O acordo provisório firmado entre Estados Unidos e Irã após quase quatro meses de conflito abriu espaço para uma avaliação que vai além do cessar-fogo. Em Pequim, a leitura predominante é que a guerra expôs limitações do poder norte-americano e fortaleceu a posição internacional da China como ator diplomático e econômico relevante.
Quase quatro meses depois dos primeiros bombardeios norte-americanos, o regime iraniano permanece no poder, Washington precisou recorrer à negociação e a China aparece como uma das beneficiárias indiretas da crise.
Além de preservar sua parceria com Teerã, Pequim conseguiu manter diálogo simultâneo com todos os atores envolvidos no conflito. A estratégia permitiu ao governo chinês projetar uma imagem de mediador responsável, comprometido com a estabilidade internacional, sem assumir os custos políticos de liderar diretamente as negociações.
O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou publicamente a postura chinesa durante coletiva após a cúpula do G7. Trump agradeceu ao presidente Xi Jinping por manter neutralidade durante o conflito e afirmou que Pequim contribuiu para o avanço das negociações de paz.
Diplomacia de equilíbrio
Segundo a CNN norte-americana, a China adotou uma estratégia cuidadosamente calibrada: ao mesmo tempo em que condenou os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, continuou comprando petróleo iraniano apesar das sanções americanas e, ao mesmo tempo, preservou canais de comunicação com Washington e com países árabes da região.
A sucessão de visitas diplomáticas a Pequim reforçou essa posição. Lideranças de diferentes países envolvidos ou afetados pelo conflito passaram pela capital chinesa, permitindo ao governo de Xi Jinping apresentar-se como um centro alternativo de articulação internacional.
Embora autoridades chinesas evitem reivindicar protagonismo direto no acordo entre Washington e Teerã, o Ministério das Relações Exteriores destacou o que chamou de esforços “incansáveis” para promover uma solução negociada, incluindo a proposta de paz apresentada por Xi em abril.
O debate sobre os limites do poder americano
O conflito também alimentou um intenso debate entre acadêmicos e analistas chineses sobre o papel dos Estados Unidos na ordem internacional.
Uma das comparações mais recorrentes remete à chamada “Crise de Suez”, em 1956, episódio frequentemente apontado como marco do declínio da influência global britânica. A pergunta formulada por alguns especialistas é se a guerra no Oriente Médio teria representado um momento semelhante para os Estados Unidos.
Para esses analistas, o conflito revelou dificuldades de Washington para mobilizar uma ampla coalizão internacional, além de demonstrar que a superioridade militar americana já não produz automaticamente os resultados políticos esperados.
Desta forma, pode-se dizer que o confronto ajudou a China a reforçar sua imagem de defensora da negociação, da soberania nacional e da não intervenção, o que está alinhado com os planos do presidente Xi Jinping: consolidar uma ordem internacional menos dependente da liderança americana e mais aberta à influência de potências emergentes.
Contudo, o país ainda tem um obstáculo pela frente: transformar o discurso de defesa da paz em capacidade efetiva de resolução de conflitos e instabilidades globais.
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