4 de junho de 2026

Dark Horse, o filme e o crime. Um coice na elite decadente, por Armando Coelho Neto

A onda de mistérios sobre Flávio Bolsonaro vem sendo divulgada pela imprensa, que não debate o caráter criminoso do qual se reveste.
Divulgação - Dark Horse

Em 2002, Roseana Sarney liderava pesquisas no Maranhão, mas desistiu após R$ 1,34 milhão ser encontrado na empresa do marido.
Flávio Bolsonaro é investigado por corrupção passiva e desvio de recursos milionários ligados a Daniel Vorcaro e movimentações internacionais.
Produtora do filme Dark Horse está sob investigação por irregularidades financeiras e uso de verbas públicas em São Paulo.

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Dark Horse, o filme e o crime. Um coice na elite decadente

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por Armando Coelho Neto

Em abril de 2002, Roseana Sarney liderava as pesquisas de intenção de voto pelo PFL, atual União Brasil (atual albergue de Ronaldo Caiado, que para muitos é o Ciro Gomes da vez). Roseana galopava no jóquei eleitoral até ser atropelada por um cavalo, digo, uma mala de dinheiro com R$ 1,34 milhão, em pacotes de notas de R$ 50, encontrada no cofre da empresa Lunus, pertencente ao marido dela.

Antes, porém, rolou um filme. Não um Dark Horse da vida, mas uma peça publicitária na qual ela, de avião, aparecia sobrevoando cidades maranhenses sob o slogan “Eu sou a mulher”. Com 25% de intenções de voto, estava tecnicamente empatada com Lula (26%). Já o candidato das “elites”, dos mercados e da Globo, José Serra, amargava tímidos 7%. Entretanto, projeções indicavam que ela ganharia de Lula no 2º turno.

O valor apreendido representava menos de 3% do valor de uma campanha presidencial, mas o peso da imagem do dinheiro, aos olhos de quem ganhava míseros R$ 200, foi avassalador. Com a dinheirama exibida no Jornal Nacional da Globo, Roseana caiu para 18% e desistiu. Ao final, Lula bateu Serra com 61% contra 38%. A desistência deixou um sopro de país com um pouco mais de vergonha.

Roseana Sarney renunciou à candidatura por conta de R$ 1,34 milhão, enquanto o candidato “Flávio Zero Um” tripudia do brasileiro, flanando sobre R$ 143 milhões, dos quais R$ 61 milhões evaporaram. Trata-se de parte do dinheiro roubado de aposentados por Daniel Vorcaro. Pairam no ar, ainda, valores espúrios associados a uma empresa cuja responsável tem raízes num bairro humilde de São Paulo.

Esse corolário de suspeição em torno da produção Dark Horse é ampliado por outras atividades da produtora, que já caíram na mira da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo. Há que se contemplar emendas parlamentares com aparente desvio de finalidade, confusão patrimonial, transações financeiras internacionais sem controle, além de financiamento cruzado com verba da Prefeitura de São Paulo.

A onda de mistérios sobre o senador Flávio Bolsonaro vem sendo fartamente divulgada pela imprensa, que não debate o caráter criminoso do qual se reveste. Com leniência, abre mão da palavra corrupção para designar as ações encetadas em sua história política. As vantagens obtidas, aparentemente, deram-se em razão do cargo. Fosse ele um “Zé Ninguém”, não venderia uma rifa junina na “Quermesse do Vorcaro”.

O crime de corrupção passiva se configura com o ato de “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida…” (art. 317 do Código Penal). O próprio Flávio, após negar qualquer proximidade com Vorcaro, admitiu ter solicitado dinheiro e, na sequência, quando este já estava preso, esteve na casa dele para… larari, larará.

O conjunto da obra representa, a rigor, prova circunstancial tratada na lei como indícios veementes, ou seja, “circunstâncias conhecidas e provadas que permitem deduzir a existência de outra” (art. 239 do Código de Processo Penal). Além da obtenção da vantagem em razão do cargo, há uma sequência de ações nebulosas que dizem respeito ao caminho percorrido pelo dinheiro e às suas outras finalidades.

A aura de suspeitas é ampliada por mensagens interceptadas, nas quais o traidor foragido, Dudu Bananinha, orienta envolvidos a manter e movimentar os recursos nos Estados Unidos. A Polícia Federal investiga o envio de 2 milhões de dólares para o fundo Ravengate (Texas), administrado por seu advogado. Verbas do filme teriam custeado despesas pessoais do parlamentar homiziado no exterior.

Dark Horse, o filme e o crime descansam no estábulo da “elite” decadente. O cavalo azarão de Flávio Master faz parte da mesma estribaria e haras onde potros e éguas de suposto puro-sangue respondem pelos nomes de Americanas, Coroa-Brastel, Zelotes, Gerdau, Tim, SwissLeaks, HSBC, Castelo de Areia, Boi Gordo e Fazendas Reunidas, bancos Banestado, Santos e Marka, todos assinados pelas “elites”.

O humorista Millôr Fernandes costumava recorrer a Proudhon para explicar o perfil da “elite” brasileira. Se, para o filósofo, “toda propriedade é um roubo”, a elite brasileira acha que todo roubo é sua propriedade. Talvez por isso essa mesma elite se espelhe no que finge condenar e não dê às suas condutas e preferências os nomes mais adequados. Nesse sentido, o coice do Dark Horse no Flávio atingiu a mesma elite decadente.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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3 Comentários
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  1. Tadeu Silva

    3 de junho de 2026 11:55 am

    Coice de mula é uma IST.

  2. PAULO MAURICIO GONCALVES

    3 de junho de 2026 5:56 pm

    Será que ainda temos dúvidas sobre o Flávio Bolsonaro? Parece que sim. As pesquisas eleitorais estão aí para provar. Claro! Pós Copa do mundo a campanha eleitoral vai ser medonha. Cabe às forças democráticas denunciar diuturnamente os mau feitos perpretados pela extrema-direita do Brasil.

  3. AMBAR

    4 de junho de 2026 12:03 am

    A elite decadente nunca se dá por vencida, toma o coice, levanta e monta o pangaré de novo. Faz parte da jornada.
    O que surpreende é o desenrolar dos acontecimentos e a surpreendente inversão de narrativas.
    Enquanto se embrulhava a Deolane em rosados celofanes para uma exposição triunfal ao lado de Lula, toldando assim a espetaculosa promoção de Flávio, alguém achou a doninha cítrica, a laranja que triangulava dinheiros da prefeitura, do estado e do Vorcaro para financiar o pangaré e outros muares. Desandou todo o esquema. Ninguém nem se lembra da Deolane, o Nunes não para de torcer as mãos tentando explicar o inexplicável, e o Flávio cada vez mais evidente. O que aconteceu com a polícia do Tarcísio e o amarradíssimo Ministério Público paulista? Acordaram do transe?

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