Da bomba do Riocentro de 1981 ao 8 de janeiro de 2023
Moraes Moreira, a Festa no interior, a democracia brasileira e a ironia da história
por Gustavo Tapioca
Às vezes, a história rima. Não da forma exata como gostariam os poetas. Nem com a precisão dos livros didáticos. Mas rima. Foi ouvindo um relato do escritor Raul Ruffo sobre a origem de uma das mais belas canções da música popular brasileira que essa ideia voltou à memória.
Ruffo recorda o atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. Milhares de pessoas participavam de um grande show em comemoração ao Dia do Trabalhador quando uma bomba destinada a provocar uma tragédia explodiu antes da hora. E explodiu justamente dentro do carro onde estavam os próprios agentes envolvidos na operação.
Entre os artistas presentes, que poderiam figurar como vítimas fatais de uma tragédia premeditada pelos porões da ditadura, estavam nomes fundamentais da nossa música, como Gal Costa, Gonzaguinha, Elba Ramalho e Moraes Moreira. A presença desses ícones não era casual: eles eram os porta-vozes de uma geração que, através de suas composições, desafiava sistematicamente a censura e o silêncio imposto pelo regime militar.
O atentado fracassou
A bomba não atingiu a multidão. Voltou-se contra quem a carregava. Segundo o relato de Ruffo em Como as músicas foram feitas, o episódio impressionou profundamente o letrista Abel Silva. Ele teria começado a construir mentalmente uma letra que falava de bombas e explosões, mas invertendo completamente seu significado.
Contra a bomba da morte, a bomba da alegria. Contra a destruição, a celebração da vida. Contra o medo, a festa.
Ligou para Moraes Moreira e leu o esboço do que estava pensando. Pouco depois, Moraes retornou com letra e melodia prontas. Nascia ali Festa no Interior.
Gravada por Gal Costa, a canção se transformaria num fenômeno internacional, atravessando fronteiras e idiomas. O que nasceu sob o impacto de um dos episódios mais sombrios da ditadura transformou-se num hino de alegria popular. A arte havia feito aquilo que a política não conseguira fazer. Transformara a tragédia em esperança.
A bomba que voltou
Mais de quatro décadas depois, a história parece oferecer uma nova ironia.
No dia 8 de janeiro de 2023, milhares de brasileiros assistiram perplexos à invasão e à depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília.
O objetivo daqueles grupos era evidente: criar as condições para uma ruptura institucional que impedisse a consolidação do resultado das eleições presidenciais de 2022 que elegeu Lula.
O golpe fracassou. E é justamente aí que surge o paralelo histórico. A pergunta mais importante talvez não seja o que aconteceu naquele domingo de janeiro. A pergunta é outra:
O que teria acontecido se tivesse dado certo? Quantos anos de instabilidade política teriam sido produzidos? Quantas liberdades teriam sido sacrificadas? Quantos conflitos poderiam ter sido desencadeados? Quantas pessoas seriam sequestradas, torturadas e mortas, como aconteceu durante a ditadura militar que durou 21 anos?
Nunca saberemos.
Porque a tentativa fracassou. E, ao fracassar, produziu um efeito inesperado para seus idealizadores.
As investigações avançaram. As provas se acumularam. Os processos caminharam. E os responsáveis passaram a responder perante a Justiça.
A bomba política que deveria explodir sobre a democracia acabou produzindo consequências para aqueles que apostaram na ruptura institucional. Como no Riocentro, o artefato não atingiu o alvo pretendido. Voltou para o colo de quem o carregava.
Quando a ruptura ultrapassa a política
As investigações revelaram que a ameaça à democracia brasileira era ainda mais grave do que parecia nos primeiros dias após o 8 de janeiro. Não se tratava apenas da ocupação dos prédios públicos ou da tentativa de criar um ambiente de caos institucional.
As apurações da Polícia Federal revelaram a existência do chamado plano Punhal Verde e Amarelo, que previa ações contra autoridades da República já empossadas e em pleno exercício de suas funções.
Entre os principais alvos e primeiros da lista estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
A revelação desses planos mudou a dimensão histórica dos acontecimentos. O debate deixou de ser apenas sobre vandalismo ou radicalização política.
O que apareceu diante do país foi a possibilidade concreta de uma ruptura institucional acompanhada da eliminação física de autoridades que simbolizavam a continuidade da ordem constitucional.
É impossível saber quais teriam sido as consequências caso esses planos tivessem prosperado. Mas é possível afirmar que o Brasil teria mergulhado numa das mais graves crises de sua história republicana.
As instituições resistiram. Os planos fracassaram. E os fatos vieram à luz. Mais uma vez, a conspiração não produziu o resultado imaginado por seus autores.
A história devolve
Naturalmente, as diferenças entre Riocentro e o 8 de janeiro são enormes. Um episódio envolveu explosivos reais. O outro, uma tentativa de ruptura política. Mas ambos compartilham um elemento simbólico poderoso: a incapacidade de controlar as consequências dos próprios atos.
A história brasileira está cheia desses momentos. Tentativas de golpes que fortalecem a democracia. Perseguições que transformam adversários em símbolos. Manobras que acabam produzindo exatamente o resultado oposto ao desejado.
Talvez seja por isso que a lembrança de Moraes Moreira volte agora com tanta força. Não porque tenha vivido para testemunhar os acontecimentos de 2023. Não porque possamos saber o que pensaria do Brasil de 2026.
Mas porque sua obra continua dialogando com um país que ainda trava batalhas em defesa da democracia. Em 1981, o Brasil ainda vivia sob a sombra da ditadura militar. A censura vigiava jornais, livros, peças de teatro, filmes e canções. Os artistas aprendiam a falar por metáforas. Aprendiam a esconder denúncias dentro da poesia. Aprendiam a transformar resistência em arte.
Foi naquele ambiente que nasceu uma das mais belas canções da música popular brasileira.
Ouvir Moraes Moreira novamente
Mais de quatro décadas depois, o Brasil já não vive sob censura oficial. Mas continua enfrentando ameaças contra suas instituições democráticas.
O país assistiu a uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. Assistiu à mobilização de setores que sonhavam interromper a ordem constitucional. Assistiu também à articulação internacional de movimentos da extrema direita que encontraram em Donald Trump sua principal referência política global.
O golpe fracassou. E talvez seja justamente por isso que a história do Riocentro volte a ecoar na memória nacional. A bomba de 1981 não atingiu a multidão que pretendia atingir. A tentativa de ruptura de 2023 não alcançou o poder que pretendia tomar. A história seguiu outro caminho.
Bolsonaro continua
Hoje, Jair Bolsonaro está condenado a 27 anos, preso e fora da disputa eleitoral. Mas o sobrenome Bolsonaro continua presente no cenário político brasileiro. Mudou o personagem. Mudou a candidatura. Mas o sobrenome permanece. Sai Jair. Entra Flávio.
Bolsonaro, com o nome de Flávio, e Luiz Inácio Lula da Silva se encontram outra vez em 2026, como se encontraram na eleição de 2022. Lula ganhou, subiu a rampa do Planalto, e escapou oito dias depois de ser assassinado se o golpe do Punhal verde amarelo, liderado pelo Bolsonaro pai de Flávio, desse certo.
E a democracia brasileira volta a ser chamada a decidir seu próprio destino nas urnas. Talvez seja essa a verdadeira ponte entre 1981 e 2023. No Riocentro, uma bomba destinada a espalhar terror explodiu antes de alcançar seu alvo. No 8 de janeiro, uma tentativa de golpe destinada a interromper a democracia fracassou antes de alcançar o poder.
No Punhal Verde e Amarelo, a violência imaginada contra as principais autoridades da República não alcançou seus objetivos. Em todos esses momentos, a história seguiu um caminho diferente daquele sonhado pelos que apostavam na força.
Ouça novamente Festa no Interior
Agora, em 2026, o Brasil volta às urnas. A democracia, mais uma vez, será chamada a decidir seu próprio destino. Por isso, ao final desta reflexão, vale um convite. Ouça novamente Festa no Interior.
Não para procurar nela mensagens que Moraes Moreira jamais escreveu. Nem para transformá-la em panfleto político. Mas para recordar a extraordinária capacidade dos grandes artistas brasileiros de encontrar esperança nos momentos mais difíceis. Ouça novamente a canção.
Lembre-se do Brasil que saía lentamente da noite da ditadura. Lembre-se do Riocentro. Lembre-se do 8 de janeiro. Lembre-se do Punhal Verde e Amarelo. Lembre-se de que a democracia brasileira sobreviveu a tudo isso. E lembre-se, sobretudo, de que a história nem sempre favorece aqueles que acreditam poder governar pela força.
Às vezes, como ensinou o próprio percurso da democracia brasileira, a história devolve aos autores de uma conspiração o peso de seus próprios atos.
A bomba do ódio passa. A festa da democracia permanece.
Em outubro, o Brasil voltará às urnas. De um lado, Lula e seu projeto democrático. Do outro, um Bolsonaro. Mais uma vez, a história perguntará ao país qual futuro deseja escolher.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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