10 de junho de 2026

O significado da visita de Zheng Liwen a Pequim, por Samuel Spellmann

Do ponto de vista discursivo, a viagem foi enquadrada sob a égide do princípio de “uma só China” e do chamado “Consenso de 1992”.
Zheng Liwen - Reprodução CGTN

Zheng Liwen, líder do Guomindang, visitou a China continental e se reuniu com Xi Jinping em Pequim, marcando o primeiro encontro em uma década.
Pequim reafirmou o princípio de “uma só China” e o Consenso de 1992, condicionando o diálogo à rejeição da independência de Taiwan.
Foram anunciadas medidas para facilitar intercâmbios e promover diálogo pacífico, visando evitar tensões e reforçar cooperação econômica e social.

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O Significado da visita de Zheng Liwen a Pequim e a estratégia chinesa de reconfiguração das relações no Estreito de Taiwan

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por Samuel Spellmann

A visita da presidente do Guomindang (GMD), Zheng Liwen, ao continente chinês entre 7 e 12 de abril de 2026, representa um dos movimentos políticos mais relevantes dos últimos anos nas relações entre China e a Província de Taiwan. O ponto culminante ocorreu em Pequim, entre os dias 10 e 12, quando a dirigente foi recebida por Xi Jinping no Grande Salão do Povo. Trata-se do primeiro encontro formal, em uma década, entre líderes em exercício do GMD e do Partido Comunista da China, fato que por si só confere elevado peso simbólico e estratégico à visita.

Como reforçado pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, a questão de Taiwan é assunto interno da China e não uma questão diplomática, reiterando o princípio de “uma só China” e advertindo contra interferências externas. Este tratamento indica também o potencial de abrir um canal de diálogo exclusivo entre chineses, sem interferência externa, para promover a reaproximação pacífica entre as duas margens do Estreito de Taiwan.

O itinerário da delegação do Partido Nacionalista não se limitou à capital chinesa. Antes de chegar a Pequim, Zheng passou por Xangai e Nanjing, cidades carregadas de significado histórico para as relações entre o Guomindang e o continente. Em Nanjing, antiga capital da República da China, a dirigente realizou discurso de forte carga simbólica, evocando a memória histórica comum e a continuidade cultural entre os dois lados do Estreito. O gesto político cuidadosamente calibrado, celebrando a memória de Sun Yat-Sen, visou ancorar-se em uma narrativa histórica compartilhada, reforçando a legitimidade da reintegração pacífica e o compromisso com o desenvolvimento harmonioso da China.

Do ponto de vista político, Pequim estruturou toda a visita em torno do chamado Consenso de 1992, reiterado como condição indispensável para qualquer avanço nas relações transestreito. Durante o encontro, o Secretário-Geral do Partido Comunista da China Xi Jinping enfatizou que o diálogo só pode prosperar sob a base de “uma só China” e da oposição à independência de Taiwan. Ao afirmar que “os chineses não lutam contra chineses”, o líder chinês buscou projetar uma imagem de contenção estratégica combinada com firmeza política.

Essa formulação revela uma dualidade central na estratégia chinesa: por um lado, a manutenção de linhas políticas rígidas; por outro, a abertura seletiva de canais de diálogo com atores considerados compatíveis com essa base. Nesse sentido, o GMD surge como interlocutor privilegiado, capaz de operar como ponte política em um cenário marcado por tensões crescentes com o atual governo provincial em Taipei.

A visita também foi utilizada como plataforma para a produção de resultados concretos. Ao seu término, autoridades do Escritório para Assuntos da Província de Taiwan anunciaram um conjunto de dez medidas voltadas à facilitação de intercâmbios. Entre elas, destacam-se a retomada de voos diretos de passageiros, a simplificação de procedimentos de entrada e saída, o estímulo à importação de produtos agrícolas e pesqueiros de Taiwan e o fortalecimento de programas de cooperação econômica.

A dimensão social da visita também merece destaque. Pequim enfatizou o intercâmbio juvenil como elemento estratégico de longo prazo, propondo a criação de plataformas regulares para a participação de jovens taiwaneses no continente. A meta anunciada de receber anualmente cerca de 20 delegações juvenis revela a intenção de atuar sobre a formação de percepções e identidades das novas gerações. Em paralelo, a agenda incluiu visitas a instituições culturais e empresas de alta tecnologia. O que se visa é dar oportunidade de interação e engajamento aos melhores jovens de Taipei, agora tendo à sua disposição o circuito das melhores universidades do globo,

No plano internacional, a visita assume contornos ainda mais complexos. Realizada em um momento que antecede movimentações diplomáticas relevantes entre China e Estados Unidos, a iniciativa pode ser interpretada como um sinal estratégico de Pequim. Ao demonstrar capacidade de interlocução direta com forças políticas taiwanesas, o governo chinês busca reforçar a ideia de que a questão de Taiwan é de natureza interna, reduzindo a legitimidade de intervenções externas.

Do ponto de vista discursivo, a viagem foi enquadrada sob a égide do princípio de “uma só China” e do chamado “Consenso de 1992”, entendido por Pequim como fundamento político indispensável. Como se sabe, o “Consenso de 1992” foi um entendimento alcançado em Hong Kong entre a China continental e a Província de Taiwan. Ambas as partes concordaram com o princípio de “uma só China”, mas permitiram interpretações divergentes: Pequim entende que Taiwan é parte inalienável da República Popular da China, enquanto Taipei defende a definição da República da China. Esse consenso estabeleceu a base política para o diálogo pacífico e a cooperação entre os dois lados do Estreito. Este tópico é particularmente sensível, na medida em que parte da comunidade política taiwanesa rejeita o Consenso de 1992, buscando progressivamente definir Taiwan como uma República independente da China.

Formalmente caracterizado como uma interação “partido a partido”, o encontro da última semana pode ser entendido como uma tentativa de deslocar o eixo das negociações para fora da estrutura estatal tradicional e reduzir o peso de atores externos.

A China, como se sabe, mantém uma organização de governança baseada na liderança do Partido Comunista sobre o front unido de movimentos políticos revolucionários que participaram da vitória na revolução socialista chinesa. Manter diálogo aberto com a liderança outrora derrotada do Partido Nacionalista indica a disposição de Beijing em engajar forças que aceitam a base do ‘Consenso de 1992’ e rejeitam qualquer forma de separatismo, ao mesmo tempo que isola tendências independentistas. Essa estratégia dual permite demonstrar flexibilidade tática sem ceder nos princípios fundamentais da soberania nacional e da integridade territorial.

Um último apontamento. Politicamente confrontado com a realidade da guerra internacional em expansão, o Guomindang dá provas de que pode vir a ser merecedor do seu nome. Em termos práticos, há um reconhecimento da República Popular como país rejuvenescido, capaz de desempenhar o papel original de centralidade da China no sistema internacional. Há também uma aquiescência ao Partido Comunista da China: sem ele, não haveria uma Nova China. Esta é a China que figura no centro do cenário  político global em 2026.

Sobre o cenário internacional hoje paira, entretanto, a sombra da guerra. Este posicionamento se reflete na retomada do militarismo japonês no Leste Asiático, que passa a suprir parcialmente o papel belicista dos Estados Unidos, que retiram suas forças da Coreia e do Mar Amarelo para focar no conflito com o Irã. O pivô do conflito para esta região da Ásia necessariamente passa pelo armamento de Taiwan e da sua utilização como território de confronto. Em linhas gerais, o que se vê é um planejamento para o isolamento do Sul da China do mercado global, onde o arquipélago taiwanês seria peça de descarte para prender as forças do Exército de Libertação Nacional.  

É neste sentido que a reaproximação com Pequim condiz necessariamente com uma agenda para a paz no Leste Asiático. É uma rejeição da guerra de chineses contra chineses. Mais do que isso, este posicionamento atua para impedir a consolidação do cenário de guerra mundial. O caminho para isto é uma colaboração interpartidária entre os antigos lados adversários da guerra civil chinesa. Isso passa necessariamente pelo entendimento mútuo, pela manutenção do Consenso de 1992 como base para futuras negociações, e aponta para uma potencial adesão ao arranjo de “Um País, Dois Sistemas”, vigente em Macau e Hong Kong, ambos Regiões Autônomas Especiais com regramentos político-administrativos próprios no sistema nacional Chinês. 

Samuel Spellmann – Professor Doutor da UFPA (Universidade Federal do Pará). É pesquisador do China Working Group – International Initiative for Promoting Political Economy (IIPPE), School of African and Oriental Studies, University of London (IIPPE, SOAS).

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