São curiosos os movimentos da imprensa brasileira diante das duas Lava Jatos.
Na primeira, muitos jornalistas experientes mergulharam de cabeça — contaminados pelo moralismo da campanha, mas sobretudo pela visibilidade que o tema proporcionava. Afinal, “limpar o Brasil” era uma bandeira sedutora, mesmo para profissionais que, pela idade e pela experiência, deveriam conhecer de cor a saga dos inúmeros Catões que periodicamente invadem a política brasileira. A unanimidade construída em torno da Lava Jato sufocou todas as vozes dissonantes. Sei, por experiência própria, o preço que se pagou por defender a democracia e o devido processo legal naquele ambiente.
Para entender o que aconteceu, é preciso saber como funciona o modelo de negócios da mídia. A notícia é um produto estandardizado pela narrativa — pela capacidade do veículo de contar a sua versão dos fatos. Durante décadas, havia nos jornais dois grupos em tensão permanente: o comercial e a redação. Um dos orgulhos das grandes redações era exatamente a “muralha da China” que os separava. O jornal contratava jornalistas para construir um produto com audiência e credibilidade. E era a partir dessa credibilidade que se exercia o verdadeiro negócio da imprensa: a construção ou a destruição de reputações.
Nos veículos bem organizados, o poder dos donos se manifestava por indução, não por ordem direta. Os diretores de redação sinalizavam quais temas mereciam mais ou menos espaço, atendendo aos interesses comerciais da casa — sempre com sutileza suficiente para não comprometer a credibilidade do veículo. A própria Veja, durante certo período, obedecia a essas regras tácitas. O que não impediu a Editora Abril de receber da ditadura uma rede de hotéis Quatro Rodas e outras benesses.
A partir dos anos 2000, esse equilíbrio precário desmoronou. O fim da bonança do jornalismo impresso, a queda das barreiras contra grupos estrangeiros e o baque provocado pela desvalorização cambial — que apanhou os grandes conglomerados de mídia no contrapé, endividados em dólares — criaram uma crise sem precedentes. Diante da ameaça de invasão por grandes grupos internacionais, a fantasia foi rasgada. Roberto Civita importou o modelo Rupert Murdoch, cujos princípios eram brutais: aproximar-se da ultradireita para obter poder político; transformar o veículo na verdadeira oposição, capturando partidos; apelar ao discurso de ódio e às fake news de forma sistemática; e entrar em todo tipo de negócio, confiando no poder de fogo do grupo para resolver os problemas comerciais que surgissem.
Quando começou o jogo do impeachment — conduzido por um bando de alucinados, Serra e Aécio Neves à frente —, o único que enxergou os desdobramentos foi Fernando Henrique Cardoso, com sua frase premonitória: “A gente sabe como começa, não sabe como acaba”. Deu no que deu. A nova dinâmica contaminou irreversivelmente a opinião pública, abriu o campo para as redes sociais e seus algoritmos, colocou a democracia sob ameaça, varreu o PSDB do mapa político e pavimentou o caminho para o bolsonarismo.
Agora, um segundo ato.
A Lava Jato 2 confirma o mote de que a história, quando se repete, se repete como farsa. Desta vez, não há mais unanimidade. Na Globo, por exemplo, convivem os conservadores de sempre, os birutas de aeroporto que giram conforme o vento, os que sonham com a volta da influência que tinham na temporada anterior — e um núcleo duro de bons jornalistas que não embarcaram no jogo e fazem o contraponto. O controle da narrativa se dá agora pelos diretores de redação, responsáveis pelas primeiras páginas — especialmente O Globo — e pelos editoriais alucinados da Folha e do Estadão. A manipulação de títulos e intertítulos ainda causa impacto, sobretudo nas redes sociais. Mas o consenso fascista da primeira Lava Jato não se repetiu.
Ainda assim, a irracionalidade do antilulismo continua sendo a mola-mestra do apoio da grande mídia aos movimentos de ruptura democrática. Mudou o cenário, mudou o elenco, mudou a encenação — mas o roteiro, no essencial, é o mesmo.
LEIA TAMBÉM:
Silvio Torres
3 de maio de 2026 12:28 pmSó acho que o sinistro FHC merece ser bem colocado como uma das figuras de proa no desmoronamento do equilíbrio precário. Foi por causa do desastroso governo dele que o país e os veículos de mídia afundaram completamente. Eu costumo explicar para os mais jovens que aqueles oito anos foram uma sucessão de bancos Master, arrasando a economia e produzindo alguns bilionários/milionários que embarcaram na farra da corrupção oficial e legalizada. O que espanta é que até hoje, assim como acontece com a ditadura, há inúmeras viúvas daquela época tenebrosa. Pobre Brasil. Pobre povo brasileiro.
Naldo
3 de maio de 2026 12:55 pmSão antilula por que são sobretudo antipovo, antinacionalistas, são a favor da concentração de renda brutal através da miséria e sofrimento do cidadão brasileiro mais vulnerável, não são jornalistas, são corvos, são hienas, são urubus, são abutres….
Alexis
3 de maio de 2026 12:57 pmSim, Nassif, perfeitamente; é isso mesmo:
“A irracionalidade do antilulismo (ou antipetismo) continua sendo a mola-mestra do apoio da grande mídia aos movimentos de ruptura democrática.“
José de Almeida Bispo
3 de maio de 2026 1:08 pmEm tudo… o visceral ódio ao escravinho que fugiu do controle e humilhou a perversa elite, ganhando eleição após eleição, e ainda por cima com o tremendo sucesso econômico, preocupando o Império, gerando temor quando ao fluir dos “green-cards”.
Fazem qualquer coisa pra se livrar dele. Inclusive quebrar, se humilhar ao estrangeiro… empobrecer. Mostrarem-se os mais selvagens.
Qualquer coisa.
Estupidez total!
Mas…
jose machado
3 de maio de 2026 8:17 pmEstão desmoralizados.