Um estudo inédito mapeou todos os 5.569 municípios brasileiros para identificar onde o país pode produzir e consumir hidrogênio verde, e o resultado é promissor, mas traz um alerta. As regiões com maior capacidade de produção ficam longe das que mais precisam do combustível.
A pesquisa foi publicada no International Journal of Hydrogen Energy por Celso da Silveira Cachola e Drielli Peyerl, do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), da USP.
Alguns setores industriais são notoriamente difíceis de descarbonizar: siderurgia, refino de petróleo e parte da indústria química dependem de processos de altíssima temperatura ou de matérias-primas que ainda não têm substitutos viáveis. Para esses casos, o hidrogênio verde surge como uma das saídas mais concretas.
O nome “verde” vem do processo de produção: quando a eletrólise da água é alimentada por energia renovável — solar, eólica ou hidrelétrica —, o resultado é um combustível praticamente sem emissão de carbono. “A eletrólise já está em um nível alto de maturidade tecnológica, enquanto outras rotas ainda estão em estágios experimentais”, explica Peyerl, que também integra a Universidade de Amsterdã.
A pesquisadora, porém, faz uma ressalva importante: hidrogênio não é bala de prata. “Transição energética é diversificação. Em alguns setores, o hidrogênio cabe como uma luva. Em outros, a eletrificação direta pode ser mais eficiente e mais barata.”
Mapa
Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram seis variáveis: localização geográfica, proximidade de infraestrutura energética, emissões industriais de CO₂, segurança hídrica, irradiação solar e velocidade dos ventos. Para tanto, foram utilizados sistemas de informação geográfica (GIS) e algoritmos de aprendizado de máquina.
A metodologia funciona como uma sobreposição de camadas: mapas de recurso solar, potencial eólico, infraestrutura e emissões são empilhados para revelar onde vários fatores favoráveis se encontram ao mesmo tempo.
O diagnóstico identificou sete clusters de produção e dez clusters de consumo espalhados pelo território nacional. O Nordeste se destaca como a região de maior potencial produtivo, graças à combinação excepcional de sol e vento. Já os polos de consumo industrial concentram-se no Sul e Sudeste, onde está instalado o grosso do parque industrial brasileiro.
Problema
É exatamente essa distância geográfica entre produção e consumo que representa o maior obstáculo para a cadeia do hidrogênio no Brasil. “Hoje estamos muito focados na produção, mas precisamos olhar para toda a cadeia de valor. O grande desafio é garantir que o hidrogênio produzido realmente chegue aos setores que vão utilizá-lo”, afirma Peyerl.
Entre as soluções discutidas estão gasodutos adaptados para hidrogênio, transporte marítimo e a conversão em amônia verde, alternativa que aproveita a infraestrutura portuária já existente. “Para longas distâncias, muitas vezes é preferível converter o hidrogênio em amônia verde, porque já existe experiência e infraestrutura para transportá-la em navios”, pondera a pesquisadora.
Outra aposta são os chamados hubs de hidrogênio: polos industriais onde produção e consumo ficam próximos, reduzindo perdas e custos logísticos. O modelo vem sendo adotado em vários países como forma de acelerar a transição.
O Brasil parte de uma posição privilegiada. Cerca de 45% a 50% de sua matriz energética já é renovável, ante uma média mundial de aproximadamente 15%, e mais de 80% da eletricidade gerada no país vem de fontes limpas. O Plano Nacional de Energia 2050 aponta o hidrogênio como peça relevante na descarbonização do setor industrial.
Para Peyerl, a questão não é escolher uma única aposta, mas combinar recursos com inteligência. “O Brasil tem enorme potencial para hidrogênio, mas também para eletrificação, biometano, biomassa e outras rotas energéticas. O desafio é identificar, em cada região, qual solução faz mais sentido.”
*Com informações da Agência Fapesp.
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