4 de junho de 2026

Nunca Mais: A operação secreta que salvou a maior denúncia contra a ditadura

Os processos da ditadura militar continham relatos detalhados de tortura, nomes de torturadores e localização dos centros de detenção clandestina
Crédito: Reprodução/ Youtube TV GGN

Em 1979, advogados liderados por Eni Raimundo Moreira copiaram processos da ditadura no STM para evitar destruição.
Foram xerocados 707 processos com 1 milhão de páginas, contendo relatos de tortura, centros de detenção e torturadores.
Projeto Brasil Nunca Mais foi financiado secretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas, com apoio do pastor Jaime Wright.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Em 1979, dois meses antes da Lei da Anistia, uma advogada de Juiz de Fora chamada Eni Raimundo Moreira ouviu um alerta que mudaria a história do Brasil. Seu chefe, o jurista Sobral Pinto, já octogenário, avisou: “A anistia vai vir, a abertura vai chegar, e eles vão queimar tudo.”

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Era uma referência ao que havia acontecido no fim do Estado Novo. Os processos políticos da ditadura Vargas foram destruídos, apagando para sempre os registros da repressão daquele período.

O medo era fundado. Os processos da ditadura militar continham relatos detalhados de tortura, nomes de torturadores e localização dos centros de detenção clandestina. Com a abertura política, esses documentos se tornariam provas comprometedoras, e, portanto, alvos óbvios de destruição.
Foi daí que nasceu o projeto Brasil Nunca Mais.

Essa história, entre tantas outras, é o tema do livro Nunca Mais, do jornalista Camilo Vannuchi, que entrevistou os protagonistas anônimos da operação e reconstrói os bastidores da maior denúncia sobre a tortura da ditadura militar brasileira. No último sábado (11), Vannuchi conversou com o jornalista Luís Nassif no programa GGN Leituras.

A operação

Eni articulou uma rede clandestina que reuniu advogados, religiosos e jovens anônimos em torno de um objetivo comum: copiar, antes que fosse tarde, os processos políticos arquivados no Superior Tribunal Militar, em Brasília. A operação explorou uma brecha legal: advogados podiam retirar os autos por 24 horas.

O advogado Sigmaringa Seixas, em Brasília, alugou uma sala, comprou duas máquinas de xerox e contratou dois rapazes de 17 anos para trabalhar. Os processos saíam do STM, eram reproduzidos e devolvidos. Depois, os maços de cópias eram despachados para São Paulo em ônibus de linha, sem escolta, às vezes por avião.

Em São Paulo, o material ficou armazenado por mais de dois anos no Instituto Sede Sapiência, em Perdizes, numa sala cedida a pedido do então arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns. Ninguém no instituto sabia o que estava sendo guardado ali. O projeto trocou de endereço três vezes na cidade, sempre de madrugada, quando os responsáveis desconfiavam que alguém havia notado movimentação suspeita.

Ao longo de seis anos, foram xerocados 707 processos, totalizando um milhão de páginas. Desse material, foram extraídos mais de 1.800 relatos de tortura, identificados 242 centros de detenção e listados 444 torturadores.

O financiamento secreto

O projeto contou com o apoio financeiro do Conselho Mundial de Igrejas, sediado em Genebra, uma parceria construída pelo pastor presbiteriano Jaime Wright, que tinha um irmão desaparecido político e trabalhava em sala vizinha à de Dom Paulo na Cúria Metropolitana. O arcebispo costumava chamá-lo de “bispo auxiliar para os direitos humanos”.

O dinheiro entrava no Brasil de forma não contabilizada. O pastor Wright e o americano Charles Harper, coordenador das atividades do Conselho para direitos humanos na América Latina, cruzavam o Atlântico com microfilmes escondidos na roupa e voltavam com dinheiro em cinto-cofre. A senha interna para avisar que os recursos tinham chegado era sempre a mesma: “Chegaram os chocolates.”

Cartas de amor

Entre os personagens anônimos da operação está Avel de Alencar, um jovem goiano de 17 anos que foi contratado para xerocar os processos em Brasília sem saber exatamente o que estava copiando. Ao ler os relatos de tortura e ver fotografias de corpos, exigiu uma explicação do advogado Sigmaringa.

Quando entendeu o que estava em jogo, não apenas continuou, acelerou o trabalho, prendendo o botão da máquina com fita adesiva para manter a luz acesa em permanência e trocar as páginas mais rapidamente.

Avel também encontrou, nos processos, medalhas que haviam pertencido a Luiz Carlos Prestes e foram apreendidas em 1964. Em vez de xerocá-las e devolvê-las ao STM, pediu ao pai, militante comunista que visitava Prestes todo ano em seu aniversário no Rio, que as entregasse ao líder histórico. Prestes teria recebido as condecorações com emoção, sem entender como alguém havia conseguido recuperá-las.

Havia também cartas. Cartas de amor interceptadas nas casas de presos políticos sequestrados, que nunca chegaram aos destinatários e ficaram retidas no arquivo do STM. Avel as abriu, comprou envelopes e selos, e as colocou de volta no correio, décadas depois de terem sido escritas.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
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  1. Avel Alencar

    13 de abril de 2026 7:54 am

    Dei minha contribuição histórica para registrar os crimes da ditadura.

  2. Rui Ribeiro

    13 de abril de 2026 2:17 pm

    Palmas prá você, Avel.

    Você deu contribuição não para registrar mas para que os registros não fossem apagados. Mas dá no mesmo. Muito obrigado.

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