A masterização do Brasil
por Izaías Almada
É muito provável, penso eu, que a maioria do povo brasileiro não conheça o significado da palavra MASTER.
Vejamos o que dizem os dicionários: “Master: cópia de filme, gravação sonora ou vídeo; arquivo digital, utilizado para a reprodução de imagens e sons…”
Trata-se, portanto, de um produto do mundo contemporâneo que, uma vez guardado, possibilita através da imagem e do som que se conte a história de uma civilização, de um povo e seus costumes… O que significa dar sequência e atualização a muitas das invenções e descobertas do ser humano, por exemplo.
Dito isso, fico pensando por qual razão, se é que essa razão existe, foi dado a um banco o nome Master? Isto é falta de assunto? Perguntarão muitos leitores. Não, não… A curiosidade aqui é juntar o banco e o significado da palavra e disso o leitor pode ter a certeza que assunto não falta…
E o tema é antigo, pois a chegada da nau cabralina às costas do Brasil fez com que os seus navegantes distribuíssem muitas bugigangas aos povos originais da terra encontrada como maneira de ganhar-lhes a amizade… Dar um jeitinho antes de escravizá-los… Como fizeram também com os nossos irmãos vindos da África.
Em um brilhante artigo escrito pelo economista Márcio Pochmann há um parágrafo que, em poucas linhas, o autor afirma: “O Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente mobilizado por algoritmos e redes sociais.
Em poucas palavras Pochmann mostra três momentos do capitalismo brasileiro com seus conflitos sociais, conflitos esses que para serem resolvidos e ultrapassados foram se adaptando e criando defesas de um sistema econômico que, para sobreviver, usa dos mais variados recursos legais ou ilegais.
Aqui entra o Banco Master que copiou (masterizou) o modelo do jeitinho de como ganhar dinheiro legal ou ilegalmente, distribuindo benesses aqui e acolá, deixando à mostra as veias da América Latina e não só.
As cifras investidas no jeitinho, molhando a mão de quem tem poderes para criar leis ou convocar, com cartas marcadas, através de editais, a participação de empresas em obras de governos municipais, estaduais e federais. Cifras que impressionam pelo seu montante comprovado ou estimado em bilhões e bilhões de reais.
De onde saiu tanto dinheiro? Criado em 1974 o Master foi reestruturado em 2021 e quatro anos depois após “rápida expansão”, o Banco Central decretou a sua liquidação extrajudicial, bem como de empresas ligadas ao grupo.
Em 18 de novembro de 2025 o navio afundou e de seus porões subiu toda sujeira acumulada na “rápida expansão” e surgiu a masterização, ou seja, as cópias modernizadas de inúmeras formas de corrupção, a maioria delas infectando o sistema político brasileiro que, a bem da verdade, sempre deixou a desejar.
O banco Master, tudo indica, é uma espécie de cartilha de como ser corrupto sem que se dê por isso, cartilha que vem dos tempos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Sarney, Collor, Temer, Bolsonaro et caterva…
A pergunta que não quer calar é mais ou menos óbvia: por qual razão não masterizar o que o ser humano tem de bom? Porque o ser humano é mau por natureza dirão os simplistas ou os mercadores da fé religiosa.
Mas ele não foi criado por Deus? E aí, como é que fica?
Dá-se um jeitinho!
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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