Diversifica Brasil: o tarifaço não é o problema, é o desafio. É um grito de alerta.
por Vanessa Africani e Ronaldo Lima Vieira
Por muito tempo, no Brasil acostumou-se a discutir comércio exterior apenas em momentos de crise. Foi assim em diferentes momentos da história. É assim novamente.
A nova tarifa sobre produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos não representa apenas mais um episódio de terrorismo comercial. Ela é um lembrete contundente de uma verdade que há décadas especialistas, diplomatas e entidades ligadas ao comércio exterior repetem: nenhum país pode construir sua prosperidade dependendo de poucos mercados. Recentemente, Washington confirmou tarifas de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros, atingindo setores industriais relevantes, lançando novamente maior incerteza comercial no mercado global. (Reuters)
O problema nunca foi apenas a tarifa. O problema sempre foi a dependência. Porque para sobreviver a empresa precisa sempre de um plano alternativo. Quando um único movimento político em Washington, Pequim ou Bruxelas é capaz de alterar investimentos, contratos, empregos e expectativas de milhares de empresas brasileiras, fica evidente que o desafio não está apenas no jogo político das economias hegemônicas. Está na necessidade de ampliar nossa própria estratégia de inserção internacional.
O Brasil exporta para mais de duzentos mercados, mas, na prática, continua concentrando grande parte de seu comércio em poucos parceiros. Essa concentração reduz nossa margem de resiliência, aumenta riscos e limita o potencial competitivo que o país possui. É justamente por isso que talvez este seja o momento histórico para lançar um grande movimento nacional.
Um movimento que poderíamos chamar de Diversifica Brasil. Não como slogan mas como uma política de mobilização.
Uma agenda capaz de unir governo, setor produtivo, academia, agências de promoção comercial, bancos de desenvolvimento, federações industriais, cooperativas e empresas em torno de um único objetivo: ampliar a presença brasileira nos mercados que definirão o crescimento econômico das próximas décadas. Porque eles existem. E muitos continuam praticamente invisíveis para grande parte do empresariado brasileiro.
Enquanto o debate do setor privado permanece concentrado em Estados Unidos, China e Europa Ocidental, o mundo cresce em outras direções: a ASEAN reúne mais de 680 milhões de habitantes e já figura entre os maiores blocos econômicos do planeta. Países como Vietnã, Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia apresentam crescimento consistente, expansão da classe média e crescente demanda por alimentos, tecnologia, infraestrutura, saúde, energia e serviços.
A Indonésia caminha para se tornar uma das maiores economias do mundo nas próximas décadas. O Vietnã consolidou-se como um dos principais polos industriais globais. A Romênia tornou-se uma importante porta de entrada para o Leste Europeu, do Mar Negro e aos Bálcãs.
A Nigéria, por sua vez, reúne a população mais jovem do planeta e deverá concentrar uma parcela significativa do crescimento demográfico mundial até 2050. Com a implementação gradual da Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), o continente avança na integração de um mercado potencial superior a 1,4 bilhão de pessoas, criando novas oportunidades para comércio, investimentos e cooperação produtiva. (FMI)
Nenhum desses mercados substituirá sozinho Estados Unidos ou China. Esse nunca deveria ser o objetivo. Diversificar não significa abandonar parceiros estratégicos. Significa reduzir vulnerabilidades. Significa criar alternativas. Significa ampliar opções. Mais importante ainda: significa aumentar a capacidade de reação do Brasil diante de um mundo cada vez mais fragmentado. Significa ser economicamente pragmático!
Essa visão não nasce hoje. Ela vem sendo construída silenciosamente há décadas por diplomatas brasileiros, pelo Itamaraty, pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), pela ApexBrasil e por inúmeras instituições que trabalham diariamente para abrir mercados, negociar acordos, eliminar barreiras e aproximar empresas brasileiras de novos destinos. Também passa pelo trabalho da CNI, da CNA, do Sistema S, das federações estaduais, das associações setoriais, das universidades e de centenas de entidades que acumulam conhecimento técnico, inteligência comercial e relacionamento internacional. Mas falta uma coisa…
Talvez nunca tenha existido um momento em que todas essas capacidades precisassem atuar de forma tão coordenada e sinérgica, porque a diversificação não depende apenas de abrir mercados. Depende de preparar empresas. Exige inteligência de mercado. Adequação regulatória. Certificações. Financiamento. Logística. Presença local. Construção de marca. Diplomacia econômica. Capacitação empresarial. Capacitação intercultural. Persistência.
Sobretudo, exige uma mudança de mentalidade. Durante muitos anos, parte do empresariado brasileiro acostumou-se a enxergar determinados mercados como “naturais”, enquanto outros eram considerados distantes, complexos, custosos, desagradáveis ou improváveis.
O século XXI demonstra exatamente o contrário. As cadeias globais estão sendo reorganizadas. A geopolítica voltou a influenciar decisões empresariais. Novos corredores logísticos estão sendo criados, enquanto outros estão entrando em falência. Economias emergentes ganham protagonismo e quem chegar primeiro construirá relações que dificilmente poderão ser reproduzidas depois.
O Brasil possui atributos. É potência agroalimentar. Possui uma matriz energética limpa. É líder em biocombustíveis. Tem uma indústria sofisticada em diversos segmentos. Detém biodiversidade incomparável. É referência em inovação tropical, mineração, saúde, tecnologia agrícola, economia digital, economia criativa e serviços especializados.
Poucos países reúnem tantas vantagens competitivas simultaneamente. O desafio nunca foi falta de produto. Nunca foi falta de qualidade. Muito menos falta de reputação. O desafio continua sendo presença. E para isso é preciso de geopolítica. Chegar, permanecer, construir confiança, criar relações de longo prazo.
Talvez o tarifaço venha a produzir impactos econômicos relevantes, mas seu maior legado poderá ser ironicamente positivo: o de finalmente convencer o Brasil de que diversificar deixou de ser uma opção estratégica. Passou a ser uma necessidade para o desenvolvimento.
Os países que irão liderar as próximas décadas não serão aqueles que dependem de um único mercado. Serão aqueles capazes de construir pontes em todas as direções.
Falta ao Brasil transformar essa convicção em um movimento coletivo. Diante das incertezas do comércio internacional, talvez exista apenas uma resposta verdadeiramente duradoura: diversificar.
Mais do que reagir ao mundo. É escolher ser proativo.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing, com experiência na promoção de negócios, relações institucionais e articulação empresarial internacional. Estudante de Relações Internacionais, atua na promoção de relações bilaterais e comerciais entre o Brasil e mercados estratégicos, com ênfase na África, nas Américas, no Mercosul e, mais recentemente, na Ásia, tendo participado da organização do Networking Empresarial Brasil–Indonésia e mais recentemente Brasil–Vietnã.
Ronaldo Vieira, diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais, Cônsul do Brasil em Lagos, Nigéria.
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