15 de junho de 2026

Fiscalismo, dominância financeira e a disputa pelas expectativas no Brasil, por Mauricio Luperi

Até que ponto o fiscalismo passou a monopolizar a interpretação dos problemas econômicos brasileiros, obscurecendo outras dimensões?
Vassily Kandinsky

Desde 1999, o fiscalismo domina o debate econômico brasileiro, atribuindo problemas à situação fiscal do Estado.
A dominância financeira e epistêmica influenciam políticas públicas e consolidam interpretações centradas no déficit fiscal.
Banco Central sofre captura indireta por expectativas de agentes econômicos, mantendo juros altos e impacto distributivo.

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Fiscalismo, dominância financeira e a disputa pelas expectativas no Brasil

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por Mauricio Luperi

Desde a implantação do Regime de Metas de Inflação (RMI), em 1999, o debate econômico brasileiro passou a ser fortemente influenciado por uma narrativa que atribui ao desequilíbrio fiscal a principal origem dos problemas econômicos nacionais. Inflação, juros elevados, baixo crescimento, desvalorização cambial e instabilidade financeira passaram a ser frequentemente interpretados como consequências diretas ou indiretas da deterioração das contas públicas.

Essa visão, que pode ser denominada fiscalismo, tornou-se dominante no debate econômico nacional. Não se trata apenas de uma escola de pensamento econômico, mas de uma forma específica de interpretar a realidade, na qual praticamente todos os fenômenos econômicos relevantes são explicados a partir da situação fiscal do Estado.

O problema não está em reconhecer a importância das contas públicas. Qualquer economia moderna necessita de responsabilidade fiscal. A questão é outra: até que ponto o fiscalismo passou a monopolizar a interpretação dos problemas econômicos brasileiros, obscurecendo outras dimensões igualmente relevantes?

A dominância financeira

Autores como François Chesnais, Gérard Duménil, Dominique Lévy e Costas Lapavitsas desenvolveram o conceito de dominância financeira para descrever situações em que a lógica financeira passa a exercer influência crescente sobre a organização da economia.

Nessas circunstâncias, variáveis como rentabilidade financeira, liquidez, credibilidade perante investidores e expectativas dos mercados passam a ocupar posição central na formulação das políticas públicas.

A economia real — produção, investimento, emprego, inovação e desenvolvimento tecnológico — tende a ser subordinada aos objetivos de estabilidade financeira.

No Brasil, esse fenômeno adquire características próprias em razão da combinação entre juros estruturalmente elevados, elevado peso da dívida pública e forte influência do mercado financeiro sobre o debate econômico.

A dominância epistêmica

Entretanto, a dominância financeira não opera apenas por meio dos mercados.

Ela também depende da construção de consensos intelectuais.

É nesse contexto que proponho o conceito de dominância epistêmica.

Por dominância epistêmica entende-se a capacidade de determinados grupos de influenciar quais interpretações da realidade econômica serão consideradas legítimas, científicas ou responsáveis.

Essa influência é exercida por meio de universidades, consultorias, instituições financeiras, organismos internacionais, colunistas econômicos, editoriais da imprensa e especialistas frequentemente convidados para comentar a conjuntura econômica.

Não se trata necessariamente de coordenação consciente. Trata-se de um ambiente institucional no qual determinadas interpretações são continuamente reforçadas, enquanto outras são marginalizadas.

O resultado é a formação de um consenso aparente segundo o qual problemas econômicos complexos passam a possuir uma única explicação aceitável: a questão fiscal.

A autonomia capturada

É nesse ambiente que surge o conceito de autonomia capturada.

O Banco Central brasileiro possui autonomia formal. Contudo, autonomia formal não significa independência efetiva em relação às estruturas de poder existentes na sociedade.

Quando as expectativas produzidas por determinados agentes passam a exercer influência sistemática sobre as decisões da autoridade monetária, cria-se um mecanismo de captura indireta.

O Banco Central continua juridicamente autônomo, mas suas decisões passam a ser fortemente condicionadas pelas expectativas e interpretações produzidas por um conjunto relativamente restrito de agentes econômicos.

Essa captura não ocorre por imposição direta, mas por influência cognitiva e institucional.

O problema das expectativas

O caso do Boletim Focus é ilustrativo.

O relatório tornou-se uma das principais referências para a condução da política monetária brasileira.

Entretanto, uma questão raramente discutida é a qualidade preditiva dessas expectativas.

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, as projeções de inflação frequentemente apresentaram desvios relevantes em relação aos resultados efetivamente observados.

Mais importante ainda é a assimetria existente na resposta da política monetária.

Quando ocorre um choque cambial, uma elevação temporária de preços administrados ou qualquer evento capaz de elevar as expectativas inflacionárias, a resposta do Banco Central costuma ser rápida e contundente.

Por outro lado, quando as expectativas são revisadas para baixo ou quando a inflação converge para patamares menores, o processo de redução dos juros tende a ocorrer de forma mais lenta e cautelosa.

Essa assimetria produz um viés estrutural em favor da manutenção de juros elevados.

Quem ganha com isso?

Juros elevados possuem custos significativos para a sociedade.

Reduzem investimentos produtivos.

Desestimulam projetos de longo prazo.

Aumentam o custo do crédito.

Elevam o custo de carregamento da dívida pública.

Freiam a expansão da atividade econômica.

Por outro lado, aumentam a rentabilidade dos ativos financeiros.

Não se trata de afirmar que toda decisão monetária visa beneficiar o sistema financeiro.

Trata-se de reconhecer que diferentes grupos sociais são afetados de maneira distinta pelas decisões de política monetária.

Essa dimensão distributiva frequentemente desaparece do debate público.

O papel da imprensa econômica

A imprensa econômica desempenha papel central nesse processo.

A seleção das fontes entrevistadas, dos indicadores destacados e dos riscos considerados relevantes influencia diretamente a percepção da sociedade.

Quando previsões pessimistas do mercado recebem ampla cobertura e interpretações alternativas recebem pouca atenção, cria-se um ambiente favorável à reprodução da dominância epistêmica.

Mais uma vez, não é necessário supor conspirações.

Basta reconhecer que a repetição contínua de determinadas narrativas contribui para consolidá-las como verdades aparentes.

O debate econômico brasileiro precisa superar a falsa dicotomia entre responsabilidade fiscal e irresponsabilidade fiscal.

O verdadeiro desafio consiste em construir uma discussão mais plural, capaz de incorporar não apenas a dimensão fiscal, mas também questões relacionadas à estrutura produtiva, investimento, inovação, produtividade, distribuição de renda e desenvolvimento de longo prazo.

A dominância financeira depende da dominância epistêmica para se reproduzir.

E ambas ajudam a explicar por que, em um país que convive há décadas com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, o debate econômico continua frequentemente concentrado em uma única variável: o déficit fiscal.

Talvez seja hora de ampliar as perguntas.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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