A Exaustão
por Felipe Bueno
Enquanto não se descobre a fórmula mágica para recuperar o interesse da sociedade pela política e pelas eleições, o cenário está dado para quem ousar participar da disputa: tenha você ou não um programa ou uma causa, sua luta não é apenas contra outros candidatos. Para ser visto, lido, ouvido, curtido e compartilhado, é preciso encontrar uma forma de roubar por alguns minutos a atenção do seu potencial interlocutor.
Em Chieti, uma comuna italiana na região de Abruzzo, o vereador Paride Paci resolveu buscar a reeleição com uma estratégia integrada, nas palavras de Umberto Eco: ele anunciou que fará campanha em sites de conteúdo adulto. Um choque cultural e uma aposta na dinâmica dos nossos tempos.
Necessidade de votos? Provocação? Busca por cliques? Tudo isso deve ser considerado. Mas, deliberadamente ou não, Paci pode ser visto como um daqueles arautos que aparecem de tempos em tempos para trazer alertas e advertências: a política atual, de tão pornográfica que se tornou, só pode encontrar um espaço ideal num site adulto. A ágora morreu! Viva a nova ágora.
As pinceladas são grosseiras, mas o esboço do quadro já estava posto havia tempo: Paci expõe – mais uma vez reservamo-nos o direito de ponderar se foi ou não de propósito – a exaustão das formas tradicionais de comunicação política. O palanque físico perde relevância, e no digital todos gritam e ninguém é ouvido.
Santinhos de papel no chão, carros de som e debates em praça pública podem cada vez mais estar se encaminhando a um museu eleitoral. Enquanto isso, no Instagram ou no TikTok, a mensagem de um candidato compete diretamente com uma enxurrada incontrolável de entretenimento. O algoritmo, o censor moderno, pune o conteúdo caso não se curve à sua lógica.
Existe uma ditadura invisível, aquela que move sutilmente o seu dedo indicador. Eis o fundamento da economia da atenção: o design das redes sociais é projetado para o scroll infinito, um mecanismo de dopamina que mantém o usuário em um transe de consumo passivo. Nesse cenário, o eleitor corre o risco de não ler ou ouvir propostas, mas apenas escanear imagens. A atenção humana é cada vez mais descartável; ao mesmo tempo se torna o recurso mais escasso e caro do planeta.
Paci percebeu que, para ser notado, precisava ir para onde a atenção do público está genuinamente concentrada, longe da fadiga informativa dos grandes portais. Ao ocupar espaços em sites adultos, ele subverte a expectativa do eleitor e tenta criar uma pausa, pelo extravagante, no fluxo mecânico do consumo digital.
A escolha de Paride Paci nos avisa que já não é fácil diferenciar entre vida pública, privada e voyeurismo digital. O vereador italiano de Chieti não está apenas pedindo votos; está hackeando o sistema de entrega de conteúdo para furar a bolha da indiferença.
Sábio ou oportunista? Quem ousaria dizer se ele está certo ou errado?
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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