O mais estranho dos países, por Izaías Almada
Estava eu no apartamento da minha companheira Bernadette, na expectativa de assistirmos a um filme no Prime Vídeo, enquanto passava os olhos pelas lombadas de alguns livros da sua biblioteca, quando me deparei com um título que não conhecia: “O Mais estranho dos países”.
Qual não foi a minha surpresa ao puxar o livro para ver de que se tratava e descobrir ser uma obra de Paulo Mendes Campos um dos grandes contistas e escritores brasileiros do século XX (1922/1991). Livro editado pela Companhia das Letras.
Assim que terminamos de ver o filme, busquei o exemplar que havia deixado sobre uma mesinha ao lado e li uma deliciosa contracapa que me remeteu de imediato ao sumário da obra. Nova surpresa. Dois dos contos, nas páginas 82 e 85 traziam os títulos, “Belo Horizonte” e “Rua da Bahia” respectivamente…
E por ali iniciei a minha leitura, pois davam nomes à minha cidade natal e a uma das ruas que mais andei na minha infância e adolescência, coincidentemente cidade e rua que cito com muito carinho e saudade nas minhas memórias que vou escrevendo aos poucos.
No primeiro parágrafo do conto BELO HORIZONTE o autor escreve: “Como diz Machado de Assis, antecipando uma melancolia proustiana, as cidades mudam mais depressa que os homens. Belo Horizonte é para mim uma cidade soterrada. Em um prazo de vinte anos eliminaram a minha cidade e edificaram uma cidade estranha. Para quem continuou morando lá, essa amputação pode ter sido lenta e quase indolor; para mim foi uma cirurgia de urgência, feita a prestações, sem a inconsciência do anestésico”.
O Rio de Janeiro substituiu Belô, assim chamada carinhosamente por muitos que lá nasceram, pela cidade maravilhosa e cheia de encantos mil, onde viveu Paulo Mendes Campos muitos anos. No meu caso pessoal São Paulo foi a cidade da garoa que tomou meu coração e na qual tenho passando a maior parte da minha vida…
No outro conto, que leva por título RUA DA BAHIA, o autor conseguiu em poucas linhas dar o retrato fiel de um percurso que fiz em ônibus municipais durante os bons anos da minha juventude em que lá vivi, levando-me dos bairros Santa Tereza e Floresta até à porta principal do Colégio Izabela Hendrix, onde fiz o meu curso primário. Vejam que poética descrição:
“A vida é esta, descer Bahia e subir Floresta. Quem não morou em Belo Horizonte, ao ouvir o mineiro suspirar num momento de cansaço e bobice – a vida é esta, descer Bahia e subir Floresta – não há de entender, perdendo-se em noções de selva e estado. Nada disso. A vida é descer a rua da Bahia, que tinha dois ou três quarteirões de cidade grande, de prazer, depois que se atravessava o estirão da avenida Afonso Pena, a rua da Bahia caía em declive desagradável para o vale das estações da estrada de ferro, ficava desolada, comprida, estéril, acabando por subir sem fôlego e sem esperança o bairro da Floresta. Era a vida.”
Pelas saudades e lembranças de lugares e espaços que conheci tão bem, as lágrimas vieram-me aos olhos: os pais, amigos, familiares que desconheço e colegas de bairro e da escola, a primeira namorada mais pensada do que real, o América Futebol Clube e a Copa do Mundo de 1950, as trocas de figurinhas na Praça 7, o Parque Municipal…
Parece bobagem, não caro leitor? Mas não para alguém que não volta à sua cidade natal há quase cinquenta anos! Com certeza não mais a conheço e, se lá ainda for, creio que me sentirei uma espécie de arqueólogo do meu próprio passado na amada Belo Horizonte.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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