5 de junho de 2026

Uma crônica para o Dia das Mães, por Urariano Mota

A gente só vive uma vida, né? Então, quem é feliz que cante a sua felicidade. Quem é menos feliz, que cante à sua maneira.
Pablo Picasso

Urariano Mota transmitiu pela Rádio Jornal do Recife uma crônica especial para o Dia das Mães.
O texto aborda memórias e sentimentos sobre Maria, figura materna presente no romance “O filho renegado de Deus”.
A crônica reflete sobre amor, perda e reencarnação, explorando a relação entre mãe e filho ao longo do tempo.

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Uma crônica para o Dia das Mães

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por Urariano Mota

Transmiti estas linhas pela Rádio Jornal do Recife na mais recente sexta-feira, no programa Movimento, de Marcelo Araújo:

MARIA

Desculpem, mas não consegui deixar sem registro o Dia das Mães. A gente só vive uma vida, né? Então, quem é feliz que cante a sua felicidade. Quem é menos feliz, que cante à sua maneira. Assim, recupero a seguir esta página do romance “O filho renegado de Deus”:

Ah, é da sua natureza a reencarnação, ah, é do seu gênero, gênese e ser de transmigração, como se o espírito quisesse um novo corpo para uma vida que não foi possível. Dói no adulto uma dorzinha doce e fina porque Lídia não é sua mãe, mas por ela será capaz de a ouvir e de lhe falar. Com a intensidade aguda de um violino em uma romanza, naquela, ele sabe, guardada em seu silêncio, naquela maldita e fina romanza número 2 em fá maior. Porque tudo então lhe recorda a senhora gorda, albacora, albacora brava e bonita como uma bonequinha índia. O adulto a veria reconstruída sempre como uma mulher toda e tão só ternura. Desde 1956, passando por 1957, 1958, os anos da sua terra de felicidade, ele a guardaria nos traços e feições. Uma guarda de modo inconsciente. Era um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço, o que era um modo geral dos porta-retratos, e ao mesmo tempo, em Maria, uma exclusão, pois lhe negavam a totalidade do corpo. Ele a veria, fortalecida na lembrança por aquele retrato, como o rosto da mulher brava que para ele era somente suavidade.

Depois da sua morte em 1958, ele menino a reencontraria como naquele retrato em sonhos, antes que realidades mais duras tomassem o lugar daquela vida que não aceitava o seu fim. Se fosse escrever sobre ela agora, a pena, a caneta, ficaria torta em estado de refração, porque seria vista entre a água dos olhos. Um arrepio irreprimível tomaria conta do seu braço. Como havia podido amar aquela mulher por tantos séculos num buraco de silêncio? Que covardia maldita era aquela de negar se negando? Acaso não era ele apenas um filho daquela gorda e vasta generosidade?

Então Maria, subida pelas crenças de conforto da Igreja Católica, alimentada pela piedade de pessoas que não queriam ver um menino órfão, então ela estava em sua camisola quando partira pela última vez para a maternidade, mas sem a agonia que a fazia gritar naquele quartinho do beco “eu quero morrer com meu filho, eu quero morrer na minha casa”, e naquele desespero, que ironia, ela chamava aquilo a minha casa. Então ela, com essa camisola purificada, como se fosse possível Maria sem sexo e sem dor, lhe aparecia no sonho erguida nas nuvens, bela, terna e calada, porque falava a sua imensa presença. e não era possível saber que com ela possuía uma relação de feto e de afeto. Seria duro para ele, na maturidade, escrever tal descoberta, porque mais que um pecado “não passarás!”, tal recordação o revolvia por dentro e lhe dava uma dor a ponto de deixá-lo paralisado. Pois como é difícil voltar à inocência de menino!

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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