6 de junho de 2026

Ameaça de tarifaço se enfrenta com projeto de construção de poder nacional, por Antonio Machado

O problema não é o mau humor de Trump, mas o fato de o Brasil voltar a ser posto no cardápio dos ativos que importam sem ter voltado à mesa
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião Ministerial. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Trump ameaça tarifaço sobre exportações brasileiras e impõe sanções ligadas ao Pix, corrupção e queimadas na Amazônia.
Brasil é visto como jurisdição disciplinável por EUA, que usam tarifas e sanções para exercer coerção comercial e política.
Autor defende aumento do investimento e projeto nacional forte para Brasil deixar de ser mercado passivo e ganhar poder real.

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BRASIL S/A

Show de Trump voltou

Ameaça de tarifaço se enfrenta com projeto de construção de poder nacional, não com bravatas

Por Antonio Machado*

No papel de besta-fera da geopolítica global, o presidente Donald Trump reeditou pretextos para ameaçar novo tarifaço sobre os bens exportados pelo Brasil aos EUA, além de sanções ligadas ao Pix, à suposta leniência com a corrupção e até às queimadas na Amazônia.

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Foi um cutucão não apenas contra o Brasil, mas contra outros 59 países. Ainda assim, aqui ele encontrou um terreno especialmente fértil para o oportunismo dos polos antagônicos da política.

Da recidiva trumpista contra o livre comércio, menos obediente a regras desde que a China se transformou, sob aplausos americanos, na grande fábrica do mundo, saem algumas conclusões. Mais gritante é a que nos força a lembrar o desprezo continuado dos governantes, nos últimos anos, por um plano de poder econômico que nos pusesse na mesa das grandes decisões. Nesses fóruns, somos segundo time.

Essa é a questão relevante neste ano eleitoral. O resto é resto.

O oportunismo eleitoral levou os dois principais candidatos a se verem como alvos da investida trumpista: Lula, mais uma vez, empunhando a bandeira da soberania ofendida; Flávio Bolsonaro, correndo a Washington atrás de uma foto com Trump na Casa Branca, agradecendo o que entendeu como apoio à sua candidatura combalida.

Nenhum dos dois toca no essencial. O problema não é o mau humor de Trump. É o fato de o Brasil voltar a ser posto no cardápio dos ativos que importam às potências sem jamais ter voltado à mesa.

Esse é o tema de um importante artigo na última Foreign Affairs, assinado pelo professor da Tufts University e chefe de pesquisas sobre Ásia do Foreign Policy Research Institute, Michael Beckley. Ele sustenta que a visibilidade das potências médias, o campo do Brasil na geopolítica, não decorre de força nova, mas de exposição crescente. Elas aparecem mais porque o ambiente ficou mais duro.

Em vez de caminhar para um multipolarismo elegante, o mundo está ficando mais hierárquico, mais coercitivo e mais organizado pela tecnologia, finanças, energia, logística, IA e força bruta. Em tal paisagem, o sistema de mercado livre está mais para campo minado.

Ilusão da potência média

O risco de outro tarifaço confirma o mapa traçado por Beckley no concreto. Washington não tratou o Brasil como parceiro comercial com divergências pontuais, mas como jurisdição disciplinável em várias frentes ao mesmo tempo: no comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, na frente anticorrupção, na propriedade intelectual, no etanol e no desmatamento.

A tarifa de 25% ainda está em consulta, mas o recado político já foi dado: regulação, meio ambiente, infraestrutura do PIX e acesso a mercados passaram a integrar a mesma arena de coerção. É nesse ponto que o discurso local de soberania ameaçada se apequena.

Lula qualifica a agressão dos EUA em multilateralismo ofendido; o bolsonarismo trata coice como expressão de amizade. Ambos agem como se o problema fosse apenas verbal. Não é. É mais sutil.

Apegar-se à defesa do multilateralismo, como tem sido recorrente, está não só ultrapassado pelo neoimperialismo chinês e americano como começa a soar demodê à luz dos movimentos brutos das grandes potências. Ninguém, hoje, se constrange em usar tarifas, sanções, subsídios, excesso exportador e controle de gargalos como arma de poder.

Potência média sem poder não arbitra nada. É arbitrada.

Nossa fraqueza é doméstica

Neste cenário, parece cômodo culpar Trump por tudo. A ofensiva da Casa Branca trumpista não criou nossa fragilidade, apenas a expôs.

Com crescimento econômico de 2% e investindo ralos 16,5% do PIB, o país não tem musculatura para barganhar com ninguém no topo da cadeia alimentar das nações. Só gere a própria insuficiência com verniz estatístico para disfarçar a dependência de commodities.

Países que investem 30% a 40% do PIB por décadas, casos da China, Índia e dos EUA até os anos 1970, transformaram o crescimento em produtividade, infraestrutura, tecnologia e escala empresarial.

E nós? Trocamos a formação de capacidade manufatureira por uma alternância entre consumo bancado por dívida, improviso fiscal, retórica diplomática e acomodação cartorial. O dado mais duro da crise brasileira é material e não comercial nem ideológica.

Não temos densidade produtiva suficiente para impor respeito aos parceiros, aos concorrentes, aos credores e às cadeias de valor.

É por isso que Beckley, mesmo exagerando no receituário pró-EUA, acerta ao demolir a tese da autonomia estratégica sem base real.

Quem tem pouco controle das cadeias de valor e investe micharia, só tem o recurso de chamar de soberania a administração da própria impotência. Entramos no tempo da coerção entre grandes potências ainda presos à fantasia de potência média, com investimento de país resignado e retórica de país grande. Entre ser mercado cativo de Pequim e apêndice de Washington, há um caminho mais difícil e mais digno: voltarmos a construir poder nacional.

A escolha é apenas nossa

Não temos de escolher antiamericanismo ornamental ou alinhamento passivo. Precisamos de algo melhor: alinhamento seletivo conforme o projeto nacional.

Isso significa reconhecer que os EUA continuam oferecendo a arquitetura mais robusta de capital, inovação, defesa e finanças, como lista Beckley em seu artigo.

E também que a China é decisiva em escala industrial, manufatura, equipamentos e demanda por grãos, carnes e minérios. Erro é entrar nessa disputa como mercado passivo, um exportador bruto de insumos – e palanque tropical de guerra ideológica dos outros.

A resposta correta é elevar a taxa de investimento para 22% a 25% do PIB até 2030. Reconstruir o Estado como coordenador de missões. Tratar como cadeia de valor unificada a energia, a computação e os minerais críticos. Tornar o país superpotência de infraestrutura e insumos para a era da inteligência artificial física. E mais.

Deixar de exportar minério e importar dependência. Obrigar EUA e China a nos integrar como sócio útil em suas cadeias produtivas, e não como quintal, entreposto ou consumidor cativo.

É isso que deveríamos tratar na campanha eleitoral. Não de carta com pedidos a Trump, nem de foto no Salão Oval ou da velha rinha entre soberanistas de palanque e súditos patéticos.

O ponto central não é Trump, que vai passar. É o espelho que ele nos leva a encarar. Quem não constrói capacidade acaba recorrendo à retórica da soberania para justificar a própria impotência.

Só seremos tratados como potência emergente se voltarmos a agir como país com projeto. O resto, no ano eleitoral, é encenação para a plateia. E encenação, como sabemos, não senta ninguém à mesa das grandes decisões. Só nos torna cardápio dos senhores do universo.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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