Um passeio por Wuhan, a capital das pontes
A partir do meu olhar de filha de pernambucano, batizei a capital de Hubei de “Recife milenar”, uma cidade de marcos que parecem sempre “os maiores em linha reta do mundo”

Entre os dias 27 e 30 de março, fiz minha primeira viagem a lazer na China desde que me mudei para Beijing, no fim de novembro de 2025. E não foi qualquer destino. Escolhi Wuhan, capital de Hubei — e não foi por acaso.
Lá mora meu amigo-irmão na China, Renato Peneluppi, aquele tipo de encontro raro na vida. Ele é o meu guia-mestre nessa aventura na Terra do Meio. Ele ama a cidade onde mora e nosso combinado foi o de que seria o meu primeiro passeio aqui.

Wuhan é uma daquelas cidades que, à primeira vista, parecem “só mais uma grande cidade chinesa”. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que ela condensa várias camadas da China ao mesmo tempo — histórica, política, industrial e simbólica.
Cheguei à cidade de trem-bala — minha segunda experiência nesse colosso da engenharia chinesa. A estação é moderna e, curiosamente, me lembrou Brasília. Talvez saudade de casa.

Minhas boas-vindas já foram em grande estilo. No hotel, ganhei uma caixa de chá de Enshi, o chamado Orvalho de Jade. A embalagem — uma caixa de laca verde-piscina, com porcelanas da mesma cor e tampa dourada — já era de perder o fôlego.
Mas o chá em si também tem peso. O Enshi Yulu é um dos orgulhos de Hubei: um chá verde tradicional, ligado a técnicas antigas de vaporização e a uma região conhecida pela riqueza mineral do solo. Ou seja, não era só um presente bonito. Era quase uma pequena cápsula de território, história e prestígio local.
Já instalada, a caminho do restaurante, fui sendo atravessada pela beleza das cerejeiras em flor, que tomam a cidade e a deixam toda colorida.

No restaurante, especializado em frutos do rio, me esbaldei com um prato típico da temporada. Estamos em plena época do lagostim — que, no Brasil, a gente chamaria de pitu, o camarão de água doce.
Provei também uma sopa de raiz de lótus — linda e, para minha surpresa, deliciosa. E olha que sou do time da Mafalda e sempre disse que odeio sopa.
Recife com características chinesas
Andando por lá, tive uma sensação curiosa: Wuhan é uma espécie de “Recife milenar” — ou, para manter o espírito da coisa, um Recife “com características chinesas”.
Tem esse jeito de cidade que nasceu para ser grande, que se entende como centro e carrega orgulho de si mesma. Tudo ali parece “o maior em linha reta do mundo” — e quem é do Recife entende exatamente o que isso quer dizer.
É uma grandeza que não pede licença. Está nas avenidas, nas pontes, no clima, no ritmo. É como se a cidade dissesse o tempo todo: “a gente sabe quem a gente é”.
Recife, terra de meu pai, tem cerca de 50 pontes e é organizada por rios e travessias — sobretudo o Capibaribe e o Beberibe. Wuhan opera em outra escala, mas a lógica é parecida: cidade feita de conexões.
Nessa viagem, ouvi uma frase ótima de um jovem arquiteto brasileiro que mora em Shanghai: se você quer entender as pontes do mundo, vá à China. Se quer entender as pontes da China, vá a Wuhan.
Não é exagero. Wuhan se apresenta como “cidade das pontes” — e faz sentido. A cidade é literalmente costurada pela água e pela história de suas três partes — Wuchang, Hankou e Hanyang — que precisaram ser ligadas.
Ali, ponte não é só infraestrutura. É linguagem urbana.
São quase 700 pontes, incluindo grandes travessias sobre o Yangtzé e o Hanjiang. Mas não é só quantidade. Foi ali que entrou em operação, em 1957, a primeira ponte rodoferroviária sobre o Yangtzé construída após a fundação da Nova China — um marco da engenharia do país.
No fim, aquela frase que ouvi parece menos uma explicação técnica e mais um slogan afetivo. Em Wuhan, geografia, engenharia e orgulho local se misturam o tempo todo.
Muito Mao, Mao para caralh@


A cidade também aparece na trajetória de Mao Zedong de outra maneira: não como lugar de retirada, mas de presença.
Foi ali que ele atuou como organizador político, ainda em formação, articulando ideias, circulando, tentando entender o país que pretendia transformar.
A Casa de Mao deixa isso evidente. Não é um espaço monumental — e talvez seja justamente esse o ponto. Ali não aparece o líder consolidado, mas o processo. Um Mao em construção.

Wuhan surge como lugar de passagem. Mas uma passagem decisiva.
Não a cidade da Longa Marcha, mas o lugar em que a revolução percebe que não vai conseguir se sustentar apenas nas cidades.
É ali que a chave começa a virar.
Mas Mao também volta a Wuhan depois, já como símbolo. Em 1956, atravessa o Yangtzé a nado e escreve sobre isso. Em 1966, repete o gesto — agora como demonstração política de força, às vésperas da Revolução Cultural.
O corpo como mensagem. Wuhan, de novo, como palco.
A encruzilhada da China
Wuhan aparece na história chinesa como um lugar onde as coisas mudam de direção.
Foi ali, em Wuchang, que começou a Revolução de Xinhai, em 1911, que derrubou o último império e abriu caminho para a China moderna.
Passei também pela casa da viúva de Sun Zhongshan (孙中山), considerado o pai da China moderna, e, com ela, pela memória das três irmãs Soong — talvez uma das famílias mais simbólicas do século XX chinês.
Soong Qingling, ligada ao projeto revolucionário; Soong Meiling, que se casou com Chiang Kai-shek e se tornou primeira-dama da China nacionalista; e Soong Ailing, que, ao se casar com o banqueiro H. H. Kung, conectou poder político e financeiro. Três irmãs, três destinos, três caminhos possíveis para a China.
Décadas depois, Wuhan voltaria a ocupar um papel decisivo.
Em 1927, foi palco de um dos momentos mais tensos da história do Partido Comunista da China, quando a estratégia urbana da revolução ainda estava em disputa e prestes a ruir.
No ano anterior, o Massacre de Shanghai havia marcado a ruptura violenta entre nacionalistas e comunistas, desmontando a possibilidade de uma frente unificada e abrindo um ciclo de perseguição e repressão.
É nesse cenário que Wuhan entra.
Ali, a estratégia urbana se esgota. A repressão se intensifica, o projeto entra em crise e a revolução é forçada a buscar outro caminho.
De certa forma, Wuhan não é a Longa Marcha — mas é parte do que torna a Longa Marcha necessária.
Caminhar por esses espaços é perceber que a história não é linear. Tem hesitação, ruptura, recalculo. Tem erro também.
E Wuhan está bem no meio disso.
O coração da China
Wuhan ocupa um lugar muito específico no mapa da China. Está no centro geográfico do país, mas também no centro da circulação.
É onde dois grandes rios se encontram — o Yangtzé e o Hanjiang — e de onde partem fluxos para todas as direções: ferrovia, navegação, gente, mercadoria, informação.
Wuhan funciona como um coração — um sistema cardio-circulatório que mantém o país em movimento.
E quem me conhece sabe que tenho uma coleção linda de colares de coração. É um órgão que sempre me atravessou como símbolo: afeto, movimento, vulnerabilidade. Talvez por isso eu tenha me sentido em casa ali — como se a cidade pulsasse numa frequência que eu já reconhecia.
Mas Wuhan não é só imagem. É também a China concreta.
É polo industrial, base tecnológica, centro logístico. Não é a China da vitrine. É a China que sustenta a engrenagem.
Juventude em movimento

Ao mesmo tempo, Wuhan é uma cidade jovem. São dezenas de universidades, centenas de milhares de estudantes, circulação de ideias. Há uma energia ali difícil de explicar — uma cidade que pensa enquanto se move. E eu mergulhei nisso.
No sábado à noite, fui a uma festa carnavalesca organizada por universitários brasileiros — olha Pernambuco aí de novo. No domingo, ainda no amargo da ressaca, me encontrei com parte desse grupo em um café.
Falamos sobre o que significa ser brasileira na China, sobre jornalismo, conjuntura internacional, relação sino-brasileira. Mas, principalmente, sobre presença.
Sobre quem vive fora, sobre organização da comunidade brasileira e sobre algo que muita gente ainda subestima: o voto no exterior. Foi uma conversa viva.
E saí de lá com a sensação de que Wuhan não é só uma cidade em movimento — é uma cidade que forma, conecta e empurra.
Os loucos do sul
Antes de Wuhan existir como cidade, aquela região já era outra coisa: o território de Chu.
Uma espécie de “outra China” — mais fluida, mais imaginativa, menos rígida que o norte do Rio Amarelo.
Renato me contou que, lá atrás, o pessoal do norte chamava os Chu de “os loucos do sul”. E faz sentido. Wuhan nasce dessa tensão — entre ordem e fluxo.
Talvez por isso a melhor imagem para a cidade não seja a de um lugar fixo, mas de um cruzamento. Um ponto cruz.
Wuhan é um espetáculo à parte
Wuhan é palco. E continua sendo.
Foi invadida pelos japoneses, virou epicentro inicial da pandemia de COVID-19 e hoje carrega também a imagem de reconstrução.
Como se, mais uma vez, tivesse atravessado uma crise e saído transformada.
No domingo, o ritmo desacelerou. Caminhei sem destino, conversei, peguei barco.
E talvez tenha sido aí que Wuhan fez mais sentido.
Não como uma narrativa fechada.
Mas como esse lugar onde passado e futuro convivem de forma meio indisciplinada — como os tais “loucos do sul”.
Voltei para Beijing com a sensação de que Wuhan não se explica.
Se atravessa.
Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
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