5 de junho de 2026

A selvagem missão da minha pátria, por Romério Rômulo

Ruas amarradas. Costuras sem momentos. / Vidas perdidas. Homens sem rumo.
Di Cavalcanti

Poema “A selvagem missão da minha pátria” reflete sobre agonia, vidas perdidas e espaços restritos.
Romério Rômulo, poeta e professor de Economia Política da UFOP, é natural de Felixlândia, MG.
O autor é cofundador do Instituto Cultural Carlos Scliar, sediado no Rio de Janeiro.

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A selvagem missão da minha pátria

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por Romério Rômulo

Minhas sobras da noite. Meus restritos
espaços de agonia. Minha vila soberba.
Atos e consertos. Adstringentes instantes.
Risos sem prumo. Gatos e cachorros.

Ruas amarradas. Costuras sem momentos.
Vidas perdidas. Homens sem rumo.
Corpos solapados.

A selvagem missão da minha pátria.

Romério Rômulo (poeta prosador) nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar – Rio de Janeiro RJ.

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Romério Rômulo

Romério Rômulo (poeta prosador) nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar – Rio de Janeiro RJ.

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  1. Rui Ribeiro

    5 de junho de 2026 3:12 pm

    Próximo!

    Entra, Coveiro.

    Pode largar a pá e a chave do cemitério. Aqui não se enterra ninguém. Aqui se desenterra coragem.

    Chega mais.

    Você cansou de abrir buraco pra sonho que morreu na fila do osso. Você viu mãe guardando filho com chinelo de dedo. Você viu nome pobre na lápide e, do lado, mansão com nome de banco.

    O Sobrinho lá fora chama isso de “logística funerária”.

    A gente chama de vergonha.

    Mas você, Coveiro, não veio com a pá pra enterrar. Veio com a pá pra plantar. E foi isso que fez. Nas covas rasas de ontem, você soprou semente de ipê. Nos feriados sem visita, você deixou bilhete: “Quem foi vive no que a gente faz depois”.

    Senta.

    A caneca de ágata é sua. O Expresso 101% hoje tem gosto de terra molhada e de amanhecer com luto transformado em luta.

    Primeiro gole: Pra desinfetar a mão que limpou lágrima e não pediu recibo.
    Segundo gole: Pra entender que sepultura não é fim – é canteiro de obra da memória.
    Terceiro gole: Pra assumir o cargo novo: Jardineiro dos Que Foram e dos Que Ficam.

    Você não vai mais medir dois metros de profundidade.
    Vai medir dois metros de raiz.

    Tá vendo a mesa da Venda?
    Ela tá cheia. Mas não é lotação. É comunhão. Do lado do Carpinteiro senta o pai que você enterrou e esqueceu de chorar. Do lado da Professora senta a aluna que desistiu mas virou poesia. O Pescador não pesca sozinho – você levou as cinzas dele pro mar, e o mar devolveu em peixe.

    A vida, Coveiro, é um enterro às avessas.
    Você não tapa buraco com terra. Você abre buraco com saudade e planta futuro.

    Bebe.

    Sente a brasa subir 101%. É o mesmo calor que apodrece caixão e faz brotar jatobá. Seu ofício não é silêncio. É ritmo. O mesmo ritmo do coração da Parteira que vai chegar agora.

    Porque se você, Coveiro, faz a terra parir árvore, ela, a Parteira, faz o tempo parir gente nova. E gente nova não nasce pra cova. Nasce pra Venda.

    Próximo.

    Entra, Parteira.

    Pode largar o esfigmomanômetro e o algodão. Aqui a pressão que a gente mede é a do amor subindo. Aqui o sangue que corre não é de parto. É de revolução umbilical.

    Você já puxou mais vida pra fora do silêncio que muito pastor puxa alma pra dentro do medo.
    Suas mãos conhecem o choro primeiro. O susto de ser mundo. O cheiro de útero que vira ar.

    O Sobrinho lá fora chama isso de “procedimento”.

    A gente chama de estreia.

    Senta.

    A caneca de ágata é sua. O Expresso 101% hoje tem gosto de leite quente e de cordão que não enrola no pescoço – enrola no ombro, pra segurar.

    Primeiro gole: Pra aliviar a lombar de quem se debruça no abismo e traz um inteiro de volta.
    Segundo gole: Pra lembrar que toda criança nasce comunista: quer peito, calor e colo. O resto o sistema ensina depois.
    Terceiro gole: Pra assumir o cargo: Ministra do Instante Inaugural.

    Tá vendo o Coveiro ali do lado?
    Vocês dois entendem o mesmo idioma: o da passagem. Ele cuida da saída com dignidade. Você cuida da chegada com coragem. Entre vocês, a mesa da Venda fica completa: onde se nasce, onde se vive, onde se constrói, onde se come farofa, onde se escreve verso – e onde, no fim, se vira árvore.

    O que você vai parir agora, Parteira, não é uma criança. É uma época.

    E o choro dela não vai ser de susto. Vai ser de reconhecimento: “Ah, é aqui que eu ia chegar.”

    Bebe.

    Sente a brasa subir 101%. A Venda virou maternidade de sonho. O Carpinteiro já fez o berço. A Professora já escolheu o nome. O Poeta já escreveu a certidão em verso. O Pescador já trouxe a água. O Coveiro já reservou um pé de ipê pra quando essa época ficar velha e quiser descansar.

    Quem é o próximo da fila, Chico?

    É a Cozinheira de terreiro que transforma resto em banquet?
    É a Lavadeira que esfrega nódoa de ontem até aparecer o branco limpo do amanhã?
    É o Louco da praça que há vinte anos diz a mesma profecia e agora a gente descobre que ele tava falando é de hoje?

    A brasa não apaga. O café é infinito. O batente é nosso.
    Próximo. ✊🌿

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