Considerações sobre o desenvolvimento e suas contradições
por Jairo Marchesan, Sandro Bazzanella e Cíntia Godoi
Neste artigo refletimos sobre aspectos históricos, políticos e conceituais do desenvolvimento e suas relações e contradições com e na sociedade, bem como, o desfecho de ideias e sugerimos a importância de considerarmos outras condições e possibilidades de convivência humana, especialmente aquelas que não se submetem ou que resistem aos imperativos da racionalidade instrumental ocidental da produtividade, do lucro e da exploração ilimitada das comunidades e do ambiente.
Para melhor compreendermos as relações e/ou intenções e ações de poder que se estabelecem nos diferentes contextos humanos e societários, é necessário ler, analisar e refletir sobre o que se denomina, ou se pretende denominar com o termo desenvolvimento, bem como, sobre a utilização da expressão no tempo e no espaço, que é reiteradamente anunciada na contemporaneidade.
O significado da palavra desenvolvimento é polissêmico, ambíguo, paradoxal, complexo, senão contraditório, tanto na sua origem quanto nas suas compreensões e possíveis aplicações. Na etimologia da Língua Portuguesa, a palavra desenvolvimento possui o prefixo Des, que significa negação ou ausência de + em = movimento para dentro + volver = reverter, virar; e mento = sufixo que significa ação. O próprio prefixo anuncia, expõe e depõe a contradição daquilo que nos é apresentado e divulgado; contudo, o termo, a expressão, senão a ideologia do desenvolvimento sempre foi ou é carregada de certa positividade. Na mesma direção, foi e é disseminado no senso comum a crença de que “desenvolvimento” é sinônimo de algo positivo, moderno, inovador, com potencial de futuro, de crescimento econômico, de soluções de problemas, de algo melhor e até fascinante.
Neste sentido, ao longo do percurso histórico, as narrativas ou ideologias do desenvolvimento se apresentam como promessas de algo melhor que pode acontecer e que, por isso, o discurso seja, talvez, tão sedutor, alcançando diretamente pessoas que almejam melhorar, progredir, “desenvolver-se” em suas condições pessoais, profissionais, de lazer e em outras situações.
É preciso reconhecer que na história da sociedade humana houve e continua havendo o desenvolvimento de atividades na busca pela sobrevivência ou para facilitar as relações de vida das pessoas. Além disso, houve desenvolvimento técnico de novos objetos e instrumentos técnicos que, inclusive, interferem nos modos de subjetivação de indivíduos e sociedades. As novas tecnologias facilitaram as atuações no exercício das atividades humanas. Foi, no entanto, a partir do contexto da modernidade ocidental, majoritariamente das sociedades europeias, que a palavra desenvolvimento passou a ser utilizada como um dispositivo à luz da economia política e a serviço de um projeto político e econômico, produzido pelos e nos países europeus, posteriormente pelos norte-americanos, e reproduzido e imposto violentamente não sem a conivência das elites políticas econômicas de povos e países planeta afora como estratégia também para ludibriar, dominar e explorar povos e territórios.
Dessa forma, as raízes do desenvolvimento amparam-se nos paradigmas da ciência moderna e na racionalidade técnica, científica e instrumental, e, consequentemente, na narrativa ideológica da sua infalibilidade. Além de estar associado à indústria, ao crescimento econômico e, por extensão, passando pela pilhagem colonialista, o desenvolvimento culmina com a afirmação do modo de produção capitalista de exploração e acumulação.
Assim, em tal contexto, o dispositivo do desenvolvimento, utilizado como um slogan, uma ideia força, mas, acima de tudo, como ideologia, foi propagado e potencializado majoritariamente pelos Estados, por políticos, economistas, capitalistas e seus asseclas, além dos burocratas, reproduzindo e reforçando concepções de progresso, de evolução, de crescimento econômico, da expansão de mercados de produtos e a serviço do nascente, emergente e hegemônico modo de produção capitalista.
A concepção do desenvolvimento estabeleceu, senão determinou e aprofundou diferenças políticas, sociais, sobretudo econômicas entre nações e territórios – países e povos ditos ou denominados de desenvolvidos e subdesenvolvidos, centrais e de periferia, do Norte e do Sul, industrializados e não industrializados, de primeiro, segundo ou terceiro mundo, dentre outros adjetivos. Todas essas denominações reforçam o caráter das metrópoles colonizadoras, das relações de poder dos opressores e dominantes em relação às colônias e povos oprimidos e dominados. Nesta direção, a palavra desenvolvimento continua se apresentando com a conotação da pretensa verdade, com a tendência de expressar algo positivo, que pode acontecer e melhorar a vida e gerar o bem-estar das pessoas.
Dito de outro modo, a palavra e as narrativas que envolvem o desenvolvimento foi, é e sempre será instigante e ambivalente, pois, indica que há algo que vem e denota a resolução dos problemas pessoais e da sociedade. Afinal, de modo geral, o desenvolvimento é apresentado na perspectiva de um dispositivo com o poder de resolver os problemas que se apresentam. Segundo as narrativas correntes, somente o desenvolvimento pode mudar a situação do pior para o melhor. Talvez seja por isso que é incorporada e difundida amplamente e de forma sistemática pelas mais amplas e distintas classes sociais, mesmo apagando, senão anulando as contradições de classes no interior do modo de produção e reprodução do capital. Sob tais contradições de classe, o desenvolvimento encontra “terreno fértil”, pois significa desejo de progredir, alcançar o poder desejado, a felicidade. Ou seja, se apresenta como uma promessa.
A partir da Segunda Guerra Mundial, a ideologia do desenvolvimento foi retomada e potencializada mundialmente para estimular a superação da crise do regime de acumulação capitalista e, também, para ampliar as emergentes relações de mercado. Com o passar do tempo, sobretudo nos últimos 40 anos, entre fins do século 20 e primeiras décadas do século 21, a ideologia do desenvolvimento assumiu diferentes contornos, adjetivações e concepções, dentre os quais, sustentável, comunitário, local, regional, territorial e, ainda, como variantes da governança, da economia verde, da gestão e da eficiência do uso de recursos – humanos e naturais.
É também neste período que é apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU) os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecendo metas globais voltadas à sustentabilidade, à qualidade de vida e à preservação ambiental. Todas essas variáveis em suas nomenclaturas apresentam-se travestidas de sonoras e falaciosas cantilenas, ou de fervorosos discursos vinculados aos aspectos economicistas da produtividade e da exploração humana e dos bens naturais e do capital, para sua acumulação e reprodução. Afinal, estão em jogo os processos ou a lógica de reprodução e acumulação do capital!
Na atualidade, as consequências dessa proposta desenvolvimentista do crescimento econômico ilimitado, da exploração intensa, sistemática e infinita da natureza, da subserviência e violência sobre povos e territórios, gerou recorrentes conflitos e guerras, além da miséria, da fome, da exaustão dos bens naturais, dos passivos ambientais e dos impasses nas relações da sociedade humana entre si e desta com os bens naturais.
O fato inconteste e perturbador é que os Organismos internacionais, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU), os de cooperação para o desenvolvimento, tais como, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de filantropia e até religiosas, dentre outras, não conseguem se impor, frear as guerras e conflitos, nem resolver ou minimamente atenuar os impactos dessa lógica ou modelo de desenvolvimento.
Outra questão, são as propostas e resoluções das grandes cúpulas, conferências ou reuniões dos países, não avançam ou não são colocadas em prática. Por isso, é preciso questionar tais eventos. Não seria o desenvolvimento mais um fetiche? Sobre isso, Gilbert Rist questiona: “Como pensar num remédio que pode piorar o que se quer combater?”.
É preciso dizer que mesmo quando houve crescimento econômico nos países ou em âmbito internacional, não resolveu, nem atenuou certos problemas sociais, muito menos ambientais. Pelo contrário, as questões ambientais pioraram! Por isso, pode-se afirmar que o discurso do desenvolvimento se apresenta como ilusão. Por vezes, a economia passou a ser considerada uma “ciência racional”, – que explica tudo – a poderosa, inclusive dita ou pretensamente científica. Esse tipo de economia é enganosa, equivocada, de tendência destrutiva, senão, suicida!
Desde logo, vê-se o desenvolvimento na condição de problema e também como dilema; logo, uma panaceia. Assim, o propalado discurso da ideologia de desenvolvimento econômico, associado ao bem-estar humano, converteu-se numa narrativa mítica e insustentável, visto que as consequências desse “modelo” de desenvolvimento expõem, de forma explícita e trágica, suas contradições, impasses, conflitos, guerras e a insustentabilidade ambiental.
Para Gilbert Rist, “El ‘dessarollo’ és como una estrella muerta de la que se percebi todavía la luz aunque esté apagada desde hace mucho tiempo y para siempre” (2002, p. 10). “O desenvolvimento é como uma estrela morta, cuja luz todavia se percebe, ainda que esteja apagada há muito tempo e para sempre”. (Tradução livre)
O “modelo” de desenvolvimento em curso também possibilitou intensas, senão diuturnas relações e interações dos sujeitos com o mercado. Mais recentemente, relações com os ecossistemas de sites, redes que “bombardeiam” sistematicamente os indivíduos.
É importante explanar que muitas situações dessas até parecem “facilitar” a vida das pessoas. No entanto, tudo isso captura o sujeito, torna-o um subordinado, manietado e dominado pelo sistema técnico-científico informacional, e aprofunda o crescimento das desigualdades de toda ordem.
Diante disso, pergunta-se: Será que ainda há motivos para dizer que o desenvolvimento vai melhorar a vida das pessoas e do ambiente? Vivemos tempos estranhos, sombrios, assustadores, apavorantes e, portanto, convivemos com as mais diversas formas de medo socialmente reproduzidas diuturnamente. Presenciamos chefes de Estados sequestrados de suas funções, populações e povos assustados, temendo ameaças de invasão e destruição de seus territórios. Além disso, alguns Estados, conduzidos pelos interesses do capital, agem como bandidos ou terroristas, valendo-se da força para eliminar crianças, mulheres, idosos e pessoas indefesas, com atitudes semelhantes ou piores do que as ocorridas no holocausto nos genocídios promovidos pelos nazistas nos campos de concentração durantre a Segunda Guerra. Prova disso é o que acontece na Palestina, na Ucrânia e em outros lugares do mundo. Isso tudo está acontecendo em nome de um regime de acumulação e da necessidade do crescimento econômico a qualquer custo, de manter o propalado desenvolvimento.
Mas, que desenvolvimento é esse? Para quem? A que custo? Trata-se de uma reflexão na perspectiva da necessidade de melhor conhecer e reconhecer a realidade, da importância de pensar e agir para a construção ou reconstrução de uma sociedade fundada nos princípios da cooperação, da solidariedade, da paz, da harmonia, seja da sociedade entre si e desta com a natureza. Enfim, de nos desafiarmos a pensar e articular noutras perspectivas de desenvolvimento e de uma sociedade melhor para as gerações atuais, bem como, assumir a responsabilidade em deixar um mundo habitável para as futuras gerações.
Referências
RIST, Gilbert. El desarrollo: historia de una creencia occidental. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2002.
Autores:
Dr. Jairo Marchesan. Geógrafo e Professor.
Dr. Sandro Luiz Bazzanella. Filósofo e Professor.
Drª. Cíntia Neves Godoi. Geógrafa e Professora.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário