As urnas abriram neste domingo (12) no Peru para uma eleição presidencial marcada pela instabilidade crônica e pelo resultado imprevisível. São 35 candidatos na disputa pela preferência de 27 milhões de eleitores, que vão escolher presidente, vice, 130 deputados e 60 senadores. A divulgação dos primeiros resultados está prevista para a meia-noite.
O pleito marca também a reabertura do Senado peruano, fechado há 33 anos. O Congresso restaurou o sistema bicameral em 2024, mesmo que a população tenha rejeitado a medida em plebiscito seis anos antes.
Quem vencer herdará um país que teve dez presidentes em dez anos, sequência resultado de uma cadeia de renúncias, impeachments e destituições que transformou a instabilidade em norma da política peruana.
Fujimori na frente
Keiko Fujimori lidera as pesquisas com cerca de 15% das intenções de voto e é apontada como a candidata mais provável a chegar ao segundo turno, marcado para 7 de junho. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000, ela já perdeu nas fases finais das eleições de 2011, 2016 e 2021. Sua alta rejeição sugere um teto de votos difícil de superar.
Quem a acompanhará no segundo turno é a grande incógnita. Os demais candidatos vivem um vasto empate técnico, tornando o resultado da primeira rodada essencialmente imprevisível. “Podemos apenas cravar que, para o segundo turno, pode ir qualquer um”, resume o professor Gustavo Menon, especialista em integração latino-americana da USP e da Universidade Católica de Brasília.
No campo da direita, destacam-se Rafael López Aliaga, o “Porky”, ex-prefeito de Lima, comparado a Trump e Milei por seu discurso ultraconservador, e o humorista Carlos Álvarez. À esquerda, o cenário é ainda mais fragmentado, com os principais nomes oscilando em torno de 5%: o deputado Roberto Sánchez, apoiado pelo ex-presidente preso Pedro Castillo; Vladimir Cerrón, do partido que elegeu Castillo; e os ex-prefeitos e economistas Ricardo Belmont e Alfonso López-Chau.
Para Menon, a fragmentação ameaça diretamente a governabilidade futura. “O risco é que essa fragmentação política inviabilize, em grande medida, a governabilidade do novo presidente”, avalia.
China, EUA e o porto de Chancay
A eleição peruana também tem dimensão geopolítica. Menon aponta que o resultado interessa diretamente à disputa comercial entre China e Estados Unidos na América Latina. O porto de Chancay, inaugurado recentemente com capital chinês, vem integrando o Peru às rotas comerciais do Pacífico asiático, e isso coloca o país no centro da rivalidade entre as duas potências.
Fujimori já sinalizou aproximação com Washington, o que se alinha à estratégia de Trump de firmar acordos militares com governos latino-americanos aliados como forma de conter a influência comercial chinesa na região. “Essa eleição é decisiva do ponto de vista das correntes políticas da direita para conter esse avanço chinês no fluxo comercial com diferentes países na América do Sul”, avalia Menon.
Crise
O atual ciclo de instabilidade se aprofundou na última eleição, em 2021, quando o professor rural Pedro Castillo venceu de forma surpreendente. Seu mandato terminou de forma abrupta após ele tentar dissolver o Parlamento. Consequentemente, foi afastado, preso e, em novembro de 2025, condenado a mais de 11 anos de prisão por rebelião.
Assumiu a vice Dina Boluarte, que reprimiu violentamente os protestos contra a destituição de Castillo, deixando 49 mortos segundo a Anistia Internacional. Com aprovação popular mínima, ela própria foi destituída pelo Congresso em outubro de 2025.
Seu substituto, o presidente do Parlamento José Jerí, durou poucos meses no cargo, sendo também removido em fevereiro deste ano. O atual presidente interino, José María Balcázar Zelada, foi eleito indiretamente pelo Congresso, o mesmo poder apontado como o verdadeiro centro de força do país andino.
*Com informações da Agência Brasil.
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