4 de junho de 2026

Sem soberania dos dados não há projeto nacional, por Marcio Pochmann

O país produz volumes gigantescos de dados, mas parcela crescente deles é armazenada, processada e analisada fora do controle público direto.
Freepik

IBGE completa 90 anos enfrentando desafio de integrar dados para governar o Brasil na era digital hiperconectada.
Criação do IBGE em 1936 centralizou dados dispersos dos estados, formando sistema nacional para planejamento do país.
Hoje, IBGE busca soberania dos dados diante da fragmentação e controle privado sobre informações públicas digitais.

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Sem soberania dos dados não há projeto nacional

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por Marcio Pochmann

Ao completar 90 anos, o IBGE encontra-se diante de um desafio histórico comparável àquele que motivou a sua criação na década de 1930, quando o Brasil se preparava para transitar do longevo e primitivo agrarismo para a moderna sociedade urbana e industrial. Nos dias de hoje, a emergência da nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital recoloca o impasse da reorganização e integração das informações necessárias para compreender e governar o futuro do Brasil.

Entre 1871 e 1930, por exemplo, a produção estatística nacional esteve sob responsabilidade da Diretoria-Geral de Estatística, vinculada ao Ministério da Agricultura. As informações eram geradas de forma descentralizada e dependiam amplamente dos governos estaduais, que controlavam os dados e utilizavam metodologias frequentemente distintas. O resultado era a geração de um retrato fragmentado do país, incompatível com as necessidades da nação que iniciava seu processo de industrialização e integração econômica.

Em 1936, a criação do IBGE, subordinado diretamente à Presidência da República, representou uma ruptura histórica, pois superou os entraves que a antiga Diretoria-Geral de Estatística (DGE, 1871-1930), como a ausência da centralização dos dados e de uma rede de coleta nacional. Até então, os estados eram os silos dos dados, com a coleta censitária realizada por padres, delegados de polícia, juízes de paz, entre outros.

A implantação pelo IBGE das delegacias estaduais e agências municipais permitiu construir um sistema nacional de coleta de informações, transformando dados dispersos em conhecimento estratégico para o planejamento do desenvolvimento do país. O Brasil passou a enxergar-se como uma unidade territorial, econômica e social.

Décadas depois, entre os anos de 1960 e 1980, o deslocamento da presidência da República para o ministério do Planejamento, em linha com outros ministérios, recolocou o problema idêntico ao observado por Teixeira de Freitas a respeito da antiga DGE. Ao estar vinculada ao Ministério da Agricultura, a DGE detinha dificuldade de centralizar e unificar as informações no mesmo nível do governo federal.

Se, de um lado, o IBGE a partir da ditadura civil-militar, progrediu para além de censos, com a introdução das pesquisas amostrais em diferentes dimensões temáticas, bem como diversas informações econômicas estratégicas (índices de preços e estimativas das contas nacionais) que ainda eram produzidas fora do Estado. Com isso, o fortalecimento do IBGE permitiu consolidar um processo de estatização da produção estatística, ampliando a capacidade pública de produzir indicadores essenciais ao planejamento nacional.

De outro, o sentido autoritário da modernização administrativa foi perseguida pela geração de uma nova fragmentação. Órgãos como Serpro, Dataprev, sistemas de saúde, mercado de trabalho e diversos ministérios passaram a construir as suas próprias bases de dados, muitas vezes sem integração entre si.

Hoje, com a transição para a era digital, o desafio assume uma dimensão ainda maior. O problema não é a falta de informações, mas sua dispersão e a crescente no interior do Estados, além de sua dependência em infraestruturas digitais controladas por grandes corporações privadas globais. O país produz volumes gigantescos de dados, mas parcela crescente deles é armazenada, processada e analisada fora do controle público direto.

Emerge, assim, a questão estratégica da soberania dos dados. Da mesma forma que o Brasil precisou nacionalizar e estatizar a produção estatística no passado, o século XXI exige uma nova etapa de modernização institucional.
Torna-se fundamental a integração dos registros administrativos com o desenvolvimento da infraestrutura tecnológica pública, incorporando inteligência artificial e assegurando que os dados produzidos pela sociedade brasileira permaneçam sob governança nacional.

O desafio contemporâneo do IBGE não é apenas medir o Brasil. É contribuir para que o país mantenha capacidade soberana de conhecer a si mesmo na era pela qual a informação, dados e inteligência tornam-se recursos estratégicos para as políticas públicas reativas e preditivas do desenvolvimento nacional.

Se a criação do IBGE foi decisiva para a construção do Estado nacional no século XX, acsua renovação atual assume centralidade na construção da soberania digital brasileira no século XXI.

Há quase um século, o desafio foi a superação da dependência em relação aos governos estaduais, enquanto não atualidade se encontra duplamente tanto na centralização de múltiplos-dados fragmentados em silos nos ministérios e instituições públicas quanto na nacionalização e controle das informações entregues ao quase monopólio de empresas estrangeiras de tecnológica.

Nesse contexto, o IBGE pode desempenhar o papel histórico como aquele que marcou a sua origem. Ser a instituição capaz de transformar informações dispersas em conhecimento nacional, conhecimento em planejamento e planejamento em projeto nacional de futuro para o Brasil.

Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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