4 de junho de 2026

A sombra de Washington sobre a eleição brasileira, por Gustavo Tapioca

A pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta é outra. O que fará Trump se Lula continuar crescendo?
Getty Images

Em 2022, Biden rejeitou o golpismo no Brasil; em 2026, Trump e bolsonarismo reaproximam-se em Washington.
Brasil é tratado como tema estratégico por Trump, com pressões via narcoterrorismo, tarifas e ataques ao Pix.
Eduardo Bolsonaro articula bolsonarismo nos EUA; eleição de 2026 pode sofrer maior pressão internacional.

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A sombra de Washington sobre a eleição brasileira

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Narcoterrorismo, tarifas, Pix, BRICS e a aproximação entre Trump e o bolsonarismo alimentam uma pergunta que a campanha ainda evita discutir.  

por Gustavo Tapioca

Em 2022, Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo no Brasil. Em 2026, com Trump de volta à Casa Branca, a aproximação entre Washington e o bolsonarismo levanta uma pergunta inquietante: o que acontece se Lula continuar crescendo nas pesquisas? 

Uma das razões pelas quais o golpe de 8 de janeiro fracassou raramente aparece com a força que merece nas análises sobre a crise brasileira. Naquele momento decisivo, os Estados Unidos eram governados por Joe Biden. 

Enquanto Jair Bolsonaro colocava em dúvida o sistema eleitoral, alimentava a suspeição contra as urnas e seus aliados conspiravam contra a democracia, Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula. Diplomatas, emissários e militares americanos enviaram sinais claros de que os Estados Unidos não apoiariam qualquer aventura golpista no Brasil. 

Esse fator internacional ajudou a isolar a extrema direita brasileira. Não foi o único. Mas foi importante. A mensagem era inequívoca: a maior potência militar do planeta reconhecia o resultado das urnas brasileiras. 

Em 2026, o cenário é outro. Donald Trump voltou à Casa Branca. E o bolsonarismo voltou a Washington. 

O mundo mudou desde 2022 

A eleição presidencial brasileira de 2026 ocorrerá em condições internacionais muito diferentes das que marcaram a vitória de Lula quatro anos antes. Naquele momento, o governo Biden tinha interesse explícito em conter a onda autoritária estimulada por Trump, Bolsonaro e outras lideranças da extrema direita internacional. 

Hoje, a Casa Branca é comandada pelo próprio Trump. E Trump não observa o Brasil como um país qualquer. O Brasil é a maior economia da América Latina. É membro dos BRICS. Ampliou sua aproximação com a China. 

Tem peso estratégico em energia, alimentos, minerais, meio ambiente, tecnologia financeira e diplomacia global. 

É também governado por Lula, um presidente que defende uma ordem internacional multipolar e resiste à submissão automática aos interesses de Washington. Nada disso é irrelevante. 

Punhal Verde e Amarelo  

Há um ponto que não pode ser apagado da memória recente. O golpe de 8 de janeiro fracassou também porque, em 2022, a extrema direita brasileira não encontrou em Washington o respaldo que talvez esperasse. 

O governo Biden reconheceu a vitória de Lula e enviou sinais claros aos militares brasileiros: os Estados Unidos não apoiariam ruptura institucional. Esse fator ajudou a conter a aventura golpista. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de palácio. 

A Polícia Federal revelou depois o plano Punhal Verde e Amarelo, que incluía Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes como alvos centrais. O Brasil esteve muito mais perto do abismo do que muitos ainda admitem. 

Se o golpe tivesse avançado, o país poderia ter mergulhado numa tragédia institucional comparável, ou pior, aos anos que se seguiram a 1964, quando a ditadura brasileira contou com apoio decisivo dos Estados Unidos. 

É por isso que a pergunta de 2026 é tão inquietante. 

Se em 2022 Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo, o que acontece agora, com Trump na Casa Branca e o bolsonarismo novamente buscando apoio em Washington? E Lula novamente candidato? 

O elo permanente com Washington 

Existe um personagem que conecta praticamente todos os capítulos dessa história. Eduardo Bolsonaro, o filho 03 de Jair, um deputado que perdeu o mandato por “excesso de faltas”. Estava – e continua nos Estados Unidos – como embaixador “ad hoc” para lutar contra a soberania do Brasil. 

Desde 2025, o deputado passou a atuar politicamente a partir dos Estados Unidos, aprofundando relações construídas ao longo dos anos com o universo político do trumpismo. Sua proximidade com Steve Bannon, assessores de Donald Trump e figuras influentes da direita americana nunca foi segredo. 

Enquanto Flávio Bolsonaro se apresenta como candidato presidencial, Eduardo desempenha outro papel: o de principal articulador internacional do bolsonarismo. 

Essa divisão de tarefas ajuda a explicar por que os acontecimentos recentes não podem ser analisados isoladamente. De um lado, Flávio tenta consolidar uma candidatura presidencial. De outro, Eduardo mantém canais permanentes com setores influentes da nova administração americana. 

Nenhum desses fatos, isoladamente, prova a existência de um plano de interferência eleitoral. Mas todos ajudam a formular a pergunta que realmente importa. 

Se em 2022 os Estados Unidos atuaram para reforçar o respeito ao resultado das urnas, qual será a postura de uma Casa Branca comandada por Donald Trump diante de uma eventual reeleição de Lula? 

A nova Doutrina Trump 

Nos últimos meses, uma sequência de movimentos começou a redesenhar o ambiente político em torno do Brasil. 

Primeiro, a aproximação explícita entre Flávio Bolsonaro e a Casa Branca. Depois, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Em seguida, as pressões comerciais, os questionamentos ao Pix e a proposta de tarifas de 25% contra produtos brasileiros. 

Separadamente, cada medida possui sua justificativa. Juntas, formam um padrão. 

O Brasil passou a ser tratado por Washington não apenas como parceiro comercial ou aliado regional. Passou a ser tratado como tema estratégico. 

E essa talvez seja a principal diferença entre 2022 e 2026. 

Narcoterrorismo: o novo nome da velha pressão 

A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas foi celebrada por setores da extrema direita brasileira como uma vitória de Flávio Bolsonaro. Mas seu significado jurídico e político é muito mais amplo. 

Quando um grupo deixa de ser tratado apenas como organização criminosa e passa a ser enquadrado como organização terrorista, entram em cena instrumentos extraordinários de pressão diplomática, financeira, policial e de inteligência. 

Isso não significa intervenção automática. Mas significa a criação de um ambiente político e jurídico que amplia o alcance da legislação americana para além de suas fronteiras. 

Foi esse mecanismo que, ao longo das últimas décadas, permitiu aos Estados Unidos justificar sanções, bloqueios, operações clandestinas, ações militares e pressões sobre governos considerados hostis. 

A questão, portanto, não é defender facções criminosas. A questão é compreender o que se autoriza quando Washington decide enquadrar problemas brasileiros dentro de sua própria doutrina de segurança nacional. 

A América Latina conhece esse roteiro 

A preocupação não nasce de teorias conspiratórias. Nasce da História. Os Estados Unidos nunca foram observadores neutros dos processos políticos latino-americanos. 

Durante a Guerra Fria, Washington apoiou ou participou diretamente de operações que influenciaram governos, eleições e golpes no continente.  

Foi assim na Guatemala, em 1954, quando a CIA apoiou a derrubada de Jacobo Árbenz. Foi assim em Cuba, com a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Foi assim no Brasil, em 1964, quando Washington apoiou o golpe contra João Goulart e preparou a Operação Brother Sam. Foi assim na República Dominicana, em 1965. Foi assim no Chile, em 1973, no processo de desestabilização que antecedeu a derrubada de Salvador Allende. 

Depois vieram a guerra às drogas, o Panamá, a guerra ao terror, o Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iêmen, a Somália e o Paquistão. 

Os nomes mudam. As justificativas mudam. Mas a lógica permanece. 

Uma ameaça é identificada. Uma estrutura jurídica é criada. Os instrumentos de pressão se ampliam. E a margem de atuação de Washington cresce. 

A região sob nova ofensiva 

A América Latina voltou a ser tratada como terreno prioritário da disputa internacional. 

A ascensão de Javier Milei na Argentina foi celebrada por Trump, por Steve Bannon e pela extrema direita global como um modelo de vitória política no continente. 

Em outros países, a disputa entre projetos soberanos e projetos alinhados à nova direita americana tornou-se cada vez mais explícita. O método não precisa ser o mesmo da Guerra Fria. 

A pressão pode vir por tarifas. Por sanções. Por plataformas digitais. Por campanhas de desinformação. Por questionamentos eleitorais. Por cooperação seletiva em segurança. Por apoio político a aliados internos. 

E é exatamente por isso que o caso brasileiro merece atenção. Nenhum outro país da América Latina reúne simultaneamente o peso econômico, territorial, energético, agrícola, ambiental, tecnológico e diplomático do Brasil. 

Se Trump atua para influenciar o rumo político de países menores da região, o que poderá fazer diante do maior país latino-americano, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China e governado por Lula? 

Lula cresce. E agora? 

A pergunta já não é apenas o que acontece se Lula vencer. A pergunta talvez seja anterior. O que acontece se Lula continuar crescendo? O que acontece se as pesquisas passarem a apontar uma vitória cada vez mais provável do atual presidente? É nesse ponto que os episódios recentes deixam de parecer isolados. 

O narcoterrorismo. O tarifaço. Os ataques ao Pix. A investigação comercial contra o Brasil. A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A pressão sobre temas estratégicos da economia brasileira. 

Tudo isso pode ser interpretado como fatos separados. Mas também pode ser lido como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o Brasil antes mesmo da eleição. Não é preciso afirmar que existe uma intervenção em curso para reconhecer que há sinais de alerta. Basta observar os acontecimentos. 

E se Flávio perder? 

A pergunta mais incômoda talvez seja esta. Se Flávio Bolsonaro for derrotado por Lula nas urnas, a Casa Branca aceitará o resultado sem contestação? Talvez sim. Talvez Trump reconheça imediatamente a vitória brasileira, como Biden fez em 2022. Talvez as tensões atuais se dissipem. Talvez o comércio volte ao centro da relação bilateral. 

Mas também é possível que a eleição brasileira de 2026 ocorra sob uma pressão internacional muito mais pesada do que a de 2022. A diferença é brutal. Em 2022, Washington ajudou a fechar a porta ao golpismo. Em 2026, Washington é governada por Trump. 

E Trump tem ao seu comando um bolsonarismo que nunca aceitou plenamente a derrota de 2022, que viu seu líder condenado por tentativa de golpe e que agora tenta voltar ao poder por meio de Flávio Bolsonaro. 

O Brasil precisa olhar para o perigo 

Não se trata de alarmismo. Trata-se de memória histórica. O Brasil sabe o que acontece quando elites internas buscam apoio externo para derrotar projetos populares e soberanos. Sabe porque viveu 1964. Sabe porque enfrentou 21 anos de ditadura. Sabe porque viu perseguições, prisões, cassações, torturas, assassinatos e exílios serem justificados em nome da ordem, da segurança nacional e do combate ao comunismo. 

Agora, o vocabulário mudou. Não é mais o comunismo. É o narcoterrorismo. Não são mais os tanques nas ruas como primeira cena. São tarifas, sanções, investigações comerciais, bloqueios, pressões diplomáticas, espionagem, guerra digital e articulações políticas internacionais.  

Mas o risco de fundo permanece o mesmo: a tentativa de submeter a soberania brasileira a interesses definidos fora do país. 

A eleição que já começou fora das urnas 

A eleição presidencial de outubro ainda não começou oficialmente em sua fase decisiva. Mas a pressão sobre o Brasil já começou.  

Começou quando o bolsonarismo levou sua agenda para Washington.  

Começou quando Eduardo Bolsonaro transformou os Estados Unidos em base permanente de articulação política.  

Começou quando Flávio Bolsonaro tentou apresentar Trump como fiador de sua candidatura.  

Começou quando PCC e Comando Vermelho foram enquadrados na doutrina americana do narcoterrorismo.  

Começou quando o Pix entrou na mira. Começou quando tarifas de 25% passaram a ser usadas como instrumento de pressão. 

Começou quando o Brasil, por sua relação com os BRICS, com a China e com uma ordem internacional multipolar, passou a ser tratado como problema estratégico. 

A pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta é outra. 

O que fará Trump se Lula continuar crescendo? 

E o que fará o Brasil para impedir que sua soberania volte a ser negociada nos corredores do poder em Washington?

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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  1. Antonio Cardoso Neto

    4 de junho de 2026 2:11 am

    Exatamente! Não se trata de alarmismo. É somente cautela. Um dos obstáculos é convencer algumas seitas fundamentalistas que cautela não é heresia, não é mai agouro, não é torcer-contra. É o velho provérbio mineiro: ” Cautela e canja de galunha não fazem mal a ninguém.

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