9 de junho de 2026

Florestas da Amazônia mostram resiliência, mas ficam mais vulneráveis após perturbações

Espécies vulneráveis são substituídas por outras mais generalistas e resistentes, resultando em florestas mais homogêneas
Crédito: Agência Brasil

Pesquisadores brasileiros monitoraram 20 anos de recuperação de florestas degradadas na Amazônia, incluindo áreas queimadas.
Recuperação ocorre sob nova composição, com perda de diversidade e maior vulnerabilidade a incêndios e secas.
Apesar da resiliência, estudo alerta para necessidade de proteção frente a riscos de degradação e mudanças climáticas.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Mesmo depois de incêndios, secas intensas e tempestades de vento, florestas degradadas na Amazônia conseguem se recuperar, inclusive com o retorno de espécies arbóreas. A conclusão vem de uma pesquisa publicada na última segunda-feira (20) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), baseada em 20 anos de monitoramento de campo e liderada por pesquisadores brasileiros.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A recuperação, porém, não é plena. O processo ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e maior suscetibilidade a novos distúrbios. Espécies vulneráveis são substituídas por outras mais generalistas e resistentes, resultando em florestas mais homogêneas. Os autores ressaltam, no entanto, que isso não significa uma tendência à savanização, ao contrário, reforça a resiliência do bioma.

Estudo

Os pesquisadores acompanharam três parcelas de 50 hectares cada na Fazenda Tanguro, área experimental em Mato Grosso, localizada na zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado, região considerada especialmente vulnerável ao aquecimento global. Uma parcela serviu de controle, sem queimadas; outra foi submetida a queimas anuais entre 2004 e 2010; e a terceira passou por queimas a cada três anos no mesmo período.

Com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura interna da floresta foi relativamente rápida, com diversidade de espécies razoavelmente estável. Nas bordas, porém, o processo foi bem mais lento: a riqueza de espécies caiu entre 20% e 46% entre 2004 e 2024.

As gramíneas, inclusive espécies invasoras de origem africana, como Andropogon gayanus, tiveram papel central ao alimentar incêndios de alta intensidade e dificultar a regeneração de árvores. Com o fechamento do dossel a partir de 2016, elas recuaram drasticamente, o que, para os pesquisadores, afasta o cenário de transformação definitiva em savana.

Dados

A composição original de espécies não se reconstituiu mesmo após 14 anos, especialmente entre as chamadas “especialistas de floresta”, árvores de madeira densa e vida longa. A fauna local, como antas, macacos e aves, foi apontada como fator relevante para a dispersão dessas espécies e a regeneração da floresta.

A pesquisa também identificou vulnerabilidades específicas: a casca fina das árvores aumenta o risco em incêndios; a baixa densidade da madeira agrava os danos em tempestades; e em secas severas, algumas espécies operam perto do limite de colapso hidráulico.

“A principal mensagem é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios”, disse Leandro Maracahipes, primeiro autor do estudo, atualmente pesquisador na Yale School of the Environment e colaborador do Ipam.

Contexto

Apesar de uma queda de 35% no desmatamento da Amazônia Legal entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, a degradação florestal segue em ritmo preocupante, foram 2.923 km² afetados no mesmo período, segundo o sistema Deter, do Inpe.

Para 2026 e 2027, cientistas alertam para a possibilidade de um “super El Niño”, que poderia ser o mais intenso em 140 anos, segundo projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo. O fenômeno tende a intensificar secas e incêndios justamente nas regiões mais vulneráveis do bioma.

Para o ecólogo Rafael Silva Oliveira, do IB-Unicamp, co-autor do estudo, os modelos climáticos até então superestimaram o risco de colapso total da floresta ao simplificar demais os ecossistemas tropicais. “A Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem.”

Ainda assim, a conclusão dos pesquisadores é clara: resiliência não dispensa proteção. “Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, afirma Maracahipes.

A pesquisa foi publicada sob o título “Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia” e contou com apoio da FAPESP.

*Com informações da Agência Fapesp.

LEIA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados