Como a literatura fez de mim um atleta
Homenagem ao dia Mundial do Livro 23 de Abril
por Franklin Frederick
Tudo começou com o Monteiro Lobato.
Caçadas de Pedrinho foi a primeira grande leitura da minha infância. Depois vieram Reinações de Narizinho, A Chave do Tamanho, O Picapau Amarelo e todos os outros. Ainda hoje, tantos anos depois, lembro com muita nitidez da alegria intensa e concentrada com que eu lia estes livros, das tardes inteiras que passei com eles, sem esforço ou cansaço.
Júlio Verne veio em seguida e foi então o tempo das aventuras em lugares distantes e maravilhosos: Miguel Strogoff, A Ilha Misteriosa, Vinte Mil Léguas Submarinas … O mundo ficava maior e eu crescia.
Os Meninos da Rua Paulo do húngaro Ferenc Molnár foi o último livro da minha infância e à época das aventuras sucedeu o tempo da ternura : quem poderia jamais esquecer de Clarissa, do Érico Veríssimo? Ou de O Amanuense Belmiro do Cyro dos Anjos? Ou ainda de O Feijão e o Sonho do sempre admirável Orígenes Lessa ?
E aí aconteceu o encontro decisivo com Machado de Assis. Lendo as Memórias Póstumas de Brás Cubas eu tive, pela primeira vez, a certeza instintiva e imediata de que aquilo era algo grandioso e incomum, um acontecimento novo e inesperado no mundo.
Depois, muito depois, já adulto, percebi que não conseguia mais ler com aquela mesma intensidade . O interesse pelos livros continuava o mesmo, embora com o trabalho e as outras obrigações eu tivesse agora bem menos tempo. O problema não era a falta de tempo, era a qualidade da atenção que antes era tão mais completa. Bastavam alguns minutos sentado e lá me vinha uma inquietação que não me deixava ler sossegado. Achei que devia ser falta de exercício e comecei a nadar todo dia pela manhã. A mudança foi surpreendente, aquela inquietação desapareceu e eu recuperei a qualidade da minha atenção e podia ficar de novo lendo por horas sem interrupção!
Foi nesse período que eu li todos os romances e contos do Lima Barreto, as deliciosas Memórias de um Sargento de Milícias do Manuel Antonio de Almeida e que comecei a ler Dickens e Balzac. Tudo parecia ir muito bem até que eu decidi ler os autores russos. Já nas primeiras páginas de A Morte de Ivan Ilitch senti um cansaço enorme. Eu não estava preparado para ler Tolstói. Além de nadar passei a fazer 150 flexões e 250 abdominais todos os dias e graças a este treinamento adicional em pouco tempo eu pude ler não só Tolstói, mas também Turgueniev e Gogól !
Quando eu comecei a ler Crime e Castigo porém, voltaram o cansaço e uma enorme dificuldade de manter a atenção. Novamente senti que meu preparo não era suficiente, Dostoievski exigia mais, porém o quê? Não demorei a encontrar a resposta: halterofilismo. Entrei numa academia e comecei a levantar pesos pelo menos três vezes por semana. O halterofilismo me ajudou a conseguir finalmente ler Os Irmãos Karamazov, Os Demônios e O Idiota.
Não tive problemas depois para ler Os Buddenbrook, A Montanha Mágica e O Doutor Fausto do Thomas Mann. As leituras fluiam e eu passei a adorar os domingos de chuva que me davam o pretexto ideal para ficar em casa lendo por horas a fio, sem culpa.
Por causa do Doutor Fausto e de todas as alusões à vida do Nietzsche que Thomas Mann colocou nesta sua maior obra, fiquei curioso de ler alguma coisa deste solitário pensador alemão. Desta vez me preparei bem antes. O que mais se precisa para ser um bom leitor de filosofia é elasticidade, por isso passei a dedicar pelo menos meia hora todos os dias a fazer alongamento e só depois de algumas semanas dessa prática é que decidi tentar ler o Assim Falou Zarathustra. O esforço valeu a pena, senti ainda algumas dores, Nietzsche não é fácil, mas consegui ler até o fim e acho que entendi alguma coisa.
Na vida de todo o leitor chega o triste momento de decidir o que não ler. Não dá para ler tudo e há que fazer escolhas, ainda mais porque além de ler tem que reservar tempo para reler, o que é tão importante quanto ler! E para continuar mencionando autores de língua alemã, dois escritores que eu já sei que não vou ler são Robert Musil e Hermann Broch. Para quem tem vontade de ler O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio acho que a preparação ideal seria uma combinação de tai chi, alpinismo e ginástica olímpica.
Marcel Proust, por outro lado, é um autor que eu tinha muita vontade de conhecer e quando chegou o dia de me lançar ao Em Busca do Tempo Perdido tive que enfrentar um novo problema. Se Dostoievski exige força, Marcel Proust requer sobretudo resistência, muita resistência. Para aumentar a minha resistência passei também a correr. Terminei O Caminho de Guermantes na mesma semana em que completei a minha primeira meia maratona!
Por esse tempo eu já tinha me tornado um atleta-leitor ou um leitor-atleta. Eu sentia vagamente no entanto que alguma coisa faltava na minha vida e nas minhas leituras, mas eu não sabia o quê. Nietzsche veio em minha ajuda e eu descobri a dança! Todos os fins de semana eu ia dançar – forró, gafieira, samba. E graças à dança eu pude finalmente ler a poesia de Jorde de Lima, a prosa de Guimarães Rosa e a mágica literatura Latino-Americana que até então eu desconhecia. Pude ler Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti, Garcia Márquez e Augusto Roa Bastos! A dança abriu para mim todo um novo mundo de leituras e trouxe a poesia para a minha vida!
Ler não é simplemente ler. É um aprendizado permanente, exige dedicação e preparo, esforço e ritmo. Aliás como tudo na vida.
Franklin Frederick é ativista ambiental
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