desafio para os próximos anos será gerenciar essa rivalidade sem cruzar o limiar da guerra termonuclear, enquanto se redefine, de forma conflituosa, a arquitetura da nova ordem mundial.
Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.
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