10 de junho de 2026

Surto de Oropouche infectou 9,4 milhões de pessoas na América Latina desde 1960, apontam estudos

O recente surto de 2023 já havia acendido alertas: foram mais de 30 mil casos registrados no Brasil, a primeira morte confirmada no país atribuída à doença e uma disseminação que ultrapassou os limites históricos da região amazônica
Crédito: Smith Collection/Gado/Getty Images

Estudos indicam que 9,4 milhões foram infectados pelo vírus Oropouche na América Latina desde 1960, incluindo 5,5 milhões no Brasil.
Em Manaus, 300 mil pessoas foram infectadas entre 2023 e 2024, 260 vezes mais que os casos oficialmente confirmados.
Nova linhagem do vírus aumenta replicação e resistência, e Sudeste é o novo epicentro com 57,9% das notificações em 2023.

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Dois estudos publicados nesta terça-feira (24) nas revistas científicas Nature Medicine e Nature Health revelam que o impacto do vírus Oropouche é muito maior do que indicam os dados oficiais. Por meio de modelagem matemática, dados históricos e análise de amostras de sangue de hemocentros, pesquisadores estimam que cerca de 9,4 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus na América Latina e no Caribe desde 1960. Só no Brasil, o número chegaria a aproximadamente 5,5 milhões de casos.

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O recente surto de 2023 já havia acendido alertas: foram mais de 30 mil casos registrados no Brasil, a primeira morte confirmada no país atribuída à doença e uma disseminação que ultrapassou os limites históricos da região amazônica para alcançar todos os estados. No início deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um apelo para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e controle contra o patógeno.

“Estamos diante de uma doença com magnitude muito maior do que se imaginava, o que requer mais atenção. Estimamos que um em cada mil diagnósticos da doença evolua para complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”, afirma José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor dos estudos, que contam com apoio da FAPESP.

A pesquisa também recebeu financiamento do CNPq, do National Institutes of Health (NIH), da Wellcome Trust e do Instituto Todos pela Saúde.

A doença provoca febre e sintomas semelhantes aos da dengue, podendo evoluir para complicações graves, incluindo meningite, meningoencefalite e microcefalia em casos de transmissão materno-fetal.

Manaus

Na maior metrópole da Amazônia, os números são alarmantes: estima-se que 300 mil pessoas tenham sido infectadas entre 2023 e 2024, quase 260 vezes mais que os casos confirmados oficialmente. A prevalência de anticorpos contra o vírus saltou de 11,4% em novembro de 2023 para 25,7% em novembro de 2024.

William de Souza, professor da Universidade do Kentucky (EUA) e coautor do estudo, explica a subnotificação. “A capital do Amazonas é uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes e considerada a porta de entrada para a região amazônica. A subnotificação impressionante ocorreu por vários fatores, principalmente pelo fato de o vírus ter circulado silenciosamente antes de atingir as bordas do centro urbano, com muitos casos sendo assintomáticos ou leves, e sem diagnóstico.”

A logística da região agrava ainda mais o problema. “Pacientes em regiões remotas da Amazônia muitas vezes enfrentam tempos de viagem de mais de 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse silenciosamente até atingir a borda de um grande centro urbano”, acrescenta Souza.

Os pesquisadores identificaram duas grandes ondas do Oropouche em Manaus: uma na década de 1980 e outra em 2023, cada uma infectando mais de 12% da população da capital. Módena destaca ainda uma descoberta relevante para estratégias futuras de vacinação: “Indivíduos infectados na década de 1980 ainda eram capazes de neutralizar a linhagem viral recente”, o que “sugere uma proteção cruzada duradoura.”

Vírus

Diferentemente da dengue, da zika e da chikungunya, transmitidas pelo Aedes aegypti, o Oropouche é transmitido pelo mosquito-pólvora, também chamado de maruim (Culicoides paraensis). Isso faz com que a incidência da doença em áreas rurais seja 11 vezes maior do que nas cidades.

“Ao contrário do Aedes aegypti, que se reproduz em água parada, o maruim deposita seus ovos em solo úmido e rico em matéria orgânica. É um mosquito do mato, de áreas úmidas. Por isso, a predominância de casos em áreas rurais e não urbanas”, diz Souza.

A associação histórica da doença com plantações de banana e cacau também foi revisitada pelos pesquisadores. “Ao estudar a ecologia do vírus identificamos que a questão não é a fruta em si, mas a condição ideal de solos úmidos e com bastante matéria orgânica. Altas temperaturas e chuvas também são condições propícias para a disseminação do maruim”, explica o pesquisador.

Essas características impõem um desafio inédito às políticas públicas. “O combate à doença se torna muito diferente das outras arboviroses transmitidas por mosquitos, que são mais urbanos. Estratégias como a fumigação em praças e ruas asfaltadas são provavelmente pouco úteis contra o Oropouche. O maruim não vive nos ralos das casas, mas na umidade das áreas florestais e na vegetação periférica das cidades”, ressalta Souza.

O inseto apresenta ainda outra peculiaridade: é três vezes menor que um pernilongo comum, tamanho suficiente para atravessar mosquiteiros convencionais.

Nova linhagem

A reemergência agressiva do vírus em 2023 não se explica apenas pelo clima. Os pesquisadores identificaram o surgimento de uma nova linhagem viral resultante de um processo de rearranjo genético (reassortment), que ocorre quando dois vírus diferentes infectam uma mesma célula. A nova linhagem apresenta maior capacidade de replicação e resistência parcial à neutralização por anticorpos gerados em infecções anteriores, características que ampliaram seu potencial de expansão territorial.

O estado do Espírito Santo registrou a maior taxa acumulada do país em 2023, com 318 casos por 100 mil habitantes, enquanto a região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, tornando-se o novo epicentro da doença.

Para Módena, os achados evidenciam a insuficiência da vigilância atual. “A reemergência do Oropouche nos mostra que não podemos combater todas as arboviroses com a mesma receita, pois o maruim não segue as mesmas regras do Aedes. Isso torna a vigilância atual contra o vírus Oropouche insuficiente e subestima drasticamente a real dimensão da doença.”

O pesquisador defende uma abordagem mais abrangente. “Embora a imunidade de longo prazo pareça existir para quem já foi infectado, a velocidade com que o vírus se expandiu por todos os estados brasileiros mostra que o sistema de saúde precisa de novos sistemas de detecção, focados, inclusive, na vigilância distante dos grandes centros.”

Entre as mudanças estruturais recomendadas pelos autores estão a adoção de estudos sorológicos contínuos, o uso de bancos de sangue como sistema de alerta precoce, a descentralização dos testes laboratoriais e a integração de ferramentas digitais e genômicas para monitorar surtos e mutações em tempo real.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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