20 de maio de 2026

O samba paulistano de Germano Mathias, por Daniel Costa

Sua contribuição para o samba de SP foi a de forjar uma espécie de malandragem própria, que diferia do arquétipo do seu congênere carioca.
Germano Mathias - Reprodução Youtube

Germano Mathias, nascido em São Paulo, foi cronista do samba paulistano e da malandragem da periferia desde os anos 1950.
Sua música refletiu a resistência cultural das comunidades marginalizadas, como os engraxates da Praça da Sé.
Mathias integrou escolas de samba, gravou discos desde 1956 e influenciou o samba com parcerias importantes no Rio e em São Paulo.

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Entre a malandragem e o progresso: o samba paulistano de Germano Mathias

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por Daniel Costa

Sou samba
Venho da periferia
Não alugo moradia
Vivo na voz do povão (…)
Em cores tudo é lindo, lindo, lindo
Pro turista sou bem vindo
Muito mais pra minha gente
Gente que num ônibus lotado
Vai batalhar um trocado
Pendurado igual pingente (…)
Sou fruto da cabeça da galera
Burilado e batucado na garrafa de caninha
E também na latinha…
Samba da Periferia (Elzo Augusto)

Os versos acima, compostos por Elzo Augusto, podem ser vistos pelo leitor como uma verdadeira carta de intenções ou de amor ao samba e à cidade de São Paulo, não a São Paulo dos cartões-postais, dos arranha-céus ou da “terra do trabalho”, imagem que alguns setores da sociedade ainda propagam, mas sim uma cidade feita de becos, gafieiras, botequins da Boca do Lixo e praças onde engraxates batucavam em suas latas de graxa. Uma São Paulo que o discurso oficial sempre tentou apagar, mas que sobreviveu justamente na voz de sambistas como Germano Mathias. Apesar de gravada apenas em 2002, a canção ecoa com precisão a trajetória que Germano começara a trilhar ainda nos anos 1950. Assim como quando recorda o samba “burilado e batucado na garrafa de caninha e também na latinha”, evocando a lata de graxa que transformou em seu instrumento de percussão símbolo, herança direta das rodas dos engraxates da Praça da Sé, onde ele aprendeu, como diria o dramaturgo Plínio Marcos, as “mumunhas”, isto é, as malandragens, os segredos e as artimanhas do verdadeiro samba. Germano não apenas cantou sobre essa cidade marginalizada; ele a encarnou, sendo ele próprio um cronista de uma cidade em transformação, mas transformada à revelia da maioria de sua população, daqueles que o “progresso” empurrou para as periferias enquanto limpava o centro de suas tradições e de sua gente. E foi exatamente dessa São Paulo, esquecida pelos monumentos e pelas placas de bronze, que Germano Mathias extraiu sua matéria-prima, fazendo de cada samba uma crônica que, como a lata de graxa, resistiu ao tempo e à tentativa de silenciamento.

O samba paulistano consolidou, ao longo do século XX, características próprias: um ritmo mais acelerado e sincopado, fortemente influenciado pelas batucadas rurais, pelas rodas de tiririca e pelo som dos cordões carnavalescos que uniam comunidades negras em bairros como a Barra Funda e o Bixiga. No entanto, a formação da metrópole cosmopolita também se deu pelo diálogo constante com populações vindas de outras partes do mundo, e mesmo com a então capital federal, cujo samba carioca se impunha como expressão nacional por meio do rádio e do disco. Foi em meio a essa variedade de sotaques e sonoridades que emergiu Germano Mathias, personagem que, afinado com o espírito da cidade que tudo absorvia, incorporou a malandragem e o humor de intérpretes e compositores cariocas, como Jorge Veiga, o “Caricaturista do Samba”, e Moreira da Silva, o “Kid-Morengueira”, mestre do samba de breque. Germano não apenas os ouvia, mas se deixava permear por aquele ritmo que vinha “de fora”, aclimatando-o às suas próprias experiências e ao seu sotaque paulistano, forjando assim o seu próprio modo de cantar.

Germano Mathias nasceu em 1934, no bairro do Pari, em São Paulo. De ascendência portuguesa, sua infância foi passada na zona leste paulistana, no Tatuapé, na Rua Santo Elias, onde foi criado pelos avós. Desde criança, demonstrou uma forte inclinação pela música, fascinando-se pelo samba que ouvia no rádio. Sobre seu talento, o próprio Germano afirmava: “Ninguém aprende a ser cantor, a pessoa nasce cantor, e isso é inato em mim… e desde criança eu tive essa predileção pela música brasileira, principalmente pelo samba raiz, o samba sincopado.”

Sua formação musical, no entanto, não se deu apenas por meio do rádio, mas de forma direta e visceral nas ruas do centro de São Paulo. Foi na Praça da Sé, na Praça João Mendes e na Clóvis Bevilacqua que ele encontrou seu verdadeiro “cenário”. Lá, frequentava as rodas de samba dos engraxates, que batucavam em suas caixas de madeira e latas de graxa, e também jogavam a tiririca, uma espécie de luta-dança de origem negra. Essas rodas eram um caldeirão cultural que fascinou o jovem Germano, que se identificou profundamente com aquele ambiente. Ele relembra: “Parecia que eu me identificava com aquele cenário.” Ali se iniciou na ginga, no canto e na percussão, tocando surdo, pandeiro, tamborim, agogô, reco-reco, “todos os instrumentos de percussão que se usam no samba”. Essa imersão no universo das rodas de samba e da malandragem o levaria a se definir como um “malandro por convivência”.

Antes mesmo de se profissionalizar no rádio e no disco, Germano já se integrara de forma concreta ao samba feito na capital. Foi ritmista da escola de samba Rosas Negras, onde tocava frigideira na bateria. Foi nesse ambiente que conheceu Firmo Jordão, o Doca, figura emblemática e um dos grandes compositores da Escola de Samba Lavapés. Firmada a amizade e parceria com Doca, em 1952 Germano passaria a integrar os quadros da escola localizada na região do Glicério. Dessa forma, a relação de Germano com a Lavapés representaria a fusão entre a malandragem boêmia do centro e o samba praticado nas periferias, visto que naquela época o seu Tatuapé se localizava para além do bairro operário do Brás. Doca foi um parceiro crucial em sua trajetória, coautor do primeiro grande sucesso de Germano, o samba de breque “Minha Nega na Janela”, gravado em 1957, cuja letra polêmica, décadas depois, Germano deixaria de cantar “para evitar confusão”. Outro personagem decisivo em sua trajetória foi o compositor e sambista Toniquinho Batuqueiro, ele próprio um engraxate e sambista da Praça da Sé. Foi Toniquinho um dos primeiros a incentivar o jovem a levar seu talento para o rádio, aconselhando-o a tentar a sorte como calouro, um passo que mudaria sua vida.

Como lembrado acima, a São Paulo da primeira metade do século XX, que se pretendia a “locomotiva do progresso” e a “terra do trabalho”, foi a antagonista perfeita para a persona que Germano Mathias viria a forjar. Ele se tornou o “cronista de uma cidade em transformação”, mas a partir da ótica dos que ficavam à margem, atropelados pelo processo de higienização social. A reforma da Praça da Sé para o IV Centenário de 1954, que expulsou os engraxates, seria um evento-símbolo dessa perda, imortalizado no samba “Lata de Graxa”, gravado em 1958, um verdadeiro manifesto contra o esquecimento e o apagamento de uma tradição que resistia na batucada das latas dos engraxates. No decorrer de sua trajetória, sua música se tornaria a “negação da visão do trabalho que projeta sobre o corpo social a condenação da ociosidade”, construindo um discurso que contrastava com a narrativa oficial, como no samba “Jerônimo”, gravado em 1986, que narra as aventuras e desventuras de um malandro que sobrevive na “Pauliceia” com “engenho e arte”.

Personagens como Toniquinho e Doca foram fundamentais na trajetória do jovem Germano, porém nenhuma referência seria mais importante para a formação do seu estilo e da sua divisão rítmica do que o hoje pouco lembrado Caco Velho. Matheus Nunes, nascido em Porto Alegre, foi um sambista negro que construiu sua carreira entre o Rio de Janeiro e São Paulo, com passagens pela Europa. Dono de uma performance tida por críticos da época como vulcânica e carismática, que lhe valeria o apelido de “O Sambista Infernal”, Caco Velho notabilizou-se pela técnica vocal, pelo domínio rítmico e pela capacidade de improviso. Em um período em que a bossa nova de João Gilberto ainda estava em gestação, Caco Velho surgia com uma voz suave, aos moldes do carioca Mário Reis. Germano o reconhecia abertamente como seu mestre: “Quem eu considerei o meu mestre foi o sambista Caco Velho… Eu entrei nas águas dele, eu entrei no gênero que ele cantava”. A admiração era tamanha que, no início, Germano foi apelidado de “Moleque Madureira” por cantar seus sucessos. A inspiração fora tamanha que, em 1955, ele venceu um concurso na Rádio Tupi para substituir Caco Velho, já que este se mudara para Paris. Quando o ídolo retornou para comandar o Brazilian’s Bar, Germano o substituía nas noites de folga. A parceria foi selada no samba “O Toró Já Chegou”, gravado em 1971, ano da morte de Caco, a quem Germano dedicaria o álbum “Tributo a Caco Velho”, lançado em 2005.

Já com o nome firmado entre os sambistas que batucavam nas ruas da Pauliceia e nos esfumaçados ambientes das casas noturnas, onde dava suas canjas ou substituía os intérpretes titulares, o passo seguinte seria adentrar o mundo do rádio. Não tardou para que Germano passasse a frequentar a Rua Sete de Abril, contratado como “cantor e executante de instrumentos exóticos” pelas Emissoras Associadas. A nascente carreira no rádio o colocou em contato com uma rede de músicos que incluiria outro batuqueiro forjado nas rodas de engraxates da Pauliceia, Osvaldinho da Cuíca. Nessa época, já importante ritmista da Zona Norte da cidade, Osvaldinho frequentava as mesmas rodas de tiririca que Germano e, antes de se profissionalizar, suas trajetórias se cruzariam nos estúdios de gravação. Nesse ambiente, Germano se consolidaria como intérprete.

Sua discografia é um dos mais importantes registros do samba paulistano, inaugurada em 1956 com o disco de 78 RPM que já trazia o sucesso “Minha Nega na Janela”, que vendeu 21 mil cópias. No ano seguinte, a reunião de seus primeiros compactos resultou no LP de estreia, que o consagrou com o slogan “O Sambista Diferente”, lançado pela gravadora Polydor. A partir daí, construiu uma carreira sólida, gravando diversos discos, compactos e LPs ao longo das décadas de 1960 e 1970. Nesse período, destacam-se entre seus principais álbuns “Em Continência ao Samba”, lançado em 1958, e “Hoje Tem Batucada”, de 1959, ambos produzidos pela RGE; o emblemático “Ginga no Asfalto”, gravado na Odeon em 1962, no qual foi responsável por levar ao disco, pela primeira vez, a obra de Geraldo Filme, com o samba “Baiano Capoeira” em parceria com Jorge Costa. Na discografia de Germano, destacam-se ainda os álbuns “Samba de Branco”, lançado pela Polydor em 1965; “O Catedrático do Samba”, levado às lojas em 1968 pelo selo Chantecler e que daria o título definitivo ao sambista nascido no Pari; “Samba É Comigo Mesmo”, gravado em 1971 nos estúdios da CBS; e o clássico “Antologia do Samba-Choro”, lançado pela gravadora Philips em 1978, no qual dividia faixas com Gilberto Gil. Após esse disco, Germano passaria por um hiato em sua carreira, permanecendo fazendo shows, mas afastado dos estúdios, situação revertida apenas no alvorecer do século XXI com o lançamento do CD “Talento de Bamba”, lançado em 2002 pela Atração Fonográfica, selo onde Germano lançaria seus últimos álbuns, incluindo o já citado tributo a Caco Velho e “Sambas de Morro”, de 2016.

Na vasta discografia de Germano podemos destacar ainda sambas como “Falso rebolado”, de Jorge Costa e Venâncio, e “Guarde a sandália dela”, composto em parceria com Sereno, que mais tarde receberia versão de Jair Rodrigues e Elis Regina. Em parceria com Jorge Costa faria ainda “Baile do risca-faca” e “Bonitona do primeiro andar”. Como na época a legislação autoral não admitia que dois autores de sociedades arrecadadoras diferentes assinassem juntos uma mesma composição, Germano Mathias registrou os sambas em nome de sua esposa, que usou o pseudônimo “Durum Dum Dum”. Pela gravadora Chantecler, lançou ainda um compacto simples com dois sambas de Martinho da Vila: “Lê Lê Lê”, em parceria com Meriti, e “Dinheiro de jogo”, com Cabana.

Em relação ao álbum “Samba É Comigo Mesmo”, além de várias composições próprias, destaca-se “O Toró Já Chegou”, em parceria com seu ídolo Caco Velho, e “O Terreiro Tá”, parceria de Carlão do Peruche e Toniquinho Batuqueiro. Em 1999, ao lado de Osvaldinho da Cuíca, Aldo Bueno e Thobias da Vai-Vai, Germano participou do CD “História do Samba Paulista”, lançado pelo selo CPC-Umes, reafirmando seu compromisso com a memória e a tradição do samba feito em São Paulo.

O prestígio conquistado no disco e no rádio transformaria Germano em um mediador fundamental entre o samba paulistano e o samba feito nos morros do Rio de Janeiro. Nessa época, Germano figurou em um seleto grupo formado por nomes como Vassourinha, Blecaute e o maestro Oswaldo Gogliano, o Vadico. Em um momento em que os artistas cariocas invadiam o rádio paulista, eles fizeram o caminho contrário, ganhando fama e prestígio na então capital federal. Foi durante uma de suas temporadas no Rio de Janeiro, ainda no final da década de 1950, que Germano estreitou os laços com dois compositores, verdadeiros pilares em sua discografia.

O primeiro foi Osvaldo Vitalino de Oliveira, o Padeirinho da Mangueira, cronista sagaz do morro de Cartola, Carlos Cachaça e tantos outros baluartes. A amizade entre ambos levou inclusive Germano a sair na bateria da Verde e Rosa como ritmista. Foi nesse convívio que Padeirinho lhe mostrou joias como “A Situação do Escurinho”, “Doutor no Samba” e “Terreiro em Itacuruçá”. Em depoimento prestado ao jornalista Sérgio Cabral, Padeirinho declarou que a voz e a ginga malandreada de Germano eram ideais para suas composições.

Igualmente frutífera foi a relação de Germano com o portelense Zé Keti. A parceria entre a dupla teria seu ápice no álbum “Samba de Branco”, no qual Germano gravou quatro de suas músicas: “Nega Dina”, em que o protagonista se define como um “marginal brasileiro” acuado pela pobreza e pela polícia; e o visionário “O Assalto”. Germano também gravou de Zé Keti “Malvadeza Durão”, que seria gravada adiante por Nara Leão, e o samba “Regenerado”, completando um quadro onde a figura do malandro se despede para enfrentar a nova violência urbana.

Dessa forma, o legado do “Catedrático do Samba” vai muito além de seus discos. Sua contribuição para o samba de São Paulo foi a de forjar uma espécie de malandragem própria, que diferia do arquétipo do seu congênere carioca. O malandro cantado por Germano apresentava-se desassombrado diante do estigma de “cidade do trabalho”, provando que a metrópole cinza também produzia uma cultura popular que ia além dos ecos modernistas e concretos. Germano foi o elo que uniu as rodas de engraxates, os cordões e escolas de samba paulistanas à moderna indústria do rádio e do disco. Ele se tornou a própria encarnação de uma São Paulo que as elites desejavam, e seguem buscando invisibilizar: malandra, boêmia e negra em sua essência. Sua obra e sua trajetória representam a prova definitiva de que, sob o cinza dos arranha-céus e do progresso, havia uma cidade que insistia em sambar, como eternizaram Mário Vieira e Geraldo Blota nos versos de “Lata de Graxa”:

No coração da cidade, hoje mora uma saudade
A velha Praça da Sé, nossa tradição
Da praça da batucada, agora remodelada
Só ficou recordação
Até o engraxate foi despejado
E teve que se mudar com sua caixa
Ai, que saudade da batucada feita na lata de graxa.

Daniel Costa é historiador, jornalista, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga.

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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