3 de junho de 2026

O editorialista do Estadão, entre Dr Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro)

Conservador, ainda se via consistência nos editoriais do Estadão. Daí veio 'O mundo não vai chorar pelo Irã', e, agora, surge o humanista.
Reprodução

Relatório israelense revela mudança na política da Cisjordânia, visando consolidar soberania e bloquear Estado palestino.
Estratégia inclui assentamentos, expansão administrativa e enfraquecimento da Autoridade Palestina, com impunidade a abusos de colonos.
Militarização e controle rígido aumentam tensões e ameaçam segurança israelense, além de prejudicar democracia e relações internacionais.

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De duas, uma: ou são dois personas totalmente distintos escrevendo os editoriais, ou o editorialista é a personificação do Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

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Comecei elogiando os editoriais, que mostravam uma bela consistência ainda que conservadora. Depois, tivemos que ler o abominável “O mundo não vai chorar pelo Irã”.

Agora, entra em cena o Dr. Jekyll com um notável editorial humanista, relevante ainda mais pelo fato do responsável pelos editoriais ser um judeu que preza sua história e reconhece os sinais terríveis emanados de Netanyahu.

Israel quer invizibilizar o estado palestino

Limpeza étnica na Cisjordânia é desumana e contraproducente: quanto mais Israel sabota as aspirações nacionais dos palestinos, mais prejudica sua própria democracia e sua segurança

Por Notas & Informações

03/05/2026 | 03h00

Um relatório do Instituto para Estudos de Segurança Nacional, um dos principais think tanks israelenses, descreve com linguagem técnica uma guinada que deveria alarmar qualquer aliado de Israel. O governo promove uma mudança estrutural e conceitual na política para a Cisjordânia, abandonando a lógica de gestão do conflito rumo à consolidação da soberania israelense e ao bloqueio da solução de dois Estados. A estratégia de controle permanente é ancorada em assentamentos, registros fundiários, expansão administrativa e enfraquecimento da Autoridade Palestina. A sobriedade do diagnóstico do instituto não diminui sua gravidade. Ao contrário: torna-a mais difícil de descartar como propaganda adversária, como costuma fazer o governo de Benjamin Netanyahu.

Sob a justificativa da “segurança absoluta”, está em curso uma engenharia de dominação absoluta. O projeto é mutilar a continuidade territorial palestina, operando como um veto geográfico à solução de dois Estados. A legalização de postos avançados e assentamentos informais consagra crimes em política pública. Estradas, zonas militares, registros de terra e decisões burocráticas redesenham a Cisjordânia. Sem que Israel precise declarar anexação formal, de jure, está cimentando-a de facto, através de escavadeiras, mapas e carimbos.

Mais grave é a chancela à truculência dos colonos. Há um padrão persistente de intimidação, ataques a civis, destruição de propriedades e expulsão indireta de comunidades rurais. A resposta estatal é sistematicamente complacente. Não se trata de mera falha administrativa ou prevaricação, mas de um sistema de impunidade deliberada que converte o abuso em método.

A militarização crescente da Cisjordânia aprofunda o processo. Recorre-se à estratégia do “dano máximo” aplicada em múltiplos teatros em Gaza, com operações prolongadas, destruição de infraestrutura e deslocamentos em massa. A vida civil é cada vez mais comprimida por postos de controle, medo, incerteza fundiária e colapso econômico. Um modelo de defesa que exige a humilhação permanente de uma população inteira não gera segurança, só ressentimento, desespero e reservas de recrutamento para extremistas.

A guerra em Gaza serviu de pretexto para substituir o paradigma precário, mas legítimo, da gestão do conflito, ambiguidade estratégica e possibilidade de uma solução de dois Estados, pelo paradigma implícito do sionismo maximalista de sufocar aspirações nacionais palestinas e consumar a anexação.

Nada disso absolve as lideranças palestinas. A Autoridade Palestina é esclerosada, corrupta e incapaz de oferecer um projeto político convincente. O Hamas infligiu aos palestinos uma catástrofe moral e estratégica. Mas nenhuma dessas verdades justifica a política israelense. Pelo contrário: tornam-na ainda mais irresponsável. Ao debilitar a Autoridade Palestina, Israel destrói um dos poucos mecanismos que ainda contêm o Hamas na Cisjordânia.

O paradoxo é brutal. Em nome da “segurança”, Israel amplia a área que precisa defender. Em nome da “ordem”, tolera forças que produzem anarquia. Em nome da “vitória sobre o extremismo”, desmoraliza os palestinos moderados que poderiam oferecer alternativa aos radicais. Em nome da “estabilização local”, ameaça a normalização das relações com os países árabes e o apoio de aliados ocidentais.

A Cisjordânia está se tornando o laboratório onde Israel testa uma escolha impossível: controlar indefinidamente milhões de palestinos sem lhes oferecer cidadania plena, horizonte político ou dignidade elementar. É um caminho estrategicamente estúpido: uma política que transforma cada vila em ponto de fricção e cada assentamento em um foco permanente de proteção militar não torna Israel mais seguro, apenas aprofunda e perpetua o conflito, e ameaça sua própria democracia.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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