10 de junho de 2026

Dossiê Ditadura 6 – Casa da Morte: de lar dos Bandidos de Farda a Centro de Memória, por Felipe Lott

Em Petropólis, estado do Rio, no bairro de Caxambu, funcionou um centro de tortura e extermínio sob a responsabilidade do Exército brasileiro
Os crimes ocultos da ditadura

Sessão do documentário “Bandidos de Farda” em Petrópolis revelou crimes da ditadura e abusos na Casa da Morte.
O filme expõe torturas, assassinatos e vínculos internacionais da repressão, destacando o coronel Cyro Etchegoyen.
Movimentos de Direitos Humanos pedem a transformação da Casa da Morte em Memorial pela Democracia e Justiça.

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Casa da Morte: de lar dos Bandidos de Farda a Centro de Memória, Verdade, Justiça e Reparação em Petrópolis

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por Felipe Lott

No dia 22 de maio de 2026, foi realizada uma sessão do documentário Bandidos de Farda, do ICL, na Sala de Cinema Humberto Mauro, no Centro Cultural Raul de Leoni, em Petrópolis. Com o começo marcado às 16 horas, a sessão de cinema foi organizada pelo Ponto de Cultura Inês Etienne por Memória Política e Direitos Humanos, e contou com o apoio de outras entidades da luta pelos Direitos Humanos, tais como: Coalização Brasil Memória, Verdade, Justiça e Reparação; Grupo Pró-Memorial Casa da Morte; Centro Alceu Amoroso Lima; Associação de Amigos do Dr. Alceu; Grupo Latino-Americano de Estudos Históricos e em Educação; Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação; Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça; Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis; Cultura Viva; e do Instituto Municipal de Cultura da Prefeitura de Petrópolis.

Vários e várias representantes de entidades da luta pelos Direitos Humanos, em especial do campo da Memória, Verdade, Justiça e Reparação, prestigiaram o evento, enchendo a sala de exibição do documentário. Coordenado pela jornalista Juliana Dal Piva, o filme foi resultado da entrega de uma grande documentação do aparelho repressivo da ditadura ao escritório Felipe Santa Cruz e Anderson Prezia Advogados Associados. Sob sigilo de quem entregou essa documentação, os jornalistas Igor Mello, Chico Otavio e Schirlei Alves, além da própria Juliana Dal Piva, analisam um importante acervo contendo informações sobre variados crimes cometidos por diversos agentes da repressão, especialmente aqueles praticados pelo coronel Cyro Etchegoyen, um dos nomes mais importantes do Centro de Informações do Exército (CIE). Abrangendo de crimes de lesa humanidade, como tortura, assassinato, ocultação de cadáver etc., até crimes comuns, como roubos e furtos, o documentário mostra as entranhas do aparelho repressor e sua obsessão por produzir maldades e destruição por onde passava. Ainda na lista de delinquências dos agentes da ditadura, Bandidos de Farda expõe e denuncia a prática corriqueira de estupros de mulheres, inclusive protagonizados pelo próprio Cyro Etchegoyen, registrados na documentação da repressão utilizada de base para produzir o filme.

Além das práticas criminosas, Bandidos de Farda apresenta os vínculos internacionais da ditadura com potências capitalistas, como Inglaterra, que convidou oficialmente Cyro Etchegoyen para realizar cursos de técnicas de tortura em seu país, e nas ditaduras vizinhas, como no Chile, em que agentes brasileiros coordenaram ações de repressão em solo estrangeiro. Outro tema retratado foi a capacidade da ditadura de infiltrar agentes e ex-militantes, que trocaram de lado ao longo do período, nas organizações armadas de luta contra a ditadura. De forma oficial, organizada e esquemática, os documentos, analisados pelos e pelas jornalistas do documentário, explicitam a sofisticada máquina de repressão da ditadura, que, durante muitas décadas, foi negada e/ou relativizada, e que, em muitos sentidos, continua sendo ocultada do conhecimento público da sociedade brasileira.

Entre outros centros de tortura e assassinato, destaca-se a Casa da Morte de Petrópolis, onde o próprio coronel Cyro Etchegoyen trabalhou como torturador. No final do filme, os jornalistas tiveram o cuidado e a preocupação de apresentar e discutir os danos e efeitos transgeracionais da violência de Estado, perpetrada pelos agentes da ditadura. Por meio da trágica história de Marilene dos Santos Mello, Bandidos de Farda mostra toda a crueldade dos agentes da repressão. Simpatizante do movimento de luta contra a ditadura, Marilene abrigava alguns militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) em seu apartamento na Tijuca, depois de agosto de 1967, quando o padrasto morreu. Em 19 de dezembro de 1969, o local foi invadido por militares, levando Marilene presa por 3 dias. Sequestrada de sua residência, Marilene foi conduzida até um apartamento em Copacabana, que também funcionava como aparelho da ANL, onde ela foi estuprada por militares.

Procurando pelo paradeiro de Marilene nos dias de hoje, os jornalistas e as jornalistas do documentário não conseguiram encontrá-la, por ter falecido anos antes da produção do filme. Não obstante, foi possível encontrar Augusto dos Santos Mello, um dos 5 filhos de Marilene, que concedeu entrevista ao documentário. Tocante, as falas de Augusto mostram toda a dor produzida pela violência de Estado da ditadura em sua mãe, nele mesmo e em seus irmãos, evidenciando a transmissão transgeracional de toda essa violência estatal.

Contando com a presença de um dos jornalistas que participou do documentário, a sessão de Bandidos de Farda, na Sala de Cinema Humberto Mauro, do Centro Cultural Raul de Leoni, em Petrópolis,foi seguida por um debate com Chico Otavio, que contou sobre o processo de produção do filme e toda sua experiência na cobertura de crimes da ditadura, ao longo de sua carreira. No debate, muitas contribuições foram apresentadas pelos e pelas representantes de entidades do campo da Memória, Verdade, Justiça e Reparação, bem como perguntas foram feitas a Chico Otavio, salientando especialmente a situação e a questão da Casa da Morte de Petrópolis.

Há várias décadas, muitas entidades de Direitos Humanos dedicam grandes esforços na luta para transformar esse local de tortura e assassinato em um espaço de Memória, Verdade, Justiça e Reparação. Lançado no mês de maio de 2026, Bandidos de Farda foi a última contribuição audiovisual nessa luta de apropriação e transformação da Casa da Morte em um espaço de Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

Inspirado pelo filme do ICL, Ponto de Cultura Inês Etienne – Por Memória Política e Direitos Humanos aproveitou a exibição do filme para realizar uma assembleia, apresentando sua moção pela criação de uma política nacional de lugares de memória, que segue publicada logo abaixo.

MOÇÃO

A ASSEMBLEIA convocada pelo PONTO DE CULTURA INÊS ETIENNE – POR MEMÓRIA POLÍTICA E DIREITOS HUMANOS, realizada no dia 22 de maio de 2026, após a exibição do documentário “BANDIDOS DE FARDA”, do INSTITUTO CONHECIMENTO LIBERTA (ICL), aprova a seguinte moçãoconforme lista de presença em anexo:

MOÇÃO PÚBLICA Pela Criação de uma POLÍTICA NACIONAL DE LUGARES MEMÓRIA, que reconheça e apoie diversos locais onde foram cometidos crimes de lesa humanidade durante os períodos ditatoriais, em conformidade com os princípios do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do MERCOSUL (IPPDH) e recomendações da  Comissão Nacional da Verdade (CNV), que consideram imprescindível que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade pela criação de “Lugares de Memória“, como ferramentas essenciais para a educação em direitos humanos, construção democrática e garantia de que tais crimes não voltem a acontecer.  

Em Petropólis, estado do Rio de Janeiro, no bairro de Caxambu, funcionou, em imóvel privado, um centro de tortura e extermínio sob a responsabilidade do Exército brasileiro, na última ditadura civil militar, conhecido como a Casa da Morte.  Há anos, os movimentos por Direitos Humanos lutam para transformar esse lugar em um MEMORIAL PELA DEMOCRACIA, VERDADE E JUSTIÇA, por entender que é preciso conhecer o passado traumático, reparar os danos causados, para evitar que se repitam as formas violentas e autoritárias de convivência social.

As informações recentes, veiculadas pelo ICL por meio do citado documentário e de matérias publicadas sobre os documentos do coronel Cyro Etchegoyen, que esteve à frente da Casa da Morte, ilustram a barbárie do que ocorreu naquele imóvel. Material até então clandestino sob as mãos de militares, que criminosamente os omitiram à CNV visando intencionalmente a ocultar a verdade, a brutalidade dos acontecimentos e acobertar agentes públicos. Portanto, é necessário que iniciativas efetivas de desapropriação desse imóvel sejam imediatamente tomadas, dada a evidência documental, para dar seguimento à demanda da sociedade em transformar esse lugar em MEMORIAL PELA DEMOCRACIA, VERDADE E JUSTIÇA. Ademais, se faz urgente que políticas públicas a nível municipal, estadual e nacional sejam implementadas para evitar novos golpes, como temos assistido nos últimos anos, tentativas de repetir o terrível período da ditadura civil militar neste país.

Diante do exposto, a sociedade civil representada pelo(s) coletivo(s) de Direitos Humano(s) e abaixo assinado(s) requer(em), que seja oficiada à Prefeitura de Petrópolis e ao Ministério dos Direitos Humanos, ao poder Legislativo municipal, ao Ministério Público e à Magistratura municipal e estadual a indicação de celeridade e organicidade entre os poderes, no sentido de agilizar e efetivar a desapropriação do imóvel que, por seu comprometimento com crimes de lesa humanidade, macula a memória da cidade de Petropólis, visando à implementação do MEMORIAL PELA DEMOCRACIA, VERDADE E JUSTIÇA, em consonância com as políticas de preservação da memória histórica brasileira.

Atenciosamente,

PONTO DE CULTURA INÊS ETIENNE – POR MEMÓRIA POLÍTICA E DIREITOS HUMANOS

Assinaturas:

Ponto de Cultura Inês Etienne – Por Memória Política e Direitos Humanos

CCDH – Centro de Defesa de Direitos Humanos de Petropólis

GPM – Grupo Pró-Memorial Casa da Morte

CAAL – Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade

AADA – Associação de Amigos do Dr. Alceu

ATD – Associação Todos pela Dignidade Brasil

Casa da Cidadania

Coletivo Filhos e Netos por Memória Verdade Justiça e Reparação

Coletivo RJ Memória Verdade Justiça e Reparação

Coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia

UP – União Popular

Pré-Vestibular Comunitário Educafro

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