Dois estudos recém-publicados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que cenários climáticos antes projetados para as próximas décadas na Amazônia já estão se materializando na floresta, com estações secas mais prolongadas, alteração no padrão de chuvas e avanço da degradação causada pelo fogo.
O alerta se torna ainda mais urgente diante da possibilidade de um “super El Niño” nos próximos dois anos.
Uma das pesquisas, publicada no International Journal of Climatology, aponta que a estação seca na Amazônia pode se estender de quatro para até seis meses, com déficit hídrico superando -150 milímetros no período. O estudo foi conduzido no sudoeste da floresta, abrangendo o Acre e partes do Amazonas e de Rondônia, região com mais de 90% de cobertura florestal, mas sob forte pressão de desmatamento.
O outro trabalho, publicado na Perspectives in Ecology and Conservation, analisou a seca extrema de 2023 e 2024, quando o Brasil também foi fortemente atingido pelo El Niño. Os dados revelam crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e de 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados pelo fogo no auge da seca. Os resultados evidenciam que o ciclo seca-fogo-degradação está se intensificando, comprometendo a capacidade da floresta de se recuperar.
Futuro pessimista
A engenheira ambiental Débora Dutra, doutoranda no Inpe e primeira autora dos dois artigos, resume o cenário com clareza: o que antes era tratado como projeção distante nos modelos mais pessimistas está ocorrendo no presente. “Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação”, afirma.
Sua orientadora, a bióloga Liana Anderson, pesquisadora no Inpe e líder do laboratório TREES, reforça a urgência do momento. Com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030, ela defende que ainda há margem para ação, mas exige uma virada de chave na forma como se pensa a relação entre meio ambiente, desenvolvimento e economia. “A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, diz Anderson.
Modelos
Na pesquisa sobre projeções futuras, os cientistas utilizaram uma métrica desenvolvida pelo pesquisador Luiz Aragão desde 2007, o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD), combinada a modelos climáticos alinhados aos cenários do IPCC. Os resultados mostram que, em contextos de altas emissões de gases de efeito estufa, a porção sudoeste da Amazônia deve enfrentar secas progressivamente mais longas e intensas, com déficits que podem ultrapassar -21 mm por mês até o fim do século.
O impacto direto inclui maior mortalidade de árvores, perda de biodiversidade e redução da capacidade da floresta de absorver carbono, o que, por sua vez, acelera o próprio aquecimento global.
Na pesquisa sobre a seca de 2023-2024, os cientistas mapearam o estresse hídrico, a dinâmica do fogo e a degradação florestal. Um dado chama atenção: o fogo está cada vez mais associado ao enfraquecimento da floresta em pé, não apenas ao desmatamento convencional. Enquanto o desmate elimina totalmente a cobertura vegetal, a degradação corrói a floresta sem destruí-la por completo, tornando-a mais vulnerável a novos eventos climáticos extremos.
Ciência
Além da pesquisa acadêmica, Anderson e Dutra integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre instituições científicas e corpos de bombeiros de diferentes estados, voltada a unir conhecimento técnico e experiência de campo na prevenção e combate a incêndios. Em abril, foi autorizada a continuidade do programa para 2026.
Dutra vai além em sua tese de doutorado: pretende quantificar o impacto econômico do fogo no território brasileiro, incluindo consequências para a saúde pública e as comunidades afetadas. “Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda precisamos avançar na discussão sobre a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz Anderson.
Os dois artigos foram apoiados pela FAPESP e podem ser acessados nos periódicos International Journal of Climatology e Perspectives in Ecology and Conservation.
*Com informações da Agência Brasil.
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