Julian Barnes e o Prêmio Princesa de Astúrias
Ou
A Literatura a serviço do Império
por Franklin Frederick
No último dia 10 deste mês a Fundação Princesa de Astúrias anunciou que o seu prêmio de Letras de 2026 foi concedido ao escritor britânico Julian Barnes.
Como informa em seu site oficial, a “Fundação Princesa de Astúrias é uma instituição privada sem fins lucrativos, cujos objetivos são contribuir para a valorização e promoção de todos os valores científicos, culturais e humanísticos que constituem patrimônio universal, bem como consolidar os laços existentes entre o Principado de Astúrias e o título que tradicionalmente ostentam os herdeiros da Coroa de Espanha.
Sua Majestade, o Rei Dom Felipe VI, é Presidente de Honra da Fundação desde a sua criação, em 1980. Após sua proclamação como Rei de Espanha, em 19 de junho de 2014, Sua Alteza Real, a Princesa Leonor de Borbón e Ortiz, a Princesa das Astúrias, ocupa a Presidência de Honra desta Instituição, que concede anualmente os Prêmios Princesa de Astúrias.
Destinados a premiar o trabalho científico, técnico, cultural, social e humanitário realizado por pessoas, instituições, grupos de pessoas ou de instituições no âmbito internacional, são concedidos em oito categorias: Artes, Letras, Ciências Sociais, Comunicação e Humanidades, Pesquisa Científica e Técnica, Cooperação Internacional, Concórdia e Esportes.
Os prêmios são entregues em uma cerimônia solene anual que ocorre em outubro, no Teatro Campoamor,em Oviedo.
A cerimônia de entrega dos prêmios é considerada um dos eventos culturais mais importantes da agenda internacional. Ao longo de sua história, esses prêmios receberam diversos reconhecimentos, como a declaração extraordinária que a UNESCO fez em 2004 por sua contribuição excepcional ao patrimônio cultural da Humanidade.” (1)
No mesmo site, a Fundação também informa que ao escolher Julian Barnes, o júri “destacou sua condição de extraordinário contista e ensaísta, dotado de humor, ironia e de um “otimismo melancólico e um pessimismo alegre”, segundo suas próprias palavras. Barnes oferece uma visão lúcida, calorosa e compassiva do gênero humano, e utiliza a memória como formadora de identidade sem abrir mão da imaginação, tendo o amor como princípio essencial.
Sua obra reelabora, com um olhar europeísta, a história da literatura, da arte, da música e até mesmo da gastronomia, até alcançar um estilo único, que o destaca dentro de uma geração de autores britânicos especialmente brilhantes, que marcou a literatura contemporânea.” (2)
Por fim, a Fundação destaca que Julian Barnes é “comprometido com os direitos humanos, ele participa das organizações Freedom from Torture e Dignity in Dying. Além dos prêmios já mencionados, em 2021 recebeu o Prêmio Jerusalém e, entre outros, o E. M. Forster da Academia Americana de Artes e Letras (1986), o Prêmio Femina étranger por *Hablando del asunto* (França, 1992), o Prêmio Estatal da Áustria de Literatura Europeia (2004) e o Prêmio David Cohen de Literatura (Reino Unido, 2011). É Cavaleiro das Artes e das Letras da França (2004).” (3)
Julian Barnes é de fato um bom escritor que se tornou conhecido internacionalmente com a publicação em 1984 de seu terceiro romance, “O Papagaio de Flaubert”, em que mistura vários gêneros, da biografia ao ensaio.
O prêmio Princesa de Astúrias de Letras de 2026 teve 37 candidaturas provenientes de 24 nacionalidades e entre estas pode haver outros escritores e escritoras tão merecedores do prêmio quanto Julian Barnes. A fundação não divulga os nomes dos outros candidatos e candidatas ao seu prêmio de Letras e deste modo não temos como julgar se a escolha foi a mais acertada. O fato é que o júri decidiu premiar um bom escritor que , tristemente, também escolheu fechar os olhos para os crimes do Império.
O Ruído do Tempo
Em 2016 Julian Barnes publicou seu romance ‘O Ruído do Tempo’. Em 2012 Julian Assange, jornalista e fundador do site Wikileaks, perseguido por suas revelações sobre os crimes do Império, buscou proteção e asilo na sede da Embaixada do Equador em Londres. Julian Barnes é um cidadão britânico, mora em Londres e enquanto escrevia O Ruído do Tempo, o outro Julian, o Assange, se encontrava já literalmente preso nas dependências da Embaixada do Equador, de onde não podia sair para não ser preso de fato e extraditado para os EUA onde correria risco de vida e de um longo período na prisão.
O Ruído do Tempo é uma biografia romanceada do compositor russo Dimitri Shostakovich, sobretudo sobre o período em que ele viveu na URSS sob Stalin. O livro é repleto de informações reais sobre a vida de Shostakovich que sofreu sob a esquizofrenia autoritária de Stalin que ora o premiava como o maior compositor da URSS, ora o perseguia e o impedia de executar suas músicas, como foi sobretudo o caso de sua ópera Lady Macbeth de Mtsenk, a obra que desencadeou as suspeitas do regime stalinista sobre a “lealdade” de Shostakovich.
Quando de sua publicação, O Ruído do Tempo foi amplamente elogiado pela crítica no Reino Unido.
No livro, Julian Barnes diz o seguinte sobre Shostakovich:
“Ele admirava aqueles que se levantavam e diziam a verdade ao Poder. Ele admirava a coragem e a integridade moral deles.”
Sendo assim, Shostakovich teria sido um admirador de Julian Assange. Barnes, ao contrário, nunca se pronunciou em defesa de Assange ou apoiou sua luta.
Uma outra demonstração de esquizofrenia: um escritor inglês escreve sob os sofrimentos de um compositor russo sob o stalinismo na Rússia ao mesmo tempo em que se cala sob os sofrimento e a perseguição a um jornalista seu contemporâneo em sua cidade e diante de seus olhos! Pior ainda, a imprensa que tão calorosamente saúda a aparição do livro e de sua denúncia, também se cala sobre o caso muito mais grave de Julian Assange! E aparentemente ninguém sequer percebe a contradição!
Parece que Assange, por não ser um artista, como Shostakovich, não merece a mesma atenção. Porém o caso de Assange é muito mais grave do que o de Shostakovich pois envolve a revelação de FATOS sobre o Poder – com P maiúsculo, como Barnes escreve em seu livro – e não julgamentos subjetivos sobre se uma música é ou não “antirevolucinária”.
Em O Ruído do Tempo, Julian Barnes manifesta sua solidariedade com Shostakovich e expressa toda sua indignação diante da perseguição que ele sofreu, solidarieade e indignação que Assange não mereceu de Barnes.
Em seu livro Barnes escreveu, denunciando o stalinismo:
“Medo: o que sabiam aqueles que o infligiam? Sabiam que funcionava, e até mesmo como funcionava, mas não sabiam como era a sensação.”
Provavelmente Assange teve muito mais medo e durante muito mais tempo do que Shostakovich pois a perseguição que ele sofreu foi muito maior. Assange permaneceu trancado na Embaixado do Equador de agosto de 2012 até abril de 2019, quando a polícia de Londres, com a permissão do governo do Equador, entrou na Embaixada e o prendeu. Shostakovich nunca foi preso e mesmo com todas as humilhações que sofreu, pôde continuar compondo. Se a luta de Shostakovich foi pela liberdade de expressão, a de Assange foi pela não menos importante e fundamental liberdade de informação.
E se o stalinismo conhecia e sabia como fazer funcionar o mecanismo do medo, o Império também sabe. A perseguição implacável ao Assange sempre teve também como objetivo causar o medo em todos aqueles e aquelas que pensassem seguir o mesmo caminho: as consequências seriam devastadoras.
Julian Barnes escreveu em seu livro:
“E sim, a música pode ser imortal, mas os compositores, infelizmente, não são. Eles são facilmente silenciados e ainda mais facilmente mortos.”
Jornalistas também são facilmente silenciados e ainda mais facilmente mortos, uma verdade óbvia que parece ter escapado ao escritor Julian Barnes.
Esta outra passagem em O Ruído do Tempo é muito reveladora:
“Mas o que mais o (Shostakovich) revoltava eram os famosos humanitários ocidentais que vinham à Rússia e diziam aos seus habitantes que viviam no paraíso. Malraux, que elogiava o Canal do Mar Branco sem nunca mencionar que seus construtores eram levados à morte por excesso de trabalho. Feuchtwanger, que bajulava Stalin e “compreendia” como os julgamentos públicos eram uma parte necessária do desenvolvimento da democracia. O cantor Robeson, que aplaudia ruidosamente os assassinatos políticos. Romain Rolland e Bernard Shaw, que lhe causavam ainda mais repulsa porque tinham a ousadia de admirar sua música enquanto ignoravam como o Poder o tratava, assim como a todos os outros artistas.”
No trecho acima, Barnes não sentiu a necessidade de informar que Malraux, Fuechtwanger, Romain Rolland e Bernard Shaw eram todos escritores, assumindo que seus leitores saberiam disso. No entanto, Barnes sentiu que era necessário informar que Robeson era um cantor, pois ao contrário dos outros talvez seus leitores não soubessem quem era Robeson.
No entanto, Paul Robeson foi uma das personalidades mais extraordinárias do século XX. Da década de 30 até os anos 60 o cantor , ator e ativista afro-americano Paul Robeson era conhecido em praticamente todo o mundo. Seu “esquecimento” é mais uma prova do poder do Império de fazer “desaparecer” da memória coletiva todos ou todas que o desafiam.
Paul Robeson começou a ficar conhecido primeiramente como ator representando em peças de Eugene O’Neill no final dos anos 10. Foi sobretudo em Londres, no final dos anos 20, que Robeson ficou famoso pelas suas interpretações no musical Show Boat e em Othello, de Shakespeare. Robeson viveu vários anos em Londres onde começou sua atividade política junto à trabalhadores desempregados e ao movimento antiimperialista. Apoiou a causa Republicana durante a guerra civil espanhola e a convite do cientista britânico J.B. S. Haldane visitou a Espanha em 1938 onde cantou para combatentes feridos no hospital de Benicassim. Robeson também se engajou na luta pela independência das colônias africanas. Ele viveu em Londres até o início da Segunda Guerra Mundial e seu nome constava na famosa Sonderfahndungsliste G.B. – Lista Especial de Busca da Grã-Bretanha – onde estavam os nomes das pessoas a serem imediatamente presas quando os nazistas invadissem a Inglaterra. Em 1934, a convite de Serguei Eisenstein, Robeson visitou a URSS pela primeira vez e ao chegar em Moscou declarou:
“Aqui, pela primeira vez na vida, não sou um negro, mas um ser humano… Ando com toda a dignidade humana.”
Em O Ruído do Tempo Barnes apresenta uma visão totalmente negativa da URSS. Mas para Afro-Americanos como Paul Robeson, Sidney Bechet e muitos outros que também estiveram lá, a URSS era uma oásis de paz, um lugar onde podiam andar nas ruas em companhia de mulheres brancas sem correrem o risco de serem assassinados por linchamento. Em 1936 Robeson enviou seu filho para estudar na URSS para protegê-lo do racismo. Robeson foi amigo de Albert Einstein durante quase 20 anos, desde 1935, quando Einstein foi cumprimentá-lo no camarim após um concerto e ambos descobriram uma afinidade que os uniria: o ódio ao fascismo.
Em 1946, num encontro com o Presidente dos EUA ,Harry Truman, Robeson disse que caso o governo não aprovasse uma legislação para acabar com os linchamentos,“ os negros vão se defender a si mesmos”. Robeson fundou a Associação Americana contra o Linchamento. Malcolm X e o Partido Black Panther foram herdeiros de Paul Robeson.
Nos anos 50 Robeson foi uma das vítimas da perseguição macarthista. Seu passaporte foi confiscado, ele foi proibido de viajar, foi quase totalmente impedido de trabalhar, sua renda caiu a níveis mínimos. Seu passaporte foi devolvido somente em 1958, quando ele pode retornar à Europa.
Paul Robeson mereceria um romance como o que Julian Barnes dedicou à Shostakovich. Mas parece que há muito mais simpatia pelas vítimas das perseguições stalinistas do que pelas vítimas das perseguições imperiais.
Julian Barnes dá a entender que as perseguições aos artistas aconteciam apenas na URSS. O que dizer sobre os artistas nos EUA – diretores, roteiristas, atores, atrizes,escritores, músicos – perseguidos pelo macarthismo, impedidos de trabalhar, muitos reduzidos à miséria? Nem Charles Chaplin escapou dessas perseguições, teve que fugir dos EUA e se estabecer na Suíça.
Em seu livro Barnes conta o episódio da visita de Shostakovich organizada pela URSS aos Estados Unidos. Nessa ocasião, Shostakovich foi obrigado a ler um discurso em que, entre outras coisas, repudiava a música do anticomunista Igor Stravinsky. Shostakovich se envergonhou por toda a vida dessa gesto, como relata Barnes. Durante o macarthismo, muitos artistas foram obrigados não apenas a repudiar publicamente a obra de seus colegas, mas também a denunciá-los para que estes também entrassem na máquina de moer existências e reputações que foi o macarthismo.
E a perseguição , a fúria do Império que hoje ataca sem piedade todos os que o desafiam? Em Londres, aqueles que atrevem a se manifestar em defesa do aterrorizado povo palestino são acusados de terrorismo!Não é por acaso que Orwell era inglês…
Esta indignação seletiva é intrínseca à servitude imperial: pode-de, deve-se mesmo se indignar pela situação das crianças na Ucrânia, mas ignora-se o sofrimento das crianças palestinas.
Quando ocorrem no Império, as perseguições políticas e a violência contra as vozes discordantes são sempre tratadas como “exceções”, “erros” normalmente passageiros de um sistema basicamente justo. As mesmas perseguições e a mesma violência em locais considerados hostis pelo Império são prova de um regime totalitário e fundamentalmente opressor, inimigo da própria humanidade.
Em ‘O Ruído do Tempo’ Julian Barnes nos apresenta um dos algozes de Shostakovich, Tíkhon Khrennikov, Primeiro-Secretário da União dos Compositores da URSS no tempo de Stalin:
“Tikhon Khrennikov viveria para sempre, um símbolo permanente e indispensável do homem que amava o Poder e sabia como fazer para que ele o amasse de volta.”
Khrennikov é aquele que está disposto a tudo para agradar ao Poder e assim manter a sua posição, é ao mesmo tempo servidor e sustentáculo do Poder, pois este precisa dos Khrennikovs.
Ao final do livro, nas Notas do Autor, Julian Barnes enumera suas fontes biográficas e comenta:
“Khrennikov nunca saiu de cena, nem perdeu seu amor pelo poder: em 2003, foi condecorado por Vladimir Putin.”
A implicação é clara: ao condecorar Khrennikov, Vladimir Putin representa a continuidade do sistema stalinista e a Rússia de Putin é a continuação da maligna URSS…
Deste modo a indignação seletiva nem sequer é indignação de verdade, mas apenas um meio para cortejar o Poder ajudando a legitimar suas narrativas. Com O Ruído do Tempo Julian Barnes repetiu e legitimou a narrativa imperial sobre a Rússia e alimentou a Russofobia tão importante para a classe dominante européia continuar as suas políticas de austeridade e se manter no poder. Ao mesmo tempo, fechou os olhos para os abusos, as violências e as perseguições do Império. Não seria este , justamente, o comportamento de um Khrennikov?
Foi concedido a ele o prêmio Princesa de Astúrias. O Poder o ama de volta.
Franklin Frederick é ativista ambiental
- https://www.fpa.es/es/la-fundacion/fundacion-princesa-de-asturias/
- https://www.fpa.es/es/premios-princesa-de-asturias/premiados/2026-julian-barnes/?texto=acta
- https://www.fpa.es/es/premios-princesa-de-asturias/premiados/2026-julian-barnes/?texto=trayectoria
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