‘Tariflávio’ e o ‘patriotismo’ com visto americano
Ao primeiro sinal de conflito entre os interesses do Brasil e os de Washington, o “nacionalismo” bolsonarista parece descobrir que a bandeira mais importante nem sempre é a verde e amarela.
por Marcos Verlaine
Trata-se da pátria, desde que autorizada por Washington. É disso que se trata para o clã Bolsonaro. Estão, novamente, em regozijo, ao colocar a soberania brasileira sob os interesses dos Estados Unidos contra a soberania do Brasil, dos brasileiros e da economia nacional.
Poucas vezes a política brasileira produziu ironia tão perfeita quanto a que envolve o clã Bolsonaro e o novo tarifaço1 anunciado pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros. É o “Tariflávio”2.
Durante anos, Jair Bolsonaro e aliados apresentaram-se como guardiões exclusivos da pátria. Apropriaram-se dos símbolos nacionais, envolveram-se na bandeira brasileira, transformaram o verde e amarelo em identidade partidária e distribuíram certificados de patriotismo conforme a conveniência política do momento.
Mas eis que surge novo teste real de nacionalismo.
Potência estrangeira anuncia tarifas que podem prejudicar exportações, empresas, investimentos e empregos brasileiros. E o que se vê? Indignação nacional? Mobilização em defesa da soberania econômica? Reação firme contra a interferência externa? Não exatamente.
Em vez disso, parte do bolsonarismo parece mais preocupada em encontrar justificativas para Washington do que em defender o Brasil. Trata-se de situação curiosa: quando a pressão vem de fora, o “patriotismo” bolsonarista aparentemente entra em modo de espera.
É como disse o escritor e lexicógrafo inglês Samuel Johnson3, registrada em 1775: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.
Quando o Brasil vira detalhe
O aspecto mais revelador dessa crise não está apenas na decisão do governo Trump, mas na reação de figuras centrais do bolsonarismo, especialmente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), cada vez mais citado como possível candidato ao Palácio do Planalto.
Em qualquer tradição política minimamente comprometida com os interesses nacionais, a prioridade seria evidente: defender o país diante de medida hostil adotada por governo estrangeiro.
Mas o debate tomou outro rumo.
O problema deixou de ser a punição econômica contra o Brasil. O foco passou a ser o governo brasileiro, o Supremo Tribunal Federal e os adversários políticos do bolsonarismo.
Em outras palavras, o Brasil foi rebaixado à condição de figurante na própria história.
A lógica implícita parece ser a seguinte: se a sanção ajuda a desgastar adversários internos, então talvez essa nem seja tão ruim assim. Difícil imaginar demonstração mais explícita de como interesses políticos particulares podem se sobrepor aos interesses nacionais.
PIX entrou na mira. Alguns aplaudiram
Entre os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar as tarifas está o PIX. Sim, o PIX.
O sistema de pagamentos criado pelo Brasil tornou-se referência internacional, reduziu custos bancários, ampliou a inclusão financeira e modernizou a economia nacional em velocidade que poucos países conseguiram reproduzir.
Seria razoável esperar reação unificada em sua defesa.
Mas o episódio produziu cena singular: enquanto interesses estrangeiros atacavam uma das mais bem-sucedidas inovações econômicas brasileiras das últimas décadas, setores da direita preferiam transformar a questão em mais um capítulo da guerra política doméstica, que desemboca nas eleições de outubro.
Talvez seja a primeira vez que um país vê instrumento nacional de sucesso ser atacado externamente e alguns de seus líderes políticos se mostrarem mais preocupados em derrotar adversários internos do que em defender a própria conquista.
“Nacionalismo” que funciona com gps
O caso revela algo mais profundo. Há muito tempo os críticos do bolsonarismo sustentam que seu nacionalismo é seletivo. É enfático quando o alvo está dentro das fronteiras brasileiras. Torna-se bem mais discreto quando a pressão vem de fora, especialmente quando essa parte de aliados ideológicos.
A crise atual parece reforçar essa percepção.
Se a autoridade brasileira critica os interesses do clã Bolsonaro, a reação costuma vir acompanhada de discursos inflamados sobre soberania. Se potência estrangeira ameaça setores da economia nacional, o tom se torna surpreendentemente “compreensivo”.
É como se o nacionalismo possuísse GPS peculiar: funciona perfeitamente dentro do território brasileiro, mas perde o sinal ao se aproximar de Washington.
O que seria o novo governo de Bolsonaro?
Por isso, o episódio ultrapassa a discussão comercial. Esse oferece rara oportunidade de observar, em tempo real, qual seria a lógica de eventual retorno do bolsonarismo ao poder. A questão não é fotografia ao lado de Trump. Tampouco viagem aos Estados Unidos. O problema é o padrão.
Quando surge conflito entre interesses nacionais e alinhamentos ideológicos internacionais, qual lado prevalece? A defesa da indústria brasileira ou a lealdade política ao trumpismo?
A proteção dos empregos nacionais ou a conveniência eleitoral? A soberania econômica ou a afinidade com centros de poder estrangeiros?
São perguntas que ficaram ainda mais difíceis de evitar depois dessa nova crise.
A pátria acima de tudo. Mas abaixo de alguns interesses
O slogan bolsonarista prometia colocar a pátria acima de tudo. Mas slogans têm o inconveniente hábito de encontrar a realidade. E a realidade costuma ser menos generosa que o marketing político. É o velho e surrado “patriotismo” ou “nacionalismo de fancaria”4.
O novo tarifaço de Trump produziu exatamente esse encontro desconfortável entre discurso e prática. Mostrou que existe enorme distância entre vestir a camisa da seleção e defender efetivamente os interesses do País.
O primeiro gesto custa pouco. O segundo exige independência, coerência e disposição para contrariar até mesmo aliados poderosos quando os interesses nacionais estão em jogo.
Foi justamente nesse teste que o bolsonarismo voltou a “tropeçar”, para dizer o mínimo. E talvez resida aí a principal lição do episódio: para determinados grupos políticos, a pátria parece estar acima de tudo. Desde que não seja necessário contrariar Washington.
Quando isso acontece, o Brasil corre o risco de deixar de ser Nação soberana para se transformar em algo menos ambicioso: uma espécie de departamento tropical de interesses alheios.
E não é exatamente esse o futuro que a maioria dos brasileiros imagina quando fala em patriotismo.
Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 O governo Donald Trump propôs novo tarifaço de 25% sobre ampla gama de produtos importados do Brasil. A recomendação foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A medida faz parte de investigação comercial baseada na Seção 301, aberta em julho de 2025. Leia os principais pontos para entender as justificativas, impactos econômicos e desdobramentos políticos dessa decisão:
• Justificativas de Washington -relatório oficial americano aponta que o Brasil comete práticas comerciais desleais e prejudiciais aos interesses dos EUA:
• Ataque ao PIX – sistema de pagamentos brasileiro é criticado por ser gratuito, amplo e supostamente criar barreiras discriminatórias contra big techs e operadoras de cartões dos EUA.
• Mercado de etanol -EUA acusam o Brasil de restringir o acesso ao mercado de etanol e não aplicar reciprocidade tarifária desde 2017.
• Políticas digitais e ambientais -regras brasileiras de IA e o desmatamento ilegal também foram incluídos como justificativas institucionais para a punição.
• Decisões judiciais -documento cita inclusive decisões do STF (como a anulação de provas da Odebrecht pelo ministro Dias Toffoli) para embasar a retaliação
• Impactos econômicos e setores afetados – se implementadas, as taxas podem gerar impacto bilionário nas exportações brasileiras. Desenho das tarifas poupou o abastecimento interno americano, focando em manufaturados.
• Setores altamente afetados – máquinas e equipamentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças, aço, açúcar, etanol e pescados.
• Produtos isentos (fora da taxação) – café, carnes (bovina e aviária), suco de laranja, frutas tropicais, petróleo, gás natural, minérios e componentes aeronáuticos, como os da Embraer.
2 “Tariflávio” é termo político criado pelas redes digitais para associar o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, às novas taxas alfandegárias de 25% impostas pelo governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, contra produtos brasileiros.
3 Samuel Johnson (1709-1784), conhecido como Dr. Johnson, foi um dos mais notáveis intelectuais ingleses da história, distinguindo-se como poeta, ensaísta, crítico literário, biógrafo e lexicógrafo. Johnson não estava atacando o conceito de amor à pátria em si. Ele criticava o oportunismo político da época, apontando que figuras com intenções escusas — os “canalhas” — frequentemente se escondiam atrás da retórica patriótica para manipular a opinião pública.
4 A expressão “patriotismo” ou “nacionalismo de fancaria” refere-se ao uso falso, superficial ou oportunista do amor à pátria. Trata-se da manipulação de símbolos nacionais — como a bandeira e o hino — e de discurso ufanista, usados não por amor ao país, mas para promover interesses políticos, obter privilégios ou disseminar intolerância.
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