Por Guilherme Leite Ribeiro
Em The Conversation Brasil
Na política brasileira, poucas expressões condensam tantos interesses quanto “bancada BBB” – Boi, Bala e Bíblia. Formada por parlamentares ligados ao agronegócio, à segurança pública e a pautas religiosas conservadoras, ela ganhou força e visibilidade durante os anos Bolsonaro, mas não nasceu nem terminou com ele. Ao contrário: segue atuando como um dos blocos mais influentes do Congresso, atravessando governos, negociando poder e moldando debates que vão da política ambiental aos costumes.
Embora as frentes parlamentares tenham sido criadas no início dos anos 2000, foi apenas a partir de 2005 que elas puderam se tornar oficiais, isto é, registradas e com previsão legal.
Segundo o Ato da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados que previu esses registros, para serem reconhecidas as frentes precisam cumprir três obrigações: ter o apoio de 1/3 do total de parlamentares (somando-se deputados e senadores, o que significa 198 congressistas), apresentar uma ata de fundação e ter um coordenador responsável.
É comum que deputados e senadores, sem ter nenhuma aproximação com o tema da frente, assinem a lista de apoio a ela. Muitas vezes, isso é feito em busca de reciprocidade no futuro, quando for a sua vez de pedir apoio.
Uma bancada diferente das demais
Sendo assim, ter acesso à lista de apoiadores da frente parlamentar não é suficiente para saber quem realmente é atuante nela. Em uma rápida busca na lista mais atualizada no site da Câmara dos Deputados, encontram-se 290 grupos, sendo que a maioria não chega nem a sair do papel. Contudo, um cenário muito distinto se apresenta em relação à bancada BBB…
Segundo o pesquisador Silvio Cascione, Frente Parlamentar de Segurança Pública (FPSP), a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e a Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) são as bancadas parlamentares mais institucionalizadas do Congresso Nacional. O que isso significa? Renovam-se a cada legislatura, reúnem-se periodicamente, apresentam assessoria própria, além de seus membros discursarem costumeiramente em seu nome, entre outras atividades que as tornam atuantes no Legislativo.
Não se sabe exatamente a origem do acrônimo BBB (referente ao famoso reality show da Rede Globo), mas alguns autores acreditam que a sigla apareceu em uma fala da deputada Erika Kokay, do PT, em 2015. Independente disso, é inegável que esse grupo tem conquistado vitórias importantes no Legislativo.
Origem
Em 2011, após escândalo envolvendo o ministro Antônio Palocci, o governo Dilma entrou em campo para blindá-lo. Era a mesma época em que se articulava a distribuição de uma cartilha anti-homofobia nas escolas. Para evitar a convocação de Palocci no Congresso, a bancada evangélica exigiu a retirada do que ficou conhecido pejorativamente como “kit gay” – no que foi exitosa.
Em 2022, deputados da bancada do boi articularam projeto para flexibilizar a liberação de agrotóxicos em larga escala. O projeto foi amplamente criticado por entidades ambientalistas, mas acabou passando com facilidade.
Em 2015, com Eduardo Cunha à frente da Câmara dos Deputados, abriu-se caminho para a votação de um dos projetos mais caros à “bancada da bala”: a redução da maioridade penal. A PEC acabou vitoriosa naquela casa legislativa.
Aliás, foi sob a presidência de Eduardo Cunha que a bancada BBB ganhou forte projeção, unindo-se em manifestos e entrevistas conjuntas. À exceção da FPSP, que sempre fora distante dos governos do PT, a FPE e a FPA tiveram boa relação com os governos de Lula e Dilma até ali. Entretanto, algo mudou nos últimos tempos.
Não se pode perder de vista a distância entre as pautas conservadoras abraçadas pela bancada BBB e o progressismo histórico das bandeiras petistas. Com o passar dos anos, o desgaste foi aparecendo com mais clareza. A pauta do aborto que dominou as eleições de 2010 e a flexibilização das regras ambientais reivindicadas pelos ruralistas na proposta inicial do Novo Código Florestal, de 2012, são apenas alguns dos exemplos que mostravam os limites ideológicos daquela relação.
Em 2016, o distanciamento da bancada BBB com o PT se tornou mais claro na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Ali, os três grupos votaram majoritariamente a favor do afastamento, aproveitando-se também do desgaste em torno da petista.
Aproximação umbilical com Bolsonaro
Com o impeachment aprovado e a respectiva ascensão de Michel Temer à Presidência, a bancada BBB o apoiou, mantendo a tradição de suporte ao presidente no poder. Seus membros votaram em peso a favor do mandatário nas duas vezes em que ele foi alvo de pedido para abertura do processo de impeachment, sob forte suspeita de corrupção. Todavia, nada se compararia à relação construída entre a bancada BBB com o sucessor de Temer eleito em 2018: Jair Messias Bolsonaro.
Antes mesmo do primeiro turno daquelas eleições, alguns deputados da bancada já expressavam seu apoio publicamente ao então candidato, o que se reforçou ainda mais no segundo turno. Uma vez no poder, Bolsonaro retribuiu o apoio: nomeou a presidente da FPA na pasta da Agricultura, prometeu à FPE a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” ao STF, além de ter agradado à FPSP ao promover uma liberação do porte de armas jamais vista.
Com a aproximação umbilical e tantos agrados, nem a condução desastrosa do governo na pandemia seria capaz de provocar alguma rusga na relação. Na verdade, o único atrito real – porém debelado – envolveu a possível transferência da embaixada brasileira em Israel.
Em razão da pressão evangélica, o governo prometera mudar o local de Tel Aviv para Jerusalém, o que poderia provocar retaliação de países árabes. Preocupada com o impacto econômico, a bancada ruralista entrou em campo e conseguiu demover a ideia do presidente, pois se sabia que ela seria muito ruim para o agronegócio dependente da exportação para os países árabes.
Com tudo isso, não foi surpresa a grande militância dos principais membros da bancada BBB nas eleições de 2022 pró-Bolsonaro. Se em 2018 um candidato que até então era desacreditado recebeu apoio de parcelas expressivas dos grupos, agora o entusiasmo era quase unânime entre seus integrantes.
Vale lembrar que a maioria dos integrantes da bancada BBB faz parte do chamado “Centrão”, ala fisiológica do Congresso que costuma apoiar o presidente de ocasião em busca de benesses políticas e econômicas. Logo, não seria absurdo assistir a uma reaproximação das frentes parlamentares com os petistas. Mas, no governo Lula III, a bancada BBB mostrou que sua relação com Bolsonaro não era apenas fisiológica, mas também ideológica.
Percebeu-se ali um afastamento real de deputados e senadores que compõem a bancada em relação a Lula. Grande parte deles, saudosista de Bolsonaro, fez oposição ferrenha ao petista.
Nas eleições deste ano, tudo indica que a bancada BBB estará ao lado do indicado da família Bolsonaro. Caso Lula seja reeleito em 2026, sua chance de aproximação pode vir de dissidências pontuais – como o caso do evangélico Otoni de Paula mostrou ser possível. Por ora, esperar mais do que isso parece fantasioso, uma vez que é preciso admitir que a bancada BBB se bolsonarizou – e isso não tem a ver apenas com questões pragmáticas ou fisiológicas.
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