19 de junho de 2026

A homossexualidade do Cabo Anselmo e sua traição contra Soledad Barrett, por Urariano Mota

E escrevi “Soledad no Recife” sem expor, de modo claro, a homossexualidade do Cabo Anselmo. Ele era um instrumento do fascismo no Brasil.
Cabo Anselmo - Reprodução

O escritor Urariano Mota aborda a traição do Cabo Anselmo contra Soledad Barrett na guerrilha brasileira.
Relatos indicam a homossexualidade de Anselmo, mas o autor destaca que isso não justifica seus atos de traição.
Soledad Barrett permanece como símbolo de luta e resistência, superando as infâmias da ditadura brasileira.

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A homossexualidade do Cabo Anselmo e sua traição contra Soledad Barrett*

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por Urariano Mota

Quando escrevi “Soledad no Recife”, o romance que narra os últimos dias da brava e bela Soledad Barrett no Recife, um dos problemas que enfrentei foi o Cabo Anselmo. Ele, que havia sido um dos maiores traidores da esquerda brasileira, ele, que é um caso único no mundo, porque não recuou em entregar para a morte a sua companheira grávida Soledad, me atormentou por muitos meses.  

Além de pesquisar informações sobre o seu modo de agir, e de procurar vê-lo como um grande fingidor na guerrilha brasileira, havia que vencer a repugnância de compreendê-lo, senti-lo, sim, sentir o que ele sentia, pensar o que ele pensava. Ou do contrário, ele não seria um personagem, primeiro em “Soledad no Recife”, depois em “A mais longa duração da juventude”, quando ele reaparece a fazer caretas pelas costas de Soledad Barrett.

Então, eu tive que vencer a explicação de algumas pessoas para o seu ato de trair militantes socialistas e entregá-los para a morte. Uma explicação que era a mais simples: ele havia traído a beleza de corpo e de alma de Soledad Barrett porque não gostava de mulher. Portanto, ele seria insensível aos encantos femininos. Porque, enfim, seria um homossexual masculino ortodoxo (sabe-se lá o que isso queria dizer): aquele que ama apenas outro homem, e nesse amor existe uma repulsa à mulher. O mundo que atraía para essa simplificação era muito forte. Em primeiro lugar, seria uma vingança tardia para os cruéis assassinatos que o Cabo Anselmo gerou, além do filho feto no ventre de Soledad: vingança de expor a vida íntima do assassino, de sexo reprimido pela sociedade e pela esquerda no tempo da ditadura brasileira. Em segundo lugar, porque seria uma “explicação” quase psicanalítica: matando, ele respondia à perseguição que sofrera na Marinha do Brasil e na esquerda da época.  

Mas a vida dupla de homossexuais, homens casados com mulheres, não era um paradoxo absurdo ou uma nova quadratura do círculo. Entre os casos mais famosos estão o de Oscar Wilde, escritor genial, que foi casado com uma mulher, Constance Lloyd. Mas em 1895, Wilde foi preso pelo que era considerado, então, crime de sodomia, por se envolver com o  lorde Alfred Douglas. Assim também o grande ator Anthony Perkins, homossexual,  intérprete inesquecível do filme Psicose, que acabou morrendo, em 1992, de complicações relacionadas à AIDS. Perkins foi casado com a atriz Berry Berenson, com quem teve dois filhos. E muitos e tantos outros homens homossexuais, casados com filhos, até hoje. A homossexualidade do Cabo Anselmo jamais seria um obstáculo, não constituiria qualquer paradoxo na relação Anselmo/Soledad.

Mas, ainda assim, eu não podia fugir aos relatos que afirmavam a homossexualidade do Cabo Anselmo. De modo público, na imprensa brasileira, estava na entrevista de Ângelo Pezzuti em 1974 a Herbert Daniel, publicada no jornal O Pasquim em 1984: na Marinha do Brasil, Anselmo teve casos com oficiais. Em Cuba, teria feito “autocrítica” porque tentou seduzir para o sexo um guerrilheiro. Mais adiante, um pintor uruguaio, dono do restaurante Lautréamont em Olinda, me contou: Anselmo saía à procura clandestina de rapazes na noite, enquanto vivia com Soledad Barrett, que de nada sabia.

No entanto, havia de superar essas informações, até mesmo omiti-las, porque não serviam à expressão do drama e tragédia de Soledad Barrett. O ato de escrever impõe a obrigação de refletir, de ponderar, de não fazer uma exposição de ideias preconceituosas. Onde existe arte, o preconceito tem que morrer. Ou seja, a escrita para ser verdadeira há de ser a superação de todo preconceito. Daí eu ponderei: o crime do Cabo Anselmo contra as pessoas não precisava da sua homossexualidade.

O que eu sabia era a parte submersa do iceberg do Cabo Anselmo. Então eu pude escrever em “Soledad no Recife”, um pouco antes do fim da heroica guerrilheira, que pergunta diante do horror:

“- Por quê? Por quê?

Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura ética jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo não sorri agora, sorrirá depois, quando uma repórter lhe perguntar:

– Você dorme bem?

– Putz, tranquilamente. 

Ou mais textualmente:

– Você dorme tranquilo? Nunca sentiu pesadelo durante a noite? Não tem remorso pelo que fez?        

– Absolutamente (risos)….

Por enquanto, não, agora na butique em Boa Viagem Anselmo não ri, embora a cena lhe pareça um tanto cômica.

– Por quê? Por quê?

Ele apenas assiste ao espancamento e suplício. Como uma prova de que é contra a terrorista”.  

É claro, houve muitos outros homossexuais na esquerda. Mas foram e são gays revolucionários. Foram e são gays comunistas. Dignos, necessários e fundamentais até hoje. Quando escrevi “Soledad no Recife”, a reflexão que lembrava os gênios Pier Paolo Pasolini e Federico García Lorca não admitia estupidez e preconceito. Todo homem, toda mulher é livre para ter o seu sexo e seu gosto na forma e conteúdo que desejar. Ser gay não poderia ser um rótulo da pessoa, como se fosse a marca de um produto. E assim escrevi “Soledad no Recife” sem expor, de modo claro, a homossexualidade do Cabo Anselmo. Ele era um instrumento do fascismo no Brasil. Ele foi um agente cínico do terror na ditadura. O Cabo Anselmo homossexual jamais poderia iluminar os seus crimes contra a humanidade. E Soledad Barrett sobreviveu, na memória e no respeito universais.  

A pessoa fundamental era Soledad Barrett. Como está em “Soledad no Recife”, numa página:

“- A nossa teoria, – fala  Soledad – a teoria revolucionária é uma bomba de efeito maior que a de Hiroxima. Percebes?

Percebo somente agora, muitos anos depois. Me vem mesmo uma necessidade de chorar, que antes eu não tinha. Os crentes, os primeiros cristãos, não teriam mais fé que você, Soledad, quando falava que a teoria revolucionária era uma bomba maior que a de Hiroshima. Quanta crença no ardor, que certeza louca e invencível na palavra escrita! Então me vem uma necessidade de chorar, que antes eu não tinha. Talvez fôssemos crianças sufocadas cujas lágrimas não rebentavam. O nosso choro então era um soluço. Seco. Era uma dor de passagem, porque logo, logo o futuro estava adiante. A dor era só um intervalo, enquanto a felicidade não vinha. Lembro que ao te escutar, Soledad, os meus olhos marejavam, marejam. Havia uma comunhão de êxtase que só a poesia e os transportes místicos conseguem. Um gozo, um prazer mais alto, um orgasmo sublimado. Por isso que a tua memória, por entre todas as infâmias daquelas horas, e a tua presença nesta noite, na tua casa,  me dizem que sou um homem feliz. Sou feliz e não percebo, sou feliz e disso não tenho consciência, porque me embriago quando declamas, recitas e cantas, segura do efeito do que procuras e prometes:

– A nossa teoria é uma bomba maior que a de Hiroxima.

Penso: ‘Adivinhas o teu látego sobre mim, Soledad?’.

– Sei, entendo, eu respondo. A poesia é maior que a fissão nuclear.

– Sim, mas eu me refiro à teoria revolucionária, companheiro – responde  Soledad. –  Eu me refiro ao pensamento de Marx, entendes? Percebes?”

Percebo, enfim. A luta de Soledad era e continua a ser a medida.

*Vermelho A homossexualidade do Cabo Anselmo e sua traição contra Soledad Barrett – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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