AGONIA DAS LISTAS III (ou: Melhor organizar do que opinar)
por Élder Ximenes Filho
Continuando, não por gosto, mas por necessidade.
Se você chegou até aqui na leitura de textos angustiosos e análises pessimistas (pois realistas), já sabe: o problema nunca foi falta de informação (sobra!); nunca ausência de diagnósticos (pululam vaidosamente); tampouco carecemos de indignação (transborda, raivosamente).
O que falta — e sempre faltou — é organização! Das pessoas – pois elas é que produzem e organizam os textos, as análises, a raiva… pela ação organizadora da vida prática.
Seja para longe ou para dentro do abismo, o mundo não se move por acúmulo de razões individuais, mas por ação coletiva minimamente coordenada. Se um gênio solitário criou o algoritmo (foram vários) seu uso como arma de dominação em massa foi decidido por um grupo coordenado de oligarcas modernos. Eram poucos, mas com plena consciência da classe a que pertencem – em termos marxianos mesmo.
Está agora em nossas mãos permitir ou não que o “doom scrolling” substitua a reunião… ou que a curtida substitua o manifesto, ou a indignação autoindulgente substitua a mobilização.
Agora continuamos, como nos dois artigos anteriores, citando tolas obviedades para expor a saturação do debate. Agora listamos o que já deveríamos estar fazendo — ou, no mínimo, lembrando — para sair da inércia confortável, do coma rizomático que mantém tudo como está. Lembrando: não por gosto, mas porque não há outro jeito nem dá mais tempo de inventar.
Sigamos.
104. Nenhuma transformação estrutural na história ocorreu sem organização coletiva — da primeira greve do mundo, dos operários egípcios no Vale dos Reis (1159 a.C), passando pela Revolução Francesa até a greve dos Roteiristas de Hollywood (2023 d.C) – estas foram vitoriosas!
105. Redes sociais são instrumentos tanto quanto o maquinário a vapor do séc. XVIII, que tantos desempregou e assombrou. Então perceberam que as ferramentas não eram demiurgos nem sujeitos políticos. São elementos a conquistar na luta política, tanto quanto território ou armas numa guerra. Não é novidade: se levou uma pedrada; pegue a pedra e jogue mais forte! Se a IA te enganou, fica esperto e aprende a duvidar (e a agir dentro e fora da internet).
106. Se a extrema-direita saiu na frente construindo redes, financiando estruturas e pagando por espaço na internet, estas máscaras já caíram e os procedimentos são conhecidos. Logo, podem ser enfrentados; se preciso, usando fogo contra fogo midiático.
107. Exposição de traumas pessoais e denúncias de agressões atraem likes masnão sustentam processo político. O Coletivo é que nos sustenta, como as “Avós da Praça de Maio” comprovaram (e olha que ainda eram as “Mães” quando nem havia e-mail).
108. A precarização do trabalho dificulta tudo, mas não impede a luta. Era pior quando nem CLT havia. Pior antes, quando não havia OIT. Bem pior antes da Rerum Novarum (1891) do Papa Leão XIII. Imagine nos 400 anos de escravidão legalizada? Vamos virar a chave: na verdade, hoje está mais fácil… e pau na máquina!
109. A taxa de sindicalização caiu desde a década de 1980 (e o associativismo em geral). Solapado o poder de barganha dos trabalhadores, reduzem-se as remuneração e os benefícios; aumentam os lucros e os dividendos. O mundo nunca foi tão desigual. O Capitalismo nunca deu tão certo (para os bilionários)! Se você não for um bilionário, acabará pisoteado por um (provavelmente aquele que mais admira). Puxe o fio e veja que tudo se encaixa direitinho – inclusive seu emprego e seu cansaço!
110. O “não gosto de política” é a posição política mais interessante ao status quo.
111. É claro que uma porcaria de trabalho deprime, adoece e violenta. A pessoa não vê saída e desconta em si mesma (vícios) ou em quem está próximo (violência doméstica). Terapia ajuda mas não ataca a causa. Religião, idem. A ação coletiva, sim, ataca a causa! O neoliberalismo e a indústria farmacêutica adoram zumbis, pois eles berram, mas não se comunicam…
112. Organizar dá trabalho, gera conflito, exige disciplina — tanto quanto formar família, cuidar dos filhos, cultivar amizades… os problemas coletivos ligam-se aos pessoais principalmente pelas condições materiais, mas também pelos afetos. Lembre dos afetos!
113. Combata as polêmicas superficiais, com a reflexão profunda: O que está por baixo? Quem lucra com isto? Serve para: o BBB desbocado; o noticiário ensanguentado; a novela reprisada e o culto teatralizado.
114. Sem direcionamento, a indignação diária vira esgotamento; o esgotamento vira apatia… volte para o item 110 ali em cima.
115. Se vai discutir com alguém radicalizado, comece ouvindo. É difícil, mas sem abertura para diálogo, ganha a extrema-direita que já acolheu estas pessoas em uma bolha de significado e apoio. Verdade que alguns sociopatas estão perdidos para a humanidade e precisam de contenção. Todavia, outras pessoas podem ser resgatadas. Só podemos diferenciar se nos abrirmos ao diálogo.
116. Desde as antigas comédias gregas sabemos: as Assembleias são chatas; o debate público pode enganar e as instituições corrompem-se. Todavia, nestes quase 3.000 anos isto também aprendemos: a democracia é lenta – como um remédio; o autoritarismo é rápido — como um veneno.
117. O “salvador da pátria” fora do processo coletivo organizado é uma farsa — e geralmente piora tudo. Lembram do Collor?
118. Um povo triste é fácil de ser dominado (frevo “Revólver” de Flaira Ferro). O Brasil faz festas porque a vida é difícil (carnaval-resistência de Luiz Antônio Simas).
119. Fake news não se combatem só com checagem. Começa por aí, mas continua com organização social que reconstrua a confiança coletiva na verdade objetiva, na realidade concreta – e assim embasada, cobre a punição dos criminosos manipuladores e legislação rigorosa contra os abusos.
120. A fragmentação dos oprimidos enfraquece todas as lutas. A transversalidade não é horizontal, mas torta. Nisto reside sua força, pois há urgências e dores diferentes – mas todas se encontram no mundo do trabalho, da reprodução material da vida. Quem não souber exatamente como ajudar, comece não atrapalhando!
121. Já notaram como as elites econômicas jamais se dividem? É que as classes dominantes têm o que falta às trabalhadoras: a tal consciência de classe! Repita isto todos os dias ao acordar, certo?
122. Identidades importam; acolher os sofrimentos importa — mas sem articulação política e visão do conjunto, tudo é cooptável e vira apenas outro tipo de mercadoria (e segue a exploração).
123. A Covid-19 demonstrou: onde a ciência prevaleceu, morreu menos gente e as soluções foram coletivas (vacinas, sistemas de saúde, políticas públicas, distanciamento). Onde dominou o negacionismo, morreu mais gente. Dá para relacionar as baixas até com as votações nas correntes políticas em cada país e até em cada cidade! Pesquise e mostre para quem duvidar – até a próxima pandemia poderá ser tarde…
124. Facadas e tiros continuam dando votos.
125. O capital se organiza globalmente, inclusive para garantir que a resistência seja apenas local.
126. Os conflitos armados seguem aumentando no mundo. Proporcionalmente, aumentam os gastos militares, inclusive na propaganda. Ganham as indústrias de armamentos e as Big Techs, cujos donos ou são os mesmos ou dançam nos mesmos salões, aplaudidos pelos políticos que financiaram.
127. Qualquer texto religioso presta-se para defender qualquer idéia, por mais bela, horrível ou estapafúrdia que seja… mas precisa estudar antes de reclamar!
128. O genocídio dos povos originários das américas (maior tragédia da humanidade) foi um projeto, não uma defesa dos europeus. O genocídio dos judeus foi um projeto, não uma defesa da Alemanha. O genocídio dos palestinos é um projeto, não uma defesa de Israel. O genocídio dos Uigures é um projeto, não uma defesa da China. O genocídio dos Rohingya foi um projeto, não uma defesa de Mianmar. O genocídio dos Masalites, Furis e Zagauas é um projeto, não uma defesa do Sudão.
129. A má-fé nas discussões da grande mídia é um projeto, não uma defesa do direito à livre manifestação. O desmantelamento da ONU é um projeto, não uma defesa da soberania dos EUA.
130. Governos quaisquer tendem a atuar internacionalmente mais por cálculo estratégico do que por compromisso com a paz ou com os direitos humanos… a menos que sejam obrigados a mudar.
131. Imperialismo não é teoria conspiratória — o velho Lênin mostrou como é uma categoria analítica, com base histórica e econômica. Leia para ver se discorda… mas leia!
132. Na crise, sacrificam-se os direitos sociais dos que precisam – para garantir o capital dos que não precisam.
133. Marx já identificou que o Capitalismo produz crises sucessivas. Não por maldade, mas porque é seu modo de existir: busca do acúmulo infinito; recursos finitos; mercados saturados; superexploração; resistência; conflitos; colonialismo e guerras para criar novos mercados; gira a roda; repete. A experiência comprovou, mas, ainda assim, a divulga-se que a solução para os problemas do mercado é…. adivinhe… mais mercado!
134. Em 1971, o advogado empresarial Lewis Powel, no estado da Virgínia, mandou um memorando para seus patrões da empresa de cigarros Philip Morris (a da Marlboro, que diziam não dar câncer). As oito páginas do “Powell Memo” circulou apenas entre os grandes capitalistas estadunidenses e só recentemente foi revelado. Nele há um projeto de quatro partes, visando à captura do poder político absoluto pelos grandes oligarcas, destruindo as conquistas populares, dentro de algumas décadas, sob a bandeira de defender o “sistema de livre mercado”. Tudo o que aconteceu nos EUA e que serviu de exemplo para as direitas e extremas-direitas do mundo está ali: financiamento maciço de campanhas; destruição dos sindicatos; domínio sobre as empresas de comunicação e de entretenimento; captura do financiamento das universidades; criação de grupos lobistas e “think tanks” corporativos; indicação de magistrados nas Supremas (o próprio Powel foi indicado por Nixon, meses depois da elaboração do memorando). Pesquise também o Projeto 2025, da Heritage Foundation, que Trump ainda tenta realizar como sonho pessoal… mas que, a rigor, é desnecessário para a oligarquia, pois já atingiram o previsto no Manifesto.
135. A política institucional importa — mas sem pressão social organizada, ela se acomoda. Partido que não vibra, vira repartição.
136. O mote “não olheis os vossos pecados, mas a fé que anima a vossa igreja” vale também para movimentos sociais, sindicatos e partidos – que continuam indispensáveis, apesar de todos os defeitos.
137. Quem não gosta desta filosofia pode bolar uma explicação diferente. O difícil é dizer que o mundo vai bem!
138. Para cristãos, o Manifesto da Palantir (a maior empresa de tecno-espionagem do mundo) eleva seu dono, Alex Karp à categoria de possível Besta do Apocalipse: controle total, adoração, regulação dos negócios, perseguição aos não-seguidores, uso da “marca”, domínio sobre todas as nações. Confira ambos os textos.
139. A preguiça intelectual também é um projeto. Talvez o principal.
140. Todos os itens listados (desde o primeiro, tantos anos atrás) são pesquisáveis. Por favor, duvide e veja por si.
141. Principalmente, saia desta lista de agonias e vá pra rua. Principalmente, leve mais um!
Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.
Élder Ximenes Filho, Mestre em Direito e Promotor de Justiça, integrante do TRANSFORMA MP
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