8 de junho de 2026

Como a literatura fez de mim um atleta, por Franklin Frederick

Ler não é simplemente ler. É um aprendizado permanente, exige dedicação e preparo, esforço e ritmo. Aliás como tudo na vida.
Reprodução

Franklin Frederik relata como a literatura marcou sua infância, iniciando com Monteiro Lobato e avançando para clássicos internacionais.
Para manter a concentração na leitura, ele adotou exercícios físicos como natação, flexões, halterofilismo e corrida.
A dança ampliou seu repertório literário, permitindo apreciar autores latino-americanos e trazendo poesia à sua vida.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Como a literatura fez de mim um atleta

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Homenagem ao dia Mundial do Livro  23 de Abril

por Franklin Frederick

Tudo começou com o Monteiro Lobato.

Caçadas de Pedrinho foi a primeira grande leitura da minha infância. Depois vieram Reinações de Narizinho, A Chave do Tamanho, O Picapau Amarelo e todos os outros. Ainda hoje, tantos anos depois, lembro com muita  nitidez da alegria intensa e concentrada com que eu lia estes livros, das tardes inteiras que passei com eles, sem esforço ou cansaço.

Júlio Verne veio em seguida e foi então  o tempo das aventuras em lugares distantes e maravilhosos:   Miguel Strogoff, A Ilha Misteriosa, Vinte Mil Léguas Submarinas … O mundo ficava maior e eu crescia.

Os Meninos da Rua Paulo do húngaro Ferenc Molnár foi o último livro  da minha infância e à época das aventuras sucedeu o tempo da ternura : quem poderia jamais esquecer de Clarissa, do Érico Veríssimo? Ou de  O Amanuense Belmiro do Cyro dos Anjos? Ou ainda de O Feijão e o Sonho do sempre admirável Orígenes Lessa ?

E aí aconteceu o encontro decisivo com Machado de Assis. Lendo as  Memórias Póstumas de Brás Cubas eu tive, pela primeira vez,  a certeza instintiva e imediata de que aquilo era algo grandioso e incomum, um acontecimento novo e inesperado no mundo.

Depois, muito depois, já adulto, percebi que não conseguia mais ler com aquela mesma intensidade . O interesse pelos livros continuava o mesmo, embora com o trabalho e as outras obrigações eu tivesse agora bem menos tempo. O problema não era a falta de tempo, era a qualidade da atenção que antes era tão mais completa. Bastavam alguns minutos sentado e lá me vinha uma inquietação que não me deixava ler sossegado. Achei que devia ser falta de exercício e comecei a nadar todo dia pela manhã. A mudança foi surpreendente, aquela inquietação desapareceu e eu recuperei a qualidade da minha atenção e podia ficar de novo lendo por horas sem interrupção!

Foi nesse período que eu li todos os romances e contos do Lima Barreto, as deliciosas  Memórias de um Sargento de Milícias do Manuel Antonio de Almeida e que  comecei a ler Dickens e Balzac. Tudo parecia ir muito bem até que eu decidi ler os autores russos. Já nas primeiras páginas de A Morte de Ivan Ilitch  senti um cansaço enorme. Eu não estava preparado para ler Tolstói. Além de nadar passei a fazer 150 flexões e 250 abdominais todos os dias e graças a este treinamento adicional em pouco tempo eu pude ler não só  Tolstói, mas também Turgueniev e Gogól !

Quando eu comecei a ler Crime e Castigo porém, voltaram o cansaço e uma enorme dificuldade de manter a atenção. Novamente senti que  meu preparo não era suficiente, Dostoievski exigia mais, porém o quê? Não demorei a encontrar a resposta: halterofilismo. Entrei numa academia e comecei a levantar pesos pelo menos três vezes por semana. O halterofilismo me ajudou a conseguir finalmente ler Os Irmãos Karamazov, Os Demônios e O Idiota.

Não tive problemas depois para ler Os Buddenbrook, A Montanha Mágica e O Doutor Fausto do Thomas Mann. As leituras fluiam e eu passei a adorar os domingos de chuva que me davam o pretexto ideal para  ficar em casa lendo por horas a fio, sem culpa.

Por causa do Doutor Fausto e de todas as alusões à vida do Nietzsche que Thomas Mann colocou nesta sua maior obra, fiquei curioso de ler alguma coisa deste solitário pensador alemão. Desta vez me preparei bem antes. O que mais  se precisa para ser um bom leitor de filosofia é elasticidade, por isso passei a dedicar pelo menos meia hora todos os dias a fazer alongamento e só depois de algumas semanas dessa prática é que decidi tentar ler o Assim Falou Zarathustra. O esforço valeu a pena, senti ainda algumas dores, Nietzsche não é fácil, mas consegui ler até o fim e acho que entendi alguma coisa.

Na vida de todo o leitor chega o triste momento de decidir o que não ler. Não dá para ler tudo e há que fazer escolhas, ainda mais porque além de ler tem que reservar tempo para reler, o que é tão importante quanto ler! E para continuar mencionando autores de língua alemã, dois escritores que eu já sei que não vou ler são Robert Musil e Hermann Broch. Para quem tem vontade de ler O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio acho que a preparação ideal seria uma combinação de tai chi, alpinismo e ginástica olímpica.

Marcel Proust, por outro lado, é um autor que eu tinha muita vontade de conhecer e quando chegou o dia de me lançar ao Em Busca do Tempo Perdido  tive que enfrentar um novo problema.  Se Dostoievski exige força,  Marcel Proust requer sobretudo resistência, muita resistência. Para aumentar a minha resistência passei também a correr. Terminei O Caminho de Guermantes na mesma semana em que completei a minha primeira meia maratona!

Por esse tempo eu já tinha me tornado um atleta-leitor ou um leitor-atleta. Eu sentia vagamente no entanto que alguma coisa faltava na minha vida e nas minhas leituras, mas eu não sabia o quê. Nietzsche veio em minha ajuda e eu descobri a dança! Todos os fins de semana eu ia dançar – forró, gafieira, samba. E graças à dança  eu pude finalmente ler a poesia de Jorde de Lima, a prosa de Guimarães Rosa e a mágica literatura Latino-Americana que até então eu desconhecia. Pude ler Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti, Garcia Márquez e Augusto Roa Bastos! A dança abriu para mim todo um novo mundo de leituras e trouxe a poesia para a minha vida!

Ler não é simplemente ler. É um aprendizado permanente, exige dedicação e preparo, esforço e ritmo. Aliás como tudo na vida.

Franklin Frederick é ativista ambiental

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados