10 de junho de 2026

Hegemonia Predatória e América Latina: A Erosão do Discurso Democrático Americano, por J. Renato Peneluppi Jr.

Sem reforçar regras compartilhadas, a política dos EUA passou a instrumentalizar normas internacionais para avançar objetivos unilaterais.
Imagem gerada por IA

A hegemonia predatória dos EUA explora instituições globais para vantagens unilaterais, afetando a soberania da América Latina.
Lula, na 10ª Cúpula da CELAC, denunciou a apropriação externa das riquezas naturais da região como nova forma de colonização.
Pressões diplomáticas e militares dos EUA na América Latina evidenciam a erosão da ordem internacional cooperativa e multilateral.

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Hegemonia Predatória e América Latina: A Erosão do Discurso Democrático Americano

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por J. Renato Peneluppi Jr.

A hegemonia predatória — a exploração sistemática de instituições globais, normas e parcerias por um Estado dominante para extrair vantagens unilaterais — há muito molda a arquitetura da ordem internacional. Longe de sustentar uma cooperação genuína, essa forma de poder subordina a soberania e aprofunda desigualdades estruturais, deixando os Estados periféricos a navegar em um sistema desenhado contra seus próprios interesses.

Uma de suas expressões mais duradouras é o neoextrativismo: o impulso incessante de potências externas para se apropriar das riquezas naturais do Sul Global — minerais críticos, terras raras, recursos energéticos estratégicos — sem permitir que o valor seja retido, processado ou transformado nos territórios que os detêm.

Ao discursar na 10ª Cúpula da CELAC, em Bogotá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu voz a essa queixa estrutural com notável franqueza: “Estão tentando nos colonizar novamente?” — uma pergunta que reformula a disputa pelos recursos da América Latina não como investimento, mas como a continuidade de padrões históricos de extração e espoliação.

É por meio dessa lente que o Sul Global passou a reinterpretar antigas assimetrias de poder, recorrendo ao pensamento pós-colonial para expor os padrões de dominação entrelaçados na política mundial. Em um mundo cada vez mais multipolar, esse acerto de contas já não é apenas acadêmico — trata-se de um chamado para reimaginar os termos pelos quais as nações se engajam, resistem e, em última instância, reformulam a ordem que governa a todos.

Por dois séculos, a política dos Estados Unidos em relação à América Latina contradisse sua retórica democrática ao subordinar a soberania regional a interesses estratégicos. O conceito de “hegemonia predatória”, de Stephen Walt, descreve como Washington passou a tratar aliados e rivais como instrumentos para vantagens de curto prazo, em vez de parceiros em uma ordem internacional cooperativa.

Historicamente, a liderança dos EUA evoluiu por fases. Durante a Guerra Fria, Washington apoiou a reconstrução europeia ao mesmo tempo em que sustentava regimes autoritários na América Latina — incluindo o golpe de 1964 no Brasil e a Operação Condor — revelando como cálculos geopolíticos se sobrepunham a princípios democráticos. Filmes brasileiros como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto continuam a retratar essas contradições.

Posteriormente, os Estados Unidos estruturaram a globalização por meio de instituições e mecanismos financeiros que reforçaram a centralidade do dólar. Essa dominância monetária tem raízes no sistema do petrodólar dos anos 1970, quando o comércio de petróleo passou a ser denominado majoritariamente em moeda americana, criando uma demanda global sustentada por dólares e ampliando a alavancagem financeira de Washington. Após a Guerra Fria, esse arcabouço se expandiu por meio de instituições financeiras internacionais e regras de comércio que apresentavam o sistema como uma ordem multilateral.

Dentro dessa estrutura, o Consenso de Washington promoveu reformas neoliberais na América Latina, incentivando a liberalização de mercados e privatizações, ao mesmo tempo em que aprofundava assimetrias econômicas. Muitos países permaneceram como fornecedores de matérias-primas, enquanto o valor tecnológico e financeiro se concentrava em economias avançadas integradas ao sistema centrado no dólar.

Nos últimos anos, contudo, esse modelo assumiu um caráter mais explicitamente predatório. Em vez de reforçar regras compartilhadas, a política dos EUA passou a instrumentalizar normas internacionais para avançar objetivos unilaterais. Regimes comerciais, mecanismos de sanções e estruturas de segurança são aplicados de forma seletiva, transformando aquilo que antes era apresentado como bens públicos globais em ferramentas estratégicas de influência.

A América Latina oferece vários exemplos contemporâneos dessa dinâmica. Um episódio recente envolveu um enviado norte-americano que viajou ao Brasil e sinalizou apoio a atores políticos alinhados às preferências de Washington durante um período eleitoral sensível, levantando preocupações sobre interferência em processos democráticos internos. Seja interpretado como diplomacia ou pressão, o episódio evidencia a linha tênue entre parceria e intervenção sob a hegemonia predatória.

Da mesma forma, a persistência do embargo dos EUA contra Cuba — mantido apesar de décadas de condenação quase unânime nas Nações Unidas — ilustra como a pressão econômica unilateral pode se sobrepor ao consenso multilateral, aplicando regras internacionais de acordo com alinhamentos geopolíticos.

A cooperação militar também amplia essa presença estratégica. Acordos que permitem o deslocamento de tropas no Paraguai e a formulação de crises regionais sob narrativas de “narcoterrorismo”, como na recente escalada de segurança no Equador, correm o risco de normalizar a expansão de estruturas de segurança externas sob o pretexto de preocupações legítimas.

Em conjunto, esses casos demonstram como o uso estratégico das regras existentes por Washington transforma normas globais em instrumentos de vantagem unilateral. A hegemonia predatória opera não apenas por coerção direta, mas também por influência estrutural sobre marcos políticos, econômicos e de segurança.

Pressões diplomáticas, regimes de sanções e parcerias militares criam uma rede na qual a soberania formal coexiste com assimetrias de poder subjacentes — reforçando a influência dos EUA no hemisfério ao mesmo tempo em que erodem gradualmente a ordem internacional cooperativa que o país outrora afirmou liderar.

A consequência mais ampla é a erosão gradual da legitimidade da ordem internacional. Quando o arquiteto das instituições globais aplica regras de forma seletiva para obter vantagens unilaterais, a confiança nesses marcos se enfraquece — transformando estruturas concebidas para cooperação em mecanismos de instabilidade e desconfiança.

Para a América Latina, o desafio, portanto, não é apenas de alinhamento geopolítico, mas de defesa da autonomia de políticas públicas em um sistema internacional cada vez mais contestado. À medida que os países diversificam parcerias e fortalecem a cooperação regional, a sustentabilidade de longo prazo da governança global dependerá de esses marcos permanecerem genuinamente multilaterais ou se tornarem instrumentos de poder hegemônico.

Em última instância, a hegemonia predatória contém as sementes de seu próprio declínio. Ao priorizar vantagens de curto prazo em detrimento de regras compartilhadas, Washington acelera a diversificação e a autonomia estratégica que busca evitar — confirmando o alerta de Walt de que tal influência pode se erodir gradualmente e, depois, de forma súbita.

J. Renato Peneluppi Jr. – Doutor e Mestre em Administração Pública Chinesa na HUST (华中科技大学), com especialidade em políticas de desenvolvimento energético e transição energética na China (2018). Pesquisador Associado na Boston University (2017-2018). Pesquisador Visitante na Universidade de Oslo – REMIX e CICERO (2016). Lecionou na China-EU ICARE (Institute for Clean and Renewable Energy) (2012). Possui Especialização em Educação Ambiente COEDUCA – UNICAMP (2009).

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    6 de abril de 2026 5:26 pm

    Está tudo desmoronando nos EUA e o mais grave é a inexistência de uma Suprema Corte capaz de interromper os abusos de Donald Trump. O último deles é o mais perigoso: todo dinheiro arrecadado dos países que aderiram àquela ONU paralela que ele criou para supostamente reconstruir Gaza foram depositados numa conta em nome pessoal do presidente dos EUA. Ninguém sabe realmente como e onde ele vai usar aquela fortuna. Os gastos dificilmente serão sujeitos a fiscalização e me parece possível que ele pode usar aquele dinheiro não para reconstruir Gaza mas para comprar líderes latino americanos e para interferir em eleições na região. A ganância por terras raras está enlouquecendo o White Ass Apes Empire, porque a possibilidade dele perder a corrida tecnológica para a China é grande.

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