Midterms nos EUA e eleições presidenciais no Brasil: até onde a IA decide voto?
por Maristela Mafei
Nos meses que antecedem as eleições de meio de mandato nos EUA, as campanhas de desinformação ganharam novos contornos: o menos 304 contas no TikTok foram identificadas como geradoras de conteúdo político em apoio a Donald Trump, usando avatares virtuais, influenciadores com aparência “atraente”, falando sobre a “esquerda radical”, e a “América em Primeiro Lugar”, misturando informações reais e falsas, sem qualquer identificação de que eram gerados por IA.
Um dos casos mais emblemáticos foi o de Emily Hart, influenciadora falsa criada por um estudante usando IA para gerar rosto, corpo e legendas, projetada para explorar a baixa alfabetização digital de parte do público.
A estratégia testada nas midterms americanas chegou ao Brasil antes mesmo do início oficial das campanhas. Um levantamento do Observatório de IA nas Eleições identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores artificiais dedicados à política brasileira, 61% sem qualquer identificação de uso de IA e 78% disseminando desinformação com discursos extremistas. O fenômeno está sendo replicado, e aperfeiçoado, em solo brasileiro.
Por baixo do que o eleitor vê nas redes, opera uma nova infraestrutura de persuasão em escala industrial. Uma das campanhas majoritárias já conta com uma equipe de 54 pessoas dedicadas exclusivamente à nanosegmentação, o nome dado a estratégia de customizar mensagens para atingir, por exemplo, mulheres da zona oeste de São Paulo sem plano de saúde com probabilidade de passar a apoiar o candidato.
A precisão vai além do direcionamento. Softwares de IA monitoram a “sentimentalização” continuamente, ou seja, como milhões de perfis reagem a cada conteúdo, mapeando os temas que mais geram engajamento e como repercutem as mensagens do candidato e dos concorrentes.
E quando a pesquisa tradicional se torna lenta demais, entra o eleitor sintético. Uma pesquisa qualitativa com mil entrevistados pode custar R$ 150 mil. O eleitor sintético custa R$ 65 mil por mês e pode ser acionado a qualquer momento, testando discursos e antecipando reações antes mesmo de uma mensagem ir ao ar.
No âmbito institucional, o TSE já aprovou regras para o uso de IA, como a proibição de deepfakes, restrição a conteúdo sintético nas 72 horas antes do pleito e estabelecendo responsabilidade solidária das plataformas. Ainda assim, as zonas cinzentas são imensas, e as tentativas de burlar as regras acontecerão.
Nessa nova fronteira, o profissional de Comunicação tem tanto desafios como oportunidades.
A velocidade de circulação de um deepfake pode tornar o dano irreparável antes mesmo de ser identificado, perfis anônimos e redes de bots exige monitoramento constante. E o domínio regulatório, ou seja, saber o que o TSE permite, proíbe e ainda deixa em zona cinzenta, passou a ser exigência básica para quem atua em campanha.
E aqui estão as oportunidades, pois nesse novo ambiente a equipe de comunicação passa a exercer uma função essencial e inédita: a de verificador ativo, monitorando deepfakes, identificando violações às resoluções do TSE, acionando mecanismos de denúncia e protegendo a campanha contra ataques fabricados.
Nunca as campanhas eleitorais precisaram tanto de profissionais de Relações Públicas com visão estratégica, domínio regulatório e capacidade de operar em tempo real. O cenário polarizado e o poder e velocidade das IA ampliaram nossa importância, e quem souber se adaptar nessa terra “em plena descoberta” com domínio técnico e antecipação definirá o futuro da comunicação política brasileira.
Maristela Mafei – Fundadora do Grupo Máquina PR (atual Máquina/Grupo Burson) | Embaixadora e Empreendedora Endeavor | Especialista em reputação corporativa |
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