9 de junho de 2026

Dossiê Ditadura 5: A carta que compromete Figueiredo com a morte de JK

O documento não deve ser confundido com o convite que Contreras enviou em outubro de 1975 à reunião fundadora da Operação Condor
Juscelino Kubitschek

Carta de 1975 do coronel chileno Contreras a Figueiredo cita Kubitschek como ameaça ao Cone Sul.
Documento apoia plano brasileiro para coordenar ações contra políticos social-democratas e eclesiásticos.
Carta foi divulgada nos EUA, confirmada por Contreras em 2015, mas ele negou ligação com mortes de JK e Letelier.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Entre as peças que sustentam a hipótese de atentado de Juscelino Kubitscheck, a mais invocada é a carta atribuída ao coronel Manuel Contreras Sepúlveda, diretor da DINA chilena, ao general João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI. O documento é datado de 28 de agosto de 1975 — quase um ano antes da morte de Juscelino — e não deve ser confundido com o convite que Contreras enviou em outubro de 1975 à reunião fundadora da Operação Condor, peça distinta, endereçada à polícia paraguaia e conservada nos Arquivos do Terror de Assunção.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A carta a Figueiredo registra a preocupação de Contreras com uma eventual vitória democrata em Washington e com o reforço político que dela adviria a opositores das ditaduras do Cone Sul. Nela, Kubitschek e Orlando Letelier são nomeados como fatores que poderiam “influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul”. E, num trecho que inverte a iniciativa habitualmente presumida, é Contreras quem adere ao plano do brasileiro: manifesta apoio ao plano “proposto por você” — Figueiredo — “para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democratas-cristãos da América Latina e Europa”. O proponente, no texto, é o futuro presidente do Brasil; Contreras é o aderente.

A cadeia de custódia do documento é a seguinte. A carta tornou-se pública pela imprensa norte-americana, não pela brasileira: foi divulgada pelo colunista Jack Anderson, que obteve o material do relatório do Senado dos Estados Unidos sobre a Condor e atestou a autenticidade do documento. Quatro décadas depois, em 2 de junho de 2015, Contreras foi ouvido na prisão, no âmbito do inquérito civil do Ministério Público Federal: confirmou a autoria da carta e a amizade pessoal com Figueiredo, mas alegou não recordar o contexto e — ponto que a apuração honesta não pode omitir — negou expressamente qualquer relação entre a carta e as mortes de JK e Letelier. Morreu meses depois.

Duas ressalvas metodológicas se impõem. Primeira: o que circula publicamente são extratos convergentes da carta, não sua íntegra verbatim; o texto corrido completo permanece nos autos do inquérito do MPF (2013–2019, divulgado em 2021) e na série original de Anderson. Segunda, e decisiva: a carta prova que Kubitschek era tratado como ameaça e que existia um plano de coordenação repressiva com adesão chilena. 

LEIA TAMBÉM:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados