5 de junho de 2026

Eu cantarei de amor tão docemente, por Luís de Camões

Do blog de Gilberto Cruvinel

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Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.


Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-m’-ei dizendo a menos parte;

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

Fonte: Berardinelli, Cleonice, “Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa”, p.24,25; 1 ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

 

 

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3 Comentários
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  1. jns

    26 de janeiro de 2014 11:47 pm

    patativa do assaré

    O poeta foi autodidata, leitor assíduo. Leu dos populares aos eruditos: Zé da Luz, Catulo da Paixão Cearense, Juvenal Galeno, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Olavo Bilac, Guimarães Passos, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade (embora não apreciasse a poesia desse autor, por não ter o recurso da rima) e outros. Teve especial apreço pela obra camoniana. Ele acrescenta: “Eu fui apenas alfabetizado. Agora fui um leitor assíduo, cuidadoso, curioso pra saber das coisas. Aprendi a ler, queria ler tudo. […] lia revista, jornal, os poetas da língua… até Camões, aquele Os Lusíadas.” E compõe:

    ‘Aqui de longínqua serra / De Camões o que direi? / Quer na paz ou quer na guerra / que ele foi grande eu bem sei / exaltou a sua terra mais do que seu próprio rei / e por isso é sempre novo no coração do seu povo / e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas noções / porque no tive dos mestres as preciosas lições / só tenho flores silvestres pra coroa de Camões / veja a minha pequenez ante o bardo português.’

    Observa-se que nessa composição o poeta se mostra pequenino ante a grandeza do bardo português. A lista “longínqua serra, poucas noções das coisas terrestres, não teve dos mestres preciosas lições” pode querer expressar o extremo entre o imortal português e ele. Embora diga só ter “flores silvestres para coroa de Camões”, o poeta mostra-se à vontade e íntimo com as palavras. Talvez por isso, atrás da modéstia quase enganosa ou falsa, brinque com aqueles que o consideram “analfabeto”, ignorante das letras. A evidência de sua habilidade com a poesia clássica, especialmente com os decassílabos camonianos, pode ser conferida em muitas de suas composições.

    Um exemplo clássico é seu “O purgatório, o inferno e o paraíso”.

    Fonte: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conexao/article/viewFile/133/124

  2. lenita

    27 de janeiro de 2014 12:19 am

    Patativa

    excelente post. Não conhecia esse trecho do Patativa s/ Camoões.

    Obrigado

  3. Gilberto Cruvinel

    27 de janeiro de 2014 1:15 am

    Dica preciosa

    Obrigado pela dica preciosa, jns

    Patativa também é um dos meus poetas prediletos e ler dele texto sobre Camões é realmente um achado.

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