A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum “Democracia Sempre”, em Barcelona, consolidou-se como um marco na tentativa de reconstrução do multilateralismo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado por lideranças como o chefe do governo da Espanha, Pedro Sánchez, e o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, subiu o tom contra a paralisia das instituições internacionais. Para o líder brasileiro, a atual estrutura do Conselho de Segurança da ONU é um anacronismo que não representa mais o mundo contemporâneo e, pior, mantém a organização “silenciosa” diante de conflitos e injustiças.
O Conselho de Segurança no banco dos réus
A crítica central da “Declaração de Barcelona”, assinada por 22 países, recai sobre a ineficácia do Conselho de Segurança. Ramaphosa foi incisivo: a ONU está sendo minada justamente por aqueles que deveriam zelar pela ordem internacional – as potências com poder de veto. Lula reforçou que o órgão precisa de uma reforma urgente para incluir nações em desenvolvimento da África, Ásia e América do Sul, garantindo que o fórum sirva a todos e não apenas aos mais poderosos.
Um dos pontos de maior simbolismo na declaração foi o apoio à quebra da hegemonia masculina no secretariado-geral. Após 80 anos e nenhum comando feminino, líderes como Pedro Sánchez, da Espanha, defenderam que a próxima sucessão de António Guterres seja marcada pela escolha de uma mulher, como medida de justiça e credibilidade institucional.
Soberania digital e o combate ao ódio
Para além da diplomacia tradicional, o encontro de Barcelona enfrentou um dos maiores desafios das democracias modernas: a governança digital. Lula defendeu que o Brasil lidere o debate sobre a regulação das plataformas globais, equilibrando a liberdade de expressão com a proteção contra redes de desinformação e discurso de ódio.
A resposta concreta do grupo foi a criação de uma “Mesa Redonda sobre Democracia Digital”, um mecanismo permanente para trocar experiências regulatórias e evitar que algoritmos continuem a premiar o extremismo em detrimento da coesão social.
Desigualdade como combustível do extremismo
A declaração final traça um diagnóstico direto: a exclusão econômica é o terreno onde brota o autoritarismo. Nesse sentido, o documento oficial endossou propostas caras à diplomacia brasileira, como:
- A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza;
- A taxação internacional de super-ricos (Coalizão de Sevilha);
- A justiça climática baseada no Acordo de Paris.
Gaza e o Sul Global
O conflito no Oriente Médio também ecoou nos corredores da Fira de Barcelona. Ramaphosa reafirmou a denúncia da África do Sul contra Israel no Tribunal Penal Internacional (TPI), posicionando os países do Sul Global como guardiões do direito internacional. A mensagem enviada pelas lideranças progressistas é clara: não haverá estabilidade global enquanto as leis internacionais forem aplicadas de forma seletiva.
O Fórum “Democracia Sempre” já tem data para o próximo passo: setembro, em Nova York, durante a 81ª Assembleia Geral da ONU. Até lá, o compromisso é transformar a retórica de Barcelona em pressão política real para que as instituições nascidas no pós-guerra não sucumbam à própria obsolescência.
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