4 de junho de 2026

China em Dois Tempos: Do alto-falante ao robô, por Iara Vidal

Em 1977, a China disciplinava o trânsito com voz e paciência coletiva. Em 2026, ela põe humanoides no semáforo e no palco
Iara Vidal

Em Wuhu, China, robô policial inteligente R001 orienta o trânsito com IA, substituindo guardas humanos desde janeiro de 2026.
Na Gala do Festival da Primavera 2026, robôs chineses executaram kung fu ao lado de crianças do Templo Shaolin, unindo tradição e tecnologia.
Robótica e IA são prioridades do 14º Plano Quinquenal chinês, com robôs já integrados a serviços públicos, indústria e rotina urbana.

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China em Dois Tempos: Do alto-falante ao robô — quando o algoritmo assume a esquina e o kung fu vira engenharia

por Iara Vidal

Em 1977, a China disciplinava o trânsito com voz e paciência coletiva. Em 2026, ela põe humanoides no semáforo e no palco, e transforma o que parecia propaganda futurista em política industrial e rotina

Henfil, nessa nossa prosa imaginária sobre a China que você viu em 1977 e a China onde vivo hoje, em 2026, já falamos do Exército Popular de Libertação e do transporte público. Hoje preciso te contar algo que, se eu não estivesse aqui, também acharia exagero de propaganda futurista: os robôs humanoides da China.

Camarada, o que está acontecendo neste país em termos de tecnologia é de outra ordem histórica. Eu mesma só acredito porque vejo. E, ainda assim, vendo, me pego repetindo: não é possível.

No seu registro sobre a China que você viu no século passado, há um trecho em que você descreve os cruzamentos tomados por bicicletas e o coreto do guarda de trânsito:

“Tem sinais de trânsito, sim. Mas os guardas ficam dentro destas cabinas orientando, através de alto-falantes, os milhares de ciclistas. Os pedestres também. Falam sem parar. Pedi tradução. São falas para chamar a atenção. E por vezes se dirigem a alguém em particular. O camarada na bicicleta deve esperar, ter paciência etc. É uma espécie de apoio para acalmar milhões. E funciona.”

Pois bem, Henfil. Essa presença que você viu, a voz que organizava o fluxo, começou a ser substituída por robôs. Sim, robôs humanoides.

Em janeiro, a mídia chinesa noticiou que, em um cruzamento movimentado da cidade de Wuhu, na província de Anhui, no leste do país, quem orienta o tráfego não é mais apenas um agente de carne e osso. É a “Unidade de Polícia Inteligente R001”.

Vestindo uniforme policial, colete refletivo e boné branco, o robô parece humano à distância. De perto, o acabamento metálico e a estética futurista transformam o cruzamento numa cena quase cyberpunk, com pedestres parando para fotografar o novo guardião do semáforo. Integrado ao sistema de sinais da cidade, o R001 executa gestos padronizados sincronizados com as luzes e utiliza inteligência artificial para identificar infrações de ciclistas e pedestres, emitindo advertências em tempo real.

Se em 1977 o alto-falante educava milhões, em 2026 é o algoritmo que disciplina o fluxo. E funciona.

Robôs humanoides lutando kung fu

Henfil, você não vai acreditar no que eu vi com meus próprios olhos: robôs aqui lutam kung fu, de verdade. Quando assisti à Gala do Festival da Primavera deste ano, quase caí da cadeira. Pensei: truque de câmera, montagem, pós-produção. Que nada. Ao vivo. Transmissão do CMG. Plateia real. Robôs reais executando movimentos de artes marciais ao lado de crianças de um templo.

E não eram quaisquer crianças. Os meninos que dividiram o palco com as máquinas eram alunos da Tagou Martial Arts School , em Dengfeng, na província de Henan, ali onde fica o Templo Shaolin.

Ou seja, tradição milenar de um lado, inteligência incorporada do outro. Monges mirins formados na disciplina física e espiritual do kung fu contracenando com algoritmos treinados em laboratório.

O número se chamava “WuBot”. E viralizou mundo afora.

Gala do Festival da Primavera: a vitrine da China

A Gala do Festival da Primavera, você precisa saber, começou em 12 de fevereiro de 1983. Desde então, é transmitida todos os anos na véspera do Ano-Novo Chinês. Hoje, produzida pelo Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês), é considerada o programa mais assistido do planeta naquela noite. Não é um show qualquer. É um ritual midiático nacional.

E neste ano, quatro empresas chinesas colocaram seus robôs no palco: Unitree Robotics, Noetix, MagicLab e Galbot.

A diretora-chefe da Gala de 2026, Yu Lei, disse que a edição teve uma alta “concentração” de robôs para mostrar o desenvolvimento multidimensional da indústria chinesa de robótica. Tradução para você, Henfil: não é mais demonstração isolada. É política industrial transformada em espetáculo cultural.

E o impacto foi imediato. Às 22h, durante a transmissão ao vivo, a JD.com colocou à venda alguns dos modelos exibidos. Em minutos, esgotaram. Dois robôs multifuncionais G1 da Galbot, vendidos por cerca de 630 mil yuans, foram comprados quase instantaneamente. O palco virou vitrine.

Spoiler: não é dança. É teste de campo.

A MagicLab abriu a noite com o MagicBot Gen1 acenando para o público. Depois, o MagicBot Z1 executou o movimento acrobático “Thomas 360” — a empresa afirmou ser a primeira vez que um humanoide daquele porte realiza a manobra.

Na sequência, um esquete com a atriz Cai Ming trouxe um robô biônico da Noetix que reproduzia seu rosto. O sistema facial integra 32 motores, 12 dedicados à boca, permitindo expressões detalhadas e sincronização labial precisa. Internautas lembraram que Cai já havia interpretado uma “esposa robô” na Gala de 1996. Trinta anos depois, a ficção voltou como engenharia.

Mas foi o “WuBot”, da Unitree, que me fez pensar em você.

Robôs H1 executaram parkour sobre mesas, mortais aéreos de três metros, giros em uma perna, um airflare com sete voltas e meia. No ano passado, eles dançaram Yangko. Este ano, lutam kung fu. A empresa atualizou algoritmos, hardware e sistemas para alcançar esse nível. O fundador Wang Xingxing afirmou que os movimentos têm aplicação prática futura em operações coordenadas.

Percebe, Henfil? Não é só coreografia. É teste de campo disfarçado de espetáculo.

No encerramento, seis MagicBot Z1 e duas unidades Gen1 dividiram o palco com artistas como Yi Yangqianxi e Jerry Yan. Movimentos sincronizados, giros rápidos, saltos conectados sem erro.

A Galbot apareceu em um curta com Shen Teng e Ma Li. Seus robôs dobravam roupas, giravam nozes na mão, entregavam garrafas d’água com precisão quase doméstica. A empresa afirma usar um modelo integrado chamado AstraBrain, combinando “cérebro-cerebelo-controle neural” para coordenação total do corpo e das mãos.

Não foi a primeira vez que máquinas roubaram o show. Em 2025, já haviam dançado. Meio durinhos, é verdade. Este ano, não.

Este ano, camarada, eles lutam. E lutam ao lado de herdeiros do Templo Shaolin.

Se em 1977 você viu guardas de trânsito falando ao alto-falante para disciplinar milhões de bicicletas, agora eu vejo máquinas executando kung fu diante de um bilhão de espectadores.

É um salto de meio século comprimido em um único compasso televisivo.

Não é só show. É demonstração estratégica.

Quando a China coloca robótica, inteligência artificial e manufatura inteligente no centro do planejamento, e depois esse futuro aparece no palco mais visto do país, não dá para tratar como coincidência. A Gala vira uma vitrine de Estado: ela traduz uma prioridade de política industrial em imagem, ritmo e espetáculo.

O sinal de maturidade não está só no aplauso do público. Está no fato de que já existe base para levar esses sistemas do palco para o chão: robôs para trabalhar, para operar em ambientes industriais, para reforçar logística, inspeção e serviços — e, mais adiante, para entrar no cotidiano doméstico.

Se nos anos 1970 a grande questão era como organizar milhões de pessoas para construir infraestrutura, agora a questão é como integrar milhões de linhas de código ao mundo físico.

Você viu alto-falantes disciplinando ciclistas. Eu vejo algoritmos disciplinando máquinas. Mas a lógica de fundo — planejamento, escala, coordenação — continua.

Robôs no cotidiano — para além do espetáculo

Henfil, o kung fu dos robôs na Gala do Festival da Primavera é só a ponta visível de um iceberg que está se formando sob a superfície da vida diária aqui. Não se trata de luzes, performances e aplausos — trata-se de robótica entrando na rotina das pessoas e das cidades.

Na economia e na vida urbana chinesa, robôs já não são apenas atração de televisão. Eles estão sendo colocados para trabalhar em serviços públicos e privados, em tarefas do dia a dia, como parte de uma estratégia de Estado para automação e modernização.

É o caso, por exemplo, do robô que controla o tráfego em Wuhu, sobre o qual te contei no início dessa prosa imaginária. Não é milagre nem ficção científica. É infraestrutura: automação urbana conectada a semáforos e sensores, funcionando em tempo real, 24 horas por dia.

E não se limita às ruas. Eventos como a World Robot Conference, em Beijing, mostram que os humanoides estão deixando o laboratório e encarando o mundo real: servem café, atuam em linhas de produção, organizam tarefas em conferências e interagem com visitantes. É ali que eles precisam lidar com gente, espaço apertado, ritmo de cidade.

Na prática, essa transição já aparece em usos bem concretos: inspeção, ordenação de materiais, rotinas repetitivas e tarefas de serviço — e, aos poucos, até funções domésticas mais simples.

Nada disso acontece por acaso. O governo chinês empurra essa agenda como parte da modernização do país. Robôs, inteligência artificial e automação são vistos como respostas a desafios demográficos e econômicos: menos mão de obra disponível em alguns setores, população envelhecendo e custos do trabalho humano subindo.

Com esse empurrão de política pública, a robótica sai do protótipo e ganha escala: entra em fábricas, corredores logísticos e serviços urbanos — e vai, pouco a pouco, se aproximando das casas.

O salto que eu vi no palco do CMG, portanto, não é espetáculo isolado. É um movimento mais amplo: robôs integrados a serviços públicos e automação urbana; humanoides testados em atendimento e rotinas de serviço; robótica aplicada à indústria, à logística e à inspeção — tudo ligado a planejamento, investimento e coordenação de longo prazo.

Ou seja: o que parecia futurismo puro há poucos anos já está virando rotina — não só nas fábricas, mas nas cidades e, em breve, dentro das casas e dos serviços cotidianos.

Do 14º Plano Quinquenal ao kung fu dos robôs

Henfil, esse salto não começou em 2026. Ele vem sendo preparado desde o 14º Plano Quinquenal (2021–2025).

No 14º Plano, a palavra-chave era autossuficiência tecnológica. O documento oficial fala em fortalecer cadeias industriais estratégicas, desenvolver robótica avançada, inteligência artificial, manufatura inteligente e integração digital-industrial. A meta era clara: reduzir dependências externas e transformar tecnologia em base de soberania.

Ali, a robótica já aparecia como setor prioritário. Não como curiosidade futurista, mas como engrenagem central da modernização produtiva.

E então surge um conceito que ajuda a entender o momento atual: “novas forças produtivas de qualidade”.

Essa expressão, usada por Xi Jinping e incorporada aos debates estratégicos recentes, descreve um novo estágio do desenvolvimento chinês. Não se trata mais apenas de crescer em volume. Trata-se de crescer com inovação de alta intensidade tecnológica, com IA, biotecnologia, computação avançada, novos materiais e — sim — robótica humanoide.

Quando você vê um robô executando kung fu ao lado de crianças formadas na tradição Shaolin, está vendo a encenação perfeita dessa ideia: tradição milenar + nova força produtiva.

Não é ruptura com o passado. É atualização do passado.

A disciplina mudou de forma

Você descreveu, em 1977, a China das bicicletas, da paciência coletiva, do guarda orientando milhões pelo alto-falante. Aquilo era disciplina social aplicada à construção nacional.

Hoje, a disciplina assume outra forma: planejamento tecnológico de longo prazo.

O 14º Plano Quinquenal estruturou a base industrial. O 15º Plano Quinquenal aprofunda a aplicação da inteligência incorporada. O Governo escreve “robôs inteligentes” no relatório oficial.

E meses depois, eles estão no palco principal da televisão mais assistida do mundo.

Percebe o padrão, Henfil?

Aqui, o espetáculo não antecipa a política. Ele confirma a política.

Beijinhos de Beijing!

Iara Vidal, pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

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