Doutor em Direito Internacional pela USP e especialista em Oriente Médio, o professor Salem Nasser disse ao canal TV GGN [assista abaixo] que a população iraniana é “muito consciente de sua identidade nacional” e dificilmente aceitará que os Estados Unidos digam quem deve governá-los. A análise ocorreu em entrevista ao jornalista Luís Nassif e ao cientista político Pedro Costa Jr, na noite de segunda (2), por ocasião do ataque dos Estados Unidos-Israel ao Irã, dando início a uma nova guerra na região, com o intuito de mudar o regime iraniano.
Durante a entrevista, Nasser abordou a popularidade do regime iraniano, considerando que setores da sociedade protestaram após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei pelo ataque dos EUA-Israel. Segundo o especialista, no Irã “há uma população que, se não é pelo regime, ela certamente é muito consciente da sua identidade nacional, e não quer que os Estados Unidos venha a dizer para os iranianos quem deve governá-los.”
Nasser, que acompanhou de perto o desenrolar da Revolução Islâmica, disse que nos últimos 40 anos os EUA têm apostado em ataques militares, sanções financeiras, guerra tarifária e fomento a levantes populares contra o regime iraniano, na tentativa de colocar no poder alguma liderança de oposição que seja alinhada aos interesses norte-americanos no Oriente Médio. Mas, até o momento, tudo que os EUA têm conseguido fazer é aumentar a repulsa dos iranianos às intervenções externas. Após a morte de Khamenei, a esperança de uma sublevação popular não se concretizou, ao contrário do que deseja o presidente Donald Trump.
Durante o bate-papo, Nasser também criticou a percepção ocidental sobre o Irã. A mídia hegemônica do Ocidente vende a ideia de que os países do Oriente Médio, como o Irã, são regimes desumanos, fechados, que impõem restrições de direitos a minorias como mulheres e, por isso, devem sofrer as intervenções dos EUA, que tentam “levar democracia” à região. Segundo Nasser, essa narrativa é falsa. Existem algumas restrições de ordem cultural ou religiosa, de fato, mas as mulheres iranianas, por exemplo, têm acesso à educação (representam 60% da população universitária) e condições de vida que podem ser melhores do que as de mulheres no Brasil em alguns aspectos, como feminicídio e saúde materna.
O papel da Rússia e da China nos conflitos, fornecendo ajuda militar e tecnológica ao Irã, também foi abordado. A Rússia tem fornecido sistemas de defesa antiaérea e aviões, enquanto a China tem contribuído com torpedos e tecnologia de mísseis. Tudo, claro, sem alarde, nos bastidores, sem envolvimento direto nem hostilidade pública. A China também depende do petróleo iraniano e tem interesses nas rotas da seda que perpassam o Irã.
Assista a entrevista completa abaixo:
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