Bactérias resistentes à maioria dos antibióticos disponíveis, até pouco tempo associadas quase exclusivamente ao ambiente hospitalar, estão se espalhando pelo cotidiano. Três estudos recentes conduzidos por pesquisadores apoiados pela FAPESP revelam a dimensão do problema.
Os trabalhos identificaram um clone bacteriano altamente resistente no rio Tietê, em São Paulo; uma variante letal em um cão doméstico que não sobreviveu à infecção; e uma cepa de bactéria comum da pele humana que matou uma jovem de 18 anos em menos de dois dias de internação.
“Esses são apenas alguns casos mais recentes que mostram como devemos abordar essa questão seriamente do ponto de vista da Saúde Única”, afirma Nilton Lincopan, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e coordenador dos três trabalhos. “O uso de antimicrobianos deve ser feito com muito critério e precisamos de políticas públicas de educação para a população, assim como de diagnósticos precisos com mais rapidez.”
Lincopan integra o Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, e coordena o OneBR, banco de dados genômico voltado à vigilância epidemiológica da resistência antimicrobiana no Brasil.
Tietê contaminado
Um clone da bactéria Acinetobacter baumannii foi encontrado nas águas do Tietê, na capital paulista, com características que preocupam os especialistas: além de genes de resistência a antibióticos, o microrganismo carrega genes de virulência, combinação que, até recentemente, era raramente observada na mesma cepa.
“Há pouco tempo, encontrávamos bactérias que eram ou resistentes ou virulentas. Agora estamos detectando algumas que têm esses dois atributos, o que torna a administração da infecção ainda mais difícil”, explica Lincopan.
A amostra foi coletada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) como parte do monitoramento do projeto OneBR. O clone é resistente a carbapenêmicos, classe de antibióticos considerada de última linha, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificar essas linhagens como patógenos de prioridade crítica.
A hipótese mais provável para a presença da bactéria no rio é o despejo de efluentes hospitalares, e estudos anteriores já indicaram que essa linhagem pode resistir também aos processos convencionais de tratamento de resíduos e a produtos de limpeza.
“Além de novos antibióticos, será necessário desenvolver nos próximos anos novos tratamentos de efluentes, que evitem que esses patógenos cheguem à natureza”, alerta o pesquisador. Os resultados foram publicados na revista One Health.
Animal doméstico
Uma cadela de dois anos, da raça spitz alemão, foi internada em hospital veterinário com gastroenterite hemorrágica severa, provavelmente após ingestão acidental de substância contaminada. Ao longo da internação, o quadro evoluiu para pancreatite grave, peritonite difusa e óbito.
A análise microbiológica identificou uma linhagem de Klebsiella pneumoniae conhecida pela sigla ST323, resistente a carbapenêmicos, mesmo sem que o animal jamais tivesse recebido esse tipo de antibiótico.
“É importante ressaltar que em nenhum momento o animal foi tratado com carbapenêmicos, e mesmo assim a bactéria que provavelmente o matou era resistente a essa classe. Isso mostra a complexidade do desenvolvimento de resistência”, observa Lincopan.
O pesquisador alerta ainda para o aumento de infecções urinárias por bactérias multirresistentes em animais domésticos e levanta a hipótese de que a transmissão possa ocorrer a partir de donos que retornam de longas internações hospitalares. O estudo foi publicado na revista Veterinary Microbiology.
Espinha virou sepse
O caso mais grave ocorreu em 2023, quando uma jovem de 18 anos deu entrada em um hospital com torcicolo persistente e uma espinha indolor no rosto. Pouco mais de 24 horas depois, ela havia morrido de sepse, infecção generalizada causada por uma variante de Staphylococcus aureus, bactéria comum e geralmente inofensiva da pele humana.
O sequenciamento genético revelou tratar-se da linhagem USA300-NAE, resistente à meticilina, um tipo de resistência associado a 23.400 mortes nas Américas apenas em 2019. Os resultados foram publicados em novembro de 2025 na revista The Lancet Microbe.
Para Lincopan, o caso reforça a necessidade de maior cautela no atendimento de infecções adquiridas fora do ambiente hospitalar. O diagnóstico laboratorial, com mapeamento do perfil de sensibilidade bacteriana aos antibióticos disponíveis, deveria preceder a prescrição, e não o contrário, como ocorre na prática atual.
“Os laboratórios de apoio molecular, infelizmente restritos a universidades e grandes hospitais privados, são essenciais para identificar os patógenos causadores de infecções e orientar os tratamentos mais adequados. É preciso aumentar as parcerias dos hospitais públicos para testagem e tornar os testes mais baratos e rápidos”, defende o pesquisador.
*Com informações da Agência Fapesp.
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