10 de junho de 2026

Nuvens sobre o arco-íris, por Lia Calder

A fuga dos patrocínios à Parada do Orgulho de São Paulo revela como o apoio das marcas à diversidade é belo, vistoso e efêmero

Junho marca o Mês do Orgulho LGBTI+, mas o apoio empresarial à causa mostra-se efêmero diante de pressões políticas.
Em 2025, foram propostos 510 projetos anti-LGBTI+ no Brasil; patrocinadores da Parada de São Paulo caíram de 19 para 3.
Câmara de SP aprovou PL que limita participação de crianças em eventos LGBTQIA+; movimento resiste mesmo sem patrocínio.

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Nuvens sobre o arco-íris

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por Lia Calder

Chegou o mês do arco-íris e, com ele, as cores da desigualdade e da hipocrisia ficam mais carregadas. Junho escancara uma verdade incômoda sobre o apoio empresarial à diversidade sexual e de identidade de gênero: como o fenômeno óptico que dá símbolo à causa, esse apoio é belo, vistoso e efêmero. Basta uma mudança nas condições — políticas, neste caso — para que ele desapareça.

O Mês do Orgulho LGBTI+ celebra a resistência e os avanços conquistados, e os muitos ainda por garantir, pela população de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, pessoas intersexo e demais identidades. A data remonta à Revolta de Stonewall, de 1969, quando frequentadores do bar Stonewall Inn – reduto da comunidade LGBTI+, em Nova York, reagiram à violência e à opressão da polícia. Os protestos tornaram-se um marco histórico e desencadearam movimentos pelo mundo nos anos seguintes.

De lá para cá, a população LGBTI+ conquistou, com muita luta, direitos que asseguram sua existência, convivência e cidadania. O reconhecimento da união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, e a criminalização da homofobia, em 2019, são bons exemplos. As conquistas, no entanto, nunca estão plenamente asseguradas. Em junho de 2025, foram propostos 510 projetos de lei anti-LGBTI+ submetidos segundo a Observatória, plataforma da Agência Diadorim que monitora os PLs que tangem essa comunidade.

A defesa dos direitos LGBTI+, assim como a de outros grupos minorizados, como pessoas negras e com deficiência e mulheres, é associada ao campo progressista, tanto pelos posicionamentos de figuras públicas e políticas quanto por trabalhos acadêmicos, como o de Foss e Klein (2023). A leitura política do tema tem impacto direto não apenas no espaço público, como é óbvio, mas também no privado.

Os sinais vêm de cima. Em 2011, Jair Bolsonaro declarou preferir um filho morto num acidente a sabê-lo gay. Em 2025, Donald Trump assinou ordem executiva determinando que os Estados Unidos reconhecem apenas dois sexos: masculino e feminino — apagando, em uma canetada, a existência de pessoas trans e não binárias. São autorizações tácitas para que empresas mundo afora revisitem compromissos firmados de forma leviana, das políticas internas de inclusão aos patrocínios a eventos externos.

Influenciadores e pessoas públicas mostram ter papel decisivo nessas escolhas. Em 2024, o influenciador estadunidense Robby Starbuck atacou as ações de visibilidade LGBTI+ da John Deere. Semanas depois, a gigante de máquinas agrícolas deu ré em iniciativas de diversidade. No ano anterior, a Bud Light, ícone da cultura estadunidense, viveu um caso semelhante. Uma ação de marketing com a influenciadora trans Dylan Mulvaney, que celebrava um ano da sua transição de gênero, provocou reação conservadora e LGBTfóbica nas redes. Não só a parceria foi rompida como dois executivos responsáveis pela ação de acabaram afastados.

O que esses episódios revelam é a fragilidade dos compromissos com diversidade e inclusão, mais especificamente na frente LGBTI+. Se o desafio estrutural de garantir igualdade e equidade muda conforme o vento, é sinal de que o compromisso original nunca foi tão genuíno. Como um arco-íris, ele é efêmero e não resiste à primeira mudança do tempo.

Em terra brasilis, essa fragilidade ganhou números. A Parada do Orgulho de São Paulo, que completou 30 anos dia 7 de junho  na Avenida Paulista, viu a receita de patrocínio cair cerca de 60%. A diferença entre 2024 e 2026 é abissal: de 19 para 3 patrocinadores, segundo reportagem do Meio & Mensagem.  A Amstel, do grupo holandês Heineken, segue como patrocinadora oficial pelo oitavo ano; a francesa L’Oréal mantém presença pelo quarto ano consecutivo com a marca La Roche-Posay; e a norte-americana Philip Morris aparece entre as confirmadas.

A debandada não se explica pela economia.

Em 2025, segundo a Associação Comercial de São Paulo, a Parada movimentou cerca de R$ 548,5 milhões na cidade. Quem saiu não está fugindo do prejuízo, mas do risco político.

As marcas que ficaram fazem questão de dizer que não se trata de modismo. A Amstel afirma que visibilidade e representatividade são compromissos permanentes, não pautas passageiras; a L’Oréal sustenta que diversidade não é tendência, e sim valor e necessidade de negócio. São posições que merecem crédito — e que, justamente por isso, expõem o oportunismo de quem foi embora.

Se há quem permaneça e prospere, sair é escolha política, não imperativo de mercado. Ou, como resume Nelson Matias Pereira, presidente da associação que organiza a Parada: “direitos humanos não podem ser tratados como tendência de mercado.”

E o cerco não vem só do dinheiro privado. Enquanto os patrocínios recuam, o poder público avança. Em maio, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou, em primeira votação, o Projeto de Lei 50/2025, do vereador Rubinho Nunes (União Brasil), que proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos que “façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+” — mesmo acompanhados dos responsáveis — e determina que tais eventos ocorram em espaço fechado, vedando a ocupação e a interdição de vias públicas. O texto ainda depende de segundo turno e da sanção do prefeito, mas a mensagem é clara. Pressiona-se a Parada por fora, esvaziando seu caráter coletivo e de rua, que foi justamente o que tornou possíveis as conquistas até aqui; e por dentro, secando suas fontes de financiamento.

O arco-íris corporativo é mesmo efêmero. Mas o movimento não nasceu de verba de marketing, nasceu da articulação social. O próprio Pereira resume o espírito: “faltando recurso, pega-se o carro de som e volta-se ao asfalto, como na origem da Parada”. As marcas vão e voltam conforme o clima. A resistência, essa, não depende de patrocínio.

Lia Calder é consultora em cultura organizacional, professora, palestrante e pesquisadora em Diversidade e Inclusão. Ela é bacharel em Comunicação Social e mestre em Administração de Empresas pela FGV.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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