15 de junho de 2026

Dossiê Ditadura 8: A fantástica tese de Cavalcanti (com i) sobre a morte de JK

Tese é uma reconstituição comovente dos desejos de um homem que morreu no impacto e não deixou depoimento. Digna de Chico Xavier.
Óleo de Tom McGrath

José Paulo Cavalcanti Filho defende que Juscelino Kubitschek não sofreu colisão com ônibus antes do acidente fatal.
Investigação independente e testemunhas negam batida entre Opala de JK e ônibus da Viação Cometa na Dutra.
Cavalcanti, ex-membro da CNV, mantém tese de acidente, ignorando evidências de crimes políticos da ditadura.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O jurista — e imortal — José Paulo Cavalcanti Filho, que gosta de sublinhar que é Cavalcanti com i, volta à carga com um segundo artigo para desmontar a tese de que Juscelino Kubitschek foi assassinado no acidente da Dutra. O texto é elegante, como tudo o que ele escreve. Mas se apoia, do começo ao fim, em duas coisas que um ex-presidente do CADE deveria reconhecer de longe: erro de informação e suposição.

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A suposição vem primeiro, e é de tirar o chapéu. Cavalcanti reconstrói, passo a passo, o que teria se passado na cabeça do motorista de JK, Geraldo Ribeiro, nos segundos finais. Depois de bater no ônibus, o Opala teria se desgovernado, cruzado o canteiro central e avançado pela pista contrária; ali, “passado o breve instante de torpor”, o motorista teria reagido virando à direita para não entrar no mato, com receio de furar um pneu, querendo passar à esquerda do caminhão pelo acostamento e retomar a viagem — “assim pensou”, escreve Cavalcanti —, e só não conseguiu “por azar, muito azar”. É uma reconstituição comovente dos desejos de um homem que morreu no impacto e não deixou depoimento. Digna de Chico Xavier. O que ela não tem é uma única medida de ângulo, massa ou velocidade — que é do que se faz um laudo, e não da psicografia da vontade do morto.

Mas o problema central não é o método. É o fato. Toda a arquitetura do artigo se ergue sobre um primeiro acidente: a batida do Opala de JK num ônibus da Viação Cometa, que teria desencadeado tudo o que veio depois. Cavalcanti a dá por certa — “há fotos com marcas das tintas, provando essa batida”, “basta ver as fotos”. Só há um detalhe. E não é qualquer detalhe: é o detalhe que derruba o edifício inteiro.

Não houve a primeira colisão com o ônibus da Cometa.

Antes mesmo de a Comissão Nacional da Verdade concluir pela tese do acidente, o motorista já havia sido absolvido em primeira e em segunda instância da acusação de tê-lo provocado. Nove passageiros do Cometa testemunharam que não houve colisão nem esbarrão. E uma investigação posterior do Ministério Público Federal recorreu a um perito de reputação, cujo laudo desmontou as conclusões dos peritos oficiais em dois pontos que não deixam margem: a tinta que aparecia no carro de JK não era do ônibus; e o trajeto percorrido pelo Opala era incompatível com a suposta batida no Cometa.

Retirado o primeiro acidente, o que resta da reconstrução de Cavalcanti? Nada. O desgoverno após a batida, a travessia do canteiro, o motorista virando à direita “no desejo de retomar sua viagem”, o azar da carreta Scania com trinta toneladas de gesso na pista contrária — toda a sequência depende de um evento inicial que a Justiça, as testemunhas e a perícia independente dizem não ter ocorrido. É uma corrente de causas pendurada no vazio.

O argumento da geografia — “fosse atentado, seria numa curva junto a um precipício”, e não numa reta plana — vira-se contra quem o usa: uma operação feita para passar por acidente escolhe, justamente, o cenário de um acidente banal, com reta, planura e testemunhas de boa-fé. A grosseria aparente é o disfarce, não o álibi.

Há mais, e é aqui que o silêncio pesa. Cavalcanti deixou de fora, ao tempo da CNV, e repete a omissão agora, um conjunto inteiro de evidências sobre os crimes políticos da ditadura. Não pergunta por que JK fez aquela viagem de carro. Não pergunta por que, pouco antes da batida, ele parou num hotel — o Villa-Forte — que pertencia a um coronel ligado à linha dura do Exército. Ignora as cartas enviadas a João Baptista Figueiredo pelo general Manuel Contreras, chefe da repressão chilena, nas quais o general Letelier e JK eram apontados como as grandes ameaças à continuidade do regime. Letelier e JK morreram logo depois. Como, na mesma janela, morreram Carlos Lacerda, João Goulart, Zuzu Angel. Uma série. Parte relevante desses fatos esteve à disposição da CNV — e foi ignorada.

Daí a pergunta que importa, e que não é sobre JK, é sobre a Comissão. O que explica, à luz de tudo o que hoje se sabe, a insistência de Cavalcanti com i na hipótese de acidente? Ele não é um comentarista qualquer que opina de fora: foi membro da Comissão Nacional da Verdade. O relatório que concluiu pelo acidente é, em parte, obra sua. Quando alguém que assinou a conclusão volta, anos depois, para defendê-la com uma reconstituição psicográfica e fotos de uma batida que não houve, o que se está defendendo não é mais uma tese — é uma assinatura.

Há algo de podre no relatório da CNV nesse ponto. E seria de enorme relevância que outros de seus membros saíssem a campo para explicar essa falha — que não é detalhe, é falha essencial. JK não merecia o “Deus sem nome” de Fernando Pessoa, de que Cavalcanti é biógrafo premiado. Merecia um laudo. E o laudo, esse, ainda está sendo escrito.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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