BRASIL S/A
Show de Trump voltou
Ameaça de tarifaço se enfrenta com projeto de construção de poder nacional, não com bravatas
Por Antonio Machado*
No papel de besta-fera da geopolítica global, o presidente Donald Trump reeditou pretextos para ameaçar novo tarifaço sobre os bens exportados pelo Brasil aos EUA, além de sanções ligadas ao Pix, à suposta leniência com a corrupção e até às queimadas na Amazônia.
Foi um cutucão não apenas contra o Brasil, mas contra outros 59 países. Ainda assim, aqui ele encontrou um terreno especialmente fértil para o oportunismo dos polos antagônicos da política.
Da recidiva trumpista contra o livre comércio, menos obediente a regras desde que a China se transformou, sob aplausos americanos, na grande fábrica do mundo, saem algumas conclusões. Mais gritante é a que nos força a lembrar o desprezo continuado dos governantes, nos últimos anos, por um plano de poder econômico que nos pusesse na mesa das grandes decisões. Nesses fóruns, somos segundo time.
Essa é a questão relevante neste ano eleitoral. O resto é resto.
O oportunismo eleitoral levou os dois principais candidatos a se verem como alvos da investida trumpista: Lula, mais uma vez, empunhando a bandeira da soberania ofendida; Flávio Bolsonaro, correndo a Washington atrás de uma foto com Trump na Casa Branca, agradecendo o que entendeu como apoio à sua candidatura combalida.
Nenhum dos dois toca no essencial. O problema não é o mau humor de Trump. É o fato de o Brasil voltar a ser posto no cardápio dos ativos que importam às potências sem jamais ter voltado à mesa.
Esse é o tema de um importante artigo na última Foreign Affairs, assinado pelo professor da Tufts University e chefe de pesquisas sobre Ásia do Foreign Policy Research Institute, Michael Beckley. Ele sustenta que a visibilidade das potências médias, o campo do Brasil na geopolítica, não decorre de força nova, mas de exposição crescente. Elas aparecem mais porque o ambiente ficou mais duro.
Em vez de caminhar para um multipolarismo elegante, o mundo está ficando mais hierárquico, mais coercitivo e mais organizado pela tecnologia, finanças, energia, logística, IA e força bruta. Em tal paisagem, o sistema de mercado livre está mais para campo minado.
Ilusão da potência média
O risco de outro tarifaço confirma o mapa traçado por Beckley no concreto. Washington não tratou o Brasil como parceiro comercial com divergências pontuais, mas como jurisdição disciplinável em várias frentes ao mesmo tempo: no comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, na frente anticorrupção, na propriedade intelectual, no etanol e no desmatamento.
A tarifa de 25% ainda está em consulta, mas o recado político já foi dado: regulação, meio ambiente, infraestrutura do PIX e acesso a mercados passaram a integrar a mesma arena de coerção. É nesse ponto que o discurso local de soberania ameaçada se apequena.
Lula qualifica a agressão dos EUA em multilateralismo ofendido; o bolsonarismo trata coice como expressão de amizade. Ambos agem como se o problema fosse apenas verbal. Não é. É mais sutil.
Apegar-se à defesa do multilateralismo, como tem sido recorrente, está não só ultrapassado pelo neoimperialismo chinês e americano como começa a soar demodê à luz dos movimentos brutos das grandes potências. Ninguém, hoje, se constrange em usar tarifas, sanções, subsídios, excesso exportador e controle de gargalos como arma de poder.
Potência média sem poder não arbitra nada. É arbitrada.
Nossa fraqueza é doméstica
Neste cenário, parece cômodo culpar Trump por tudo. A ofensiva da Casa Branca trumpista não criou nossa fragilidade, apenas a expôs.
Com crescimento econômico de 2% e investindo ralos 16,5% do PIB, o país não tem musculatura para barganhar com ninguém no topo da cadeia alimentar das nações. Só gere a própria insuficiência com verniz estatístico para disfarçar a dependência de commodities.
Países que investem 30% a 40% do PIB por décadas, casos da China, Índia e dos EUA até os anos 1970, transformaram o crescimento em produtividade, infraestrutura, tecnologia e escala empresarial.
E nós? Trocamos a formação de capacidade manufatureira por uma alternância entre consumo bancado por dívida, improviso fiscal, retórica diplomática e acomodação cartorial. O dado mais duro da crise brasileira é material e não comercial nem ideológica.
Não temos densidade produtiva suficiente para impor respeito aos parceiros, aos concorrentes, aos credores e às cadeias de valor.
É por isso que Beckley, mesmo exagerando no receituário pró-EUA, acerta ao demolir a tese da autonomia estratégica sem base real.
Quem tem pouco controle das cadeias de valor e investe micharia, só tem o recurso de chamar de soberania a administração da própria impotência. Entramos no tempo da coerção entre grandes potências ainda presos à fantasia de potência média, com investimento de país resignado e retórica de país grande. Entre ser mercado cativo de Pequim e apêndice de Washington, há um caminho mais difícil e mais digno: voltarmos a construir poder nacional.
A escolha é apenas nossa
Não temos de escolher antiamericanismo ornamental ou alinhamento passivo. Precisamos de algo melhor: alinhamento seletivo conforme o projeto nacional.
Isso significa reconhecer que os EUA continuam oferecendo a arquitetura mais robusta de capital, inovação, defesa e finanças, como lista Beckley em seu artigo.
E também que a China é decisiva em escala industrial, manufatura, equipamentos e demanda por grãos, carnes e minérios. Erro é entrar nessa disputa como mercado passivo, um exportador bruto de insumos – e palanque tropical de guerra ideológica dos outros.
A resposta correta é elevar a taxa de investimento para 22% a 25% do PIB até 2030. Reconstruir o Estado como coordenador de missões. Tratar como cadeia de valor unificada a energia, a computação e os minerais críticos. Tornar o país superpotência de infraestrutura e insumos para a era da inteligência artificial física. E mais.
Deixar de exportar minério e importar dependência. Obrigar EUA e China a nos integrar como sócio útil em suas cadeias produtivas, e não como quintal, entreposto ou consumidor cativo.
É isso que deveríamos tratar na campanha eleitoral. Não de carta com pedidos a Trump, nem de foto no Salão Oval ou da velha rinha entre soberanistas de palanque e súditos patéticos.
O ponto central não é Trump, que vai passar. É o espelho que ele nos leva a encarar. Quem não constrói capacidade acaba recorrendo à retórica da soberania para justificar a própria impotência.
Só seremos tratados como potência emergente se voltarmos a agir como país com projeto. O resto, no ano eleitoral, é encenação para a plateia. E encenação, como sabemos, não senta ninguém à mesa das grandes decisões. Só nos torna cardápio dos senhores do universo.
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