Entre as peças que sustentam a hipótese de atentado de Juscelino Kubitscheck, a mais invocada é a carta atribuída ao coronel Manuel Contreras Sepúlveda, diretor da DINA chilena, ao general João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI. O documento é datado de 28 de agosto de 1975 — quase um ano antes da morte de Juscelino — e não deve ser confundido com o convite que Contreras enviou em outubro de 1975 à reunião fundadora da Operação Condor, peça distinta, endereçada à polícia paraguaia e conservada nos Arquivos do Terror de Assunção.
A carta a Figueiredo registra a preocupação de Contreras com uma eventual vitória democrata em Washington e com o reforço político que dela adviria a opositores das ditaduras do Cone Sul. Nela, Kubitschek e Orlando Letelier são nomeados como fatores que poderiam “influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul”. E, num trecho que inverte a iniciativa habitualmente presumida, é Contreras quem adere ao plano do brasileiro: manifesta apoio ao plano “proposto por você” — Figueiredo — “para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democratas-cristãos da América Latina e Europa”. O proponente, no texto, é o futuro presidente do Brasil; Contreras é o aderente.
A cadeia de custódia do documento é a seguinte. A carta tornou-se pública pela imprensa norte-americana, não pela brasileira: foi divulgada pelo colunista Jack Anderson, que obteve o material do relatório do Senado dos Estados Unidos sobre a Condor e atestou a autenticidade do documento. Quatro décadas depois, em 2 de junho de 2015, Contreras foi ouvido na prisão, no âmbito do inquérito civil do Ministério Público Federal: confirmou a autoria da carta e a amizade pessoal com Figueiredo, mas alegou não recordar o contexto e — ponto que a apuração honesta não pode omitir — negou expressamente qualquer relação entre a carta e as mortes de JK e Letelier. Morreu meses depois.
Duas ressalvas metodológicas se impõem. Primeira: o que circula publicamente são extratos convergentes da carta, não sua íntegra verbatim; o texto corrido completo permanece nos autos do inquérito do MPF (2013–2019, divulgado em 2021) e na série original de Anderson. Segunda, e decisiva: a carta prova que Kubitschek era tratado como ameaça e que existia um plano de coordenação repressiva com adesão chilena.
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