17 de junho de 2026

Bonsai econômico, por Henrique Morrone

Nada escapa. / Só a desigualdade, que escorre — feito churume — nutrindo galhos e exigindo mais poda.
Reprodução

O texto compara a economia do país a um bonsai, onde o crescimento é controlado e limitado.
A desigualdade persiste enquanto o crescimento econômico é contido dentro de limites rígidos.
O autor destaca que o problema não está no crescimento dos “galhos”, mas no tamanho restrito do “vaso”.

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Bonsai econômico

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por Henrique Morrone

Dizem que o país precisa crescer.
Desde que seja para um lado.

Para quê mexer na mesa inclinada, se ela já facilita o jogo?
Um conhece a declividade.
O outro acredita na neutralidade das regras.

Outros, mais zelosos, falam em crescer com responsabilidade.
Há ainda os que preferem algo mais modesto: crescer pouco, mas crescer agarrado nas bordas do passado.

Cultivando a economia como quem cuida de um bonsai.

Amputamos excessos. Refreamos impulsos. Disciplinamos os galhos que se rebelam.

Nada escapa.
Só a desigualdade, que escorre — feito churume — nutrindo galhos e exigindo mais poda.

Há quem veja nisso um ideal.
O sonho — bem passado, alinhado, bem contido.

O bonsai não é pequeno por natureza.
Ele foi sistematicamente reprimido.

Suas raízes, dilaceradas.
Seu horizonte, encarcerado no vaso.

E ainda assim, admiramos.
Como se fosse natural.

Chamamos de estabilidade o que é privação.

No bonsai econômico, nada cresce o suficiente para romper o vaso.
Não faltam sementes.
Falta espaço.

Discutimos os galhos, evitamos o vaso.
E o vaso permanece intocado — foi embutido.

E, como todo embuste, poderia ser diferente.

No país do bonsai, misturamos limite com paisagem.
Expansão passa por excesso.
E a poda, inevitável.

Porque o problema nunca foi o excesso dos galhos.
Foi o tamanho do recipiente.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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